Quarta, Setembro 26
[o ano em que meus pais saíram de férias]

A ditadura militar é um carma para os cineastas brasileiros que, quando tentam retratá-la, geralmente assumem inflamados discursos de sindicalistas que prejudicam seus filmes com a passionalidade e o revanchismo, ambos de certa forma justificados. Cao Hamburger seguiu uma linha oposta. Apesar de situar a história naquele período, num trabalho exato de reconstituição de época, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é muito maior do que aqueles que são feitos apenas para denunciar. A maneira como o cineasta articula o retrato temporal com o universo que mais domina, o das crianças, é o diferencial.
Não é de hoje que Hamburger revelou sua paixão pelo universo infantil. Talvez seja o mais apaixonado defensor das crianças no cinema brasileiro. Aqui, dá um passo além ao imprimir um raríssimo olhar maduro sobre o assunto, sem nunca confinar ou adequar o outro olhar, o de seu pequeno protagonista, a modelos adultos. E, nessa condição, encontrou um belo ator. Michel Joelsas nunca é um prodígio, mas guarda a exata melancolia que a personagem exige. Mauro é uma criança sozinha e também é um exilado político, tentando compreender toda uma sorte de coisas difíceis enquanto sente saudades dos pais, começa a fazer novos amigos e assiste os jogos da Copa do Mundo.
Esta, a Copa de 1970, por sinal, é outro elemento importantíssimo do filme. A forma como o futebol é costurado à narrativa, ou melhor, como o futebol costura a narrativa, é um exercício para qualquer roteirista porque é ele que sustenta a postura do filme em relação ao espaço histórico difícil, algo difícil de ser alcançado com eficiência e sem ranço. Tudo isso sem a tendência mais óbvia do generalismo. O filme é construído delicadamente como uma experiência pessoal de descoberta e de amadurecimento, entre a nostalgia e o retrato de época, e é através dessa experiência que ele se torna universal.
Texto publicado originalmente em outubro de 2006.
Posts similares:
cinturão vermelho
Coisas pra fazer chorar
Fome de bola
Comentários
E por favor , não esqueça de deixar um comentário , falow ?
Abraço ,
Alexander Ribeiro .
Na verdade, ele estreou, sim, Snake, em Jundiaí. O filme tem lançamento somente em 12 de outubro, mas esteve em cartaz por uma semana para se tornar elegível para o Oscar.
A questão é que somente velhinhos votam no melhor filme estrangeiro. Para votar nesta categoria, é preciso ver todos os candidatos (ou a maior parte deles, acho). E só os membros aposentados conseguem isso. Por isso, filmes violentos, como "Cidade de Deus", sequer foram indicados.
Não vi "Tropa de Elite" e não faço a menor questão de vê-lo em cópia pirateada. Não tenho nada contra´; até acho que vou gostar, mas "O Ano...", um belíssimo filme, tem muito mais chances para o Oscar.
ééé meus amigos...B.O.P.E ruleees!!
Deixe aqui seu comentário:



péssimo 







