Terça, Julho 31
[duas ou três coisas que eu sei de Bergman]

Ingmar Bergman morreu ontem. Confesso que fiquei muito triste porque há vários de seus filmes figuram entre os meus favoritos de todos os tempos, de todo o cinema. Eu vi Gritos e Sussurros, um dos filmes da minha vida, por acaso. Fui por acaso numa revendedora de VHS em Maceió. E, por acaso, naquele lugar em que só havia blockbusters de ação e terror, havia uma cópia do longa. Eu, que nunca havia visto um filme de Bergman, mas começava a me interessar por cinema, comprei o filme por acaso. E ele nunca mais saiu dos meus dez mais.
Para lembrar da obra de Bergman, eu convidei alguns amigos a escrever em poucas linhas sobre seus filmes favoritos entre os trabalhos do diretor.
Ailton Monteiro, Diário de um Cinéfilo, Fortaleza.
Faz um tempão que eu vi Morangos Silvestres. Mesmo assim, até hoje o filme fica na minha memória como sendo o trabalho de Bergman que mais me impressionou, mais me cativou, mais me tocou. Apesar de a memória ir apagando facilmente nossas lembranças, tem coisas que a gente não esquece, como o rosto enrugado de Victor Sjöström, sua expressão de sabedoria e tristeza diante da vida, ao relembrar do seu passado, da sua infância, da história de um amor perdido. Poucas vezes o sonho e a memória foram tão bem representados no cinema.
André de Leones, Goiânia.
Persona. Pornografia da mais alta qualidade. Ou quando duas mulheres, longe de pecar, descobrem toda a dor intrínseca ao silêncio mediante a verborragia de uma delas. O filme prova, de uma vez por todas, que a palavra não cura nada, nem ninguém. E tampouco o silêncio o faz.
Eduardo Miranda, Mira!, Rio de Janeiro.
Por um instante, feche os olhos e contamine o negro diante da visão com a cor vermelha. São os fades em Gritos e Sussurros. Junte a isso a crueldade do tempo através de um relógio que soa as badaladas indiferente ao que se passa em todo o filme e o confinamento, seja pelo close, seja pelo espaço cênico limitado, das personagens femininas, prestes a explodirem em sentimentos de raiva e de medo. Por essas e outras qualidades indizíveis, Gritos e Sussurros é o grande filme de Ingmar Bergman.
Mateus Nagime, Cinema, Mon Amour, Rio de Janeiro.
Fanny e Alexander pode até não ser o melhor filme de Ingmar Bergman, mas para mim tem um sabor especial, já que foi lá em 2001, numa madrugada da Band, meu primeiro contato com o cineasta e logo me encantei. Aqui ele faz sua enciclopédia, utilizando vários temas já explorados em suas obras mais antigas, ao meio de um conflito de gerações e épocas, no qual eras se confundem e emoções são reprimidas. Tudo é possível e provável, pois tempo e espaço não existem de forma ordenada, criando crises de identidade e personalidade que culminam na obrigatória referência a Deus, em uma das personagens mais fortes e interessantes da carreira do diretor.
Maíra Ezequiel, Aracaju.
Eu acho Persona dilascerante! Duas mulheres incríveis em busca de si próprias. E uma bela homenagem ao cinema. Aliás, uma ode à imagem, em todos os sentidos. Bergman era um ser superior. Tem algo naquele olhar cinematográfico absurdamente único. Uma mistura de lúdico com onírico. O filme queima de tantas revelações.
Ronald Perrone, Vitória.
A esperança de entender os segredos a cada revisão de Persona é descobrir as seqüências de imagens e criação de realidades através de idéias literais. A cena em que Bibi Anderson conta suas experiências sexuais na praia são tão poderosas que realmente existe a noção de ter visto no filme o que foi narrado.
Milena Andrade, Moeda Corrente, Maceió.
Gritos e Sussurros. Uma das experiências cinematográficas mais intensas que já tive na vida. Acho que, nesse filme, Bergman levou ao pé da letra o conselho que ele mesmo dá em seu livro "Imagens" de colocar os demônios internos a seu favor amarrando-os à frente da carruagem.
Alexandre Inagaki, Pensar Enlouquece, São Paulo.
Com O Sétimo Selo constatei que o cinema é uma arte capaz de atingir a mesma densidade filosófica e artística de uma peça de Shakespeare, um romance de Thomas Mann, uma pintura de Picasso. Todas as grandes questões são abarcadas nesta obra-prima, que ora fala de Deus, da humanidade e da Morte com jocosidade, ora abrindo as feridas na alma do espectador com seqüências como a queima da jovem bruxa, em cenas emolduradas pela fotografia em p&b de Gunnar Fischer. A Morte joga xadrez e nos conclamará para uma última valsa; mas o cinema, a grande arte de Bergman permanecerá. Coruscante, calcinante, única.
Hudson Dalbem, Epílogo.
"Quando tinha meus 15 anos de idade e encarei meu primeiro Ingmar Bergman, Morangos Silvestres, não compreendi como um drama humano que parecia tão pés no chão de repente colocava um homem enxergando - literalmente - seus familiares ao redor de uma mesa de refeição. Quando os 90 minutos do filme se passaram, pouco restou pra mim, a não ser a estranheza do universo do cineasta sueco, que só revisitaria anos depois, momento em que o mesmo Morangos Silvestres passou a fazer sentido. Desde então não tenho a menor pretensão de compreender seu mundo e suas viagens oníricas, mas me sinto parte da história quando tenho vontade de viver tudo aquilo que já passou, todo o tempo.
Bergman, eu e Woody sentiremos sua falta".
À medida em que os textinhos forem chegando serão publicados.
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Ainda ontem morreu o ator francês Michel Serrault, imortal em A Gaiola das Loucas. E um dia depois, o grande Michelangelo Antonioni, dono de obras do porte de A Noite (1960), Blow Up (1966) e Profissão: Repórter (1975), resolve nos deixar. Uma semana que começou muito mal.
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Ingmar Bergman (1918 - 2007)
Comentários
Gostei muito da sua homenagem Chico! É bom saber que ele não vai embora desapercebido.
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péssimo 







