Sexta, Janeiro 25
[o gângster]

A boa notícia em relação a esse filme é que ele é bem melhor do que os últimos de Ridley Scott. Mas quando o conjunto engloba Um Bom Ano, Cruzada e Hannibal, a notícia não parece tão boa assim. Os notáveis feitos de Frank Lucas, o motorista negro que virou chefão do tráfico de drogas, mereciam um roteiro que deixasse a história mais interessante e que explorasse melhor a relação entre Lucas e o detetive Richie Roberts, resumida a um quase-epílogo.
A intenção de dar conta de tudo - e realmente o tudo neste caso engloba um belo deslocamento temporal e espacial - terminou por privilegiar momentos menos atraentes e comprimir outros mais importantes. Ridley Scott tenta equilibrar as coisas com muitos detalhes das vidas pessoais dos protagonistas, que nunca se encontram até o final - Fogo contra Fogo, de Michael Mann, era bem melhor nisso -, o que parece querer, além de humanizar os personagens, deixar um espaço razoável para que os atores façam seu trabalho.
No entanto, a performance de Denzel Washington é bem frustrante. A cada filme, salvo raras exceções, ele parece interpretar cada vez mais... Denzel Washington. Nessa seara, Russel Crowe estava bem melhor, embora não haja performances memoráveis. Nem mesmo a de Ruby Dee, lembrada pela Academia mais por seu conjunto da obra do que pelo papel minúsculo que tem aqui. Impressionante é o retorno de Josh Brolin, que mais de 20 anos depois de Os Goonies, emplaca um filme atrás do outro.
Mas a pergunta que não quer calar é por que Ridley Scott resolveu chamar o grande Harris Savides para o filme se pretendia podá-lo para ter uma fotografia quadrada, convencional? Revoltante. E é justamente esse clima formal que predomina em O Gângster, um filme que chega até a ser correto, mas que, de tão feito 'à moda antiga' - no que isso tem de pior -, parece um pouco passado.
O Gângster 
, de Ridley Scott
American Gangster, EUA, 2007. Roteiro: Steven Zaillian, baseado no livro "The Return of the Superfly", de Mark Jacobson. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Desenho de Produção: Arthur Max. Figurinos: Janty Yates.
Elenco: Denzel Washington, Russel Crowe, Chiwetel Ejiofor, Ruby Dee, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, RZA, Carla Gugino, Common, John Ortiz, Cuba Gooding Jr., Armand Assante, Idris Elba.

E, na próxima terça, dia de 29, todos os leitores deste blogue estão convidados para o aniversário de cinco anos do Filmes do Chico, que será comemorado com uma listinha com os 100 filmes mais imporantes da minha vida.
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Comentários
Também postei sobre o filme lá no blog ...
Bem, pessoal, esse, pelo que eu saiba, é o final da história real. Se a vida foi assim, do que reclamar?
Wallace, acho essas comparações bem injustas com os clássicos que vc apontou, mas cada um por si.
Fernando, ele bem que parece o Nolte, mas quero ver se ele me apresenta uma interpretação como a de "Clean"...
Minha gente, mesmo com delação premiada o cara ainda ficou 15 anos preso. Não acho que os fatos foram redentores para com ele. Se fosse aqui no Brasil... O tom do filme talvez leve à alguma simpatia com o personagem, mas creio que isso foi uma escolha do diretor para amenizar o esquemático mocinh versus bandido de sempre.
Gostei do filme, Chico. A empreitada de fazer um filme "épico", narrando toda a odisséia do sujeito, com ascenção e queda, foi bem arriscada, o filme podia ter ficado bem gordo. Mas achei competente, interessante e, mesmo com quase 3hs, agradável de se ver.
É claro que não chega perto da arte de um Godfather ou Bons Companheiros. Longe disso. Enfim, Scott fez seu filme de gangstêrs e, apesar do bom resultado, também conseguiu demonstrar que é justo colocá-lo num degrau abaixo de Coppola e Scorsese.
Acho interessante essa retomada de um tom mais "clássico" nos últimos filmes policiais que se tem feito. Encaixo nessa linha também o bom "Donos da Noite" e até mesmo o "Zodíaco" (que sei que vc adorou, pode me xingar, eheh...).
Agora, quanto ao Denzel Washington, concordo 100% contigo. Ele manda muito bem, claro, mas também me parece sempre fazendo o mesmo papel. As mesmas caras e bocas, os mesmos truques, o mesmo olhar de sempre. Gostei bem mais do Russel Crowe desta vez.
Bom, desculpe a extensão do comentário, mas cheguei do cinema agora e li sua resenha ainda quente :-)
Um abraço,
Drex, que bom que seu comentário foi grande, sinto falta de boas discussões. Olha, eu não acho que o filme poss ser colocado num mesmo "modus operandi" de "Os Donos da Noite" e de "Zodíaco". Acho que estes dois fazem referência a filmes mais policiais mesmo, setentistas. "O Gângster" emula um filme mais de máfia, com uma grande carga de drama enquanto gênero. O problema é que acho que tudo é muito pouco depurado. Me pareceu um filme que quer dar conta de muuita coisa e não conseguiu quase nada. Enfim...
Apesar do Denzel ser sempre ele mesmo nos filmes, ele ficou bem no papel. O problema é que aquele jeito frio é sempre o chamariz, em todos os filmes que ele faz ultimamente.
E acho que o Ridley Scott se preocupou tanto em aprofundar o Lucas que esqueceu completamente do Richie, fazendo a trama paralela dele ser vazia e chata, melhorando só no terceiro ato.
Gostei do lay out além do conteúdo que sempre é bom.
abs,
André
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