Sexta, Maio 4
[herói em conflito]

Vai parecer mentira, mas é o retrato mais fiel do que aconteceu na noite desta quinta-feira. Eu e meu amigo Gil, dois amantes das HQs de super-heróis, combinamos de assistir a uma das duas sessões noturnas do terceiro filme do Homem-Aranha. O táxi nos deixou na porta do cinema às 23h20. Quarenta e um minutos antes do horário marcado para o filme começar. Na bilheteria, a surpresa: só havia um ingresso. Exatamente um.
Tomado por meu sentido-aranha, antes mesmo de racionar como duas pessoas entrariam no cinema com apenas uma entrada, usei minha superagilidade para pagar o ingresso antes que um rival recém-chegado o tirasse de mim. A fila quilométrica poderia guardar algum cambista, pensamos, mas nada aconteceu. O jeito foi nos contentar com pipoca e refrigerante até que meu sentido-aranha disparou de novo.
Um rapaz todo arrumadinho parecia meio perdido enquanto as pessoas entravam nas salas de projeção. Olhava para um lado e para outro em busca de algo ou alguém. Deve ser a namorada, pensou Gil, mas minha experiência no ramo me fez ter uma visão além do alcance. Eu acho que ele quer vender um ingresso, disse. E fomos lá. E conseguimos a segunda entrada mais difícil das nossas vidas. Ficamos em salas separadas, verdade, mas nada que nos desanimasse depois de uma batalha exaustiva pelo ticket.

Pouco depois de começar, eu só tinha elogios a Sam Raimi. Ele, mais do que qualquer diretor de cinema que se aventurou pelo mundo dos super-heróis, soube, ao longo de três longas, traduzir um personagem. Se hoje é impossível dissociar a imagem de Tobey Maguire da de Peter Parker, mais impossível ainda é imaginar de que outra forma o herói mais popular do planeta poderia ser encarnado no cinema. Sua maior inteligência foi entender que, tão importante quanto as batalhas perfeitas que se esmera em criar nos filmes, é dar a densidade exata aos dramas de Peter Parker.
Enquanto a maior parte do cinema de aventura se garante no CGI, os efeitos visuais são apenas material complementar nos filmes do Homem-Aranha. Complemento de luxo, certamente. A primeira seqüência de ação, o duelo entre o herói e o Duende Macabro, é es-pe-ta-cu-lar, com todos os hífens que você puder pronunciar. Embora todas as outras cenas de luta sejam executadas com perfeição, nada supera o que a computação gráfica e a montagem fizeram nesta.
O traje grotesco do Duende Verde no primeiro filme é passado. Os vilões estão cada vez mais elaborados plasticamente. O visual de Harry Osborn para a batalha é arrojadíssimo. E toda a concepção do Homem-Areia é estilosa. A cena do surgimento do vilão me deixou emocionado. Por sinal, o roteiro, amarrado por Alvin Sargent, que fez o mesmo no segundo - e brilhante - episódio, tem na apresentação dos personagens sua maior qualidade. A primeira seqüência de Thomas Haden Church, ótimo, na tela é um exercício de timing e de texto.

E esse texto funciona em praticamente todos os retcons - expressão utilizada para a introdução de elementos novos no passado da cronologia de um personagem. Um deles é a apresentação de Gwen Stacy (nos quadrinhos a primeira namorada do Aranha, morta pelo Duende Verde), simples e eficaz, e a outra na reformulação da autoria do assassinato do tio Ben - por sinal, um dos problemas do filme é que Rosemary Harris aparece muito pouco.
No meio disso tudo, há cenas especiais, como a do namoro na teia ou a que mais mexeu com a platéia: o beijo na cozinha. Mas, sem dúvida, o grande trabalho do roteiro e da equipe foi estabelecer a crise de identidade de Peter Parker antes mesmo da chegada do simbionte alienígena. Como aconteceu em todas suas décadas nos quadrinhos, o filme testa o herói o tempo inteiro e pergunta: afinal, como conciliar missão e singularidade? Nesse aspecto, Raimi consegue dar bastante verossimilhança à relação do personagem com a celebridade que se tornou e sabe dar o tom exato na degradação de sua relação com Mary Jane - Kirsten Dunst inexplicavelmente cada vez melhor no papel.
Então, por que o filme não me empolgou tanto? Pois bem, nem sei se tenho a resposta certa. Não gostei de coisas muito pontuais: o cabelinho de malvado, a bandeira americana durante o salvamento, a bobíssima participação de Stan Lee e algo que eu nunca consegui engolir - o fantasma de Norman, entre outras coisas. Mas tudo bem pequeno, bem pouco. O que me mais me incomodou, no entanto, é que, na ânsia de se tornar mais universal, o filme às vezes assume didatismos em excesso, mensagens demais, lições de moral. Não é nada que abale o muito que Sam Raimi conseguiu construir, mas Homem-Aranha 3, que é bem bom, não é - nem chega perto de ser - a obra-prima de o filme anterior era.
homem-aranha 3 


direção: Sam Raimi.
Spider-Man 3, Estados Unidos, 2007
roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi e Alvin Sargent.
elenco: Tobey Maguire,
Kirsten Dunst, James Franco, Thomas Haden Church, Topher Grace, Bryce Dallas Howard, Theresa Russell, Bill Nunn, Elizabeth Banks, James Cromwell, Tim De Zarn, Ted Raimi, Cliff Robertson, J.K. Simmons, Mageina Tovah, Dylan Baker, Joe Manganiello, Rosemary Harris.
fotografia: Bill Pope. montagem: Bob Murawski. desenho de produção: J. Michael Riva e Neil Spisak. música: Christopher Young. figurinos: James Acheson e Katina Le Kerr. produção: Avi Arad, Grant Curtis e Laura Ziskin. duração: 140 min. site oficial.
nas picapes: evil, interpol
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Comentários
Abraços!
Não cheguei a ler nenhum texto sobre o filme, Ronald. Não sabia que a recepção não estava boa. Eu acho um bom filme. Tem muitas coisas boas, mas está longe de ser um filme espetacular como o segundo.
Tem muito clichê, sim, William, mas isso não me incomodou, não. Acho que um dos trunfos do Raimi nessa série foi saber trabalhar os clichês.
Já resenhei lá no MZ. Dá uma olhadela.
Já com o Venom é implicância mesmo, pois eu nunca gostei do personagem nas HQs. E até que o Sam Raimi e o Topher Grace conseguem dar uma certa consistência ao linguarudo.
Quem não tem consistência nenhuma é o Homem-Areia (é que ele é de areia, oras).
Pois é, apesar dos pesares, O Homem-Areia é um dos personagens mais bem resolvidos...
Não chamaria de decepção, Diego, mas eu esperava mais.
Acho que esse último escorrega feio no clímax, estufado e derramado (mas isso não é novidade em filmes de super-heróis), e deixa uma impressão ruim nos créditos finais. Mas, antes disso, vi um filme até bem decente, que trabalha bem a crise no relacionamento de Peter e Mary Jane e que insere no meio da fórmula algumas seqüências divertidas, como o clipe do Homem-Aranha emo, em um embalo meio John Travolta - ou a cena da cozinha, que vc já mencionou. O Raimi tinha feito isso no segundo filme, mas continuo a me interessar por essas pequenas intervenções do diretor num território que costuma aceitar poucas intervenções de diretores.
Agora, não fiquei muito incomodado com a bandeira americana não. Aliás, faz até sentido se vc for observar os filmes da série como referências bem diretas à América pós 11 de setembro (e é meio inevitável notar isso num filme em que uma nuvem de areia assombra Nova York e em que andares de prédios chiques são destruídos sem dó
Estão tratando o filme com má vontade, a meu ver.
O resto é um feijão-com-arroz medíocre que me lembrou Quarteto Fantástico, inclusive pela infantilização idiota de alguns temas que eu acho que careciam de um pouco mais de gravidade (não é à toa que há tantas crianças comemorando CADA aparição do Aranha ao longo do filme).
Ao contrário dos outros dois, o terceiro me parece ter sido feito sem tanto tesão. Nada aqui se compara à seqüência do despertar do Doc Octopus no segundo filme ou a de Peter descobrindo seus poderes no primeiro. A seqüência do Emo-Aranha é um rascunho, parece ser a primeira versão que veio à cabeça de diretor e roteiristas.
E nem vou entrar na questão do tratamento dado a alguns personagens tipo Harry e Gwen. São tratados feito tapa-buracos pelo roteiro.
Diego, discordo de você em várias coisas. Primeiro, a Gwen pode não ter recebido o melhor tratamento, mas sua apresentação, a meu ver, funciona direitinho. É uma personagem naturalmente difícil de inserir na série pelo fato de ela ser a primeira namorada do Aranha. E eu acho que eles fazem direitinho. Quanto ao Harry, com todo o tempo se gasta com ele, não caho que ele seja um tapa-buraco, não.
Para mim, a grande cena de toda a série ainda é o fim da seqüência no metrô, no segundo filme, com as pessoas vbendo quem está por trás da máscara. Uma cena linda, que me fez chorar porque resume o que é o Homem-Aranha.
Quanto à comparação ao filme do Quarteto, acho completamente injusta porque Raimi sempre tratou todo o universo do Aranha com seriedade e nunca foi debilóide como no filmeco do grupo.
Tiago, eu não acho que ali haja referência ao 11 de Setembro não. O Homem-Areia é aquela nuvem mesmo e ele existe bem antes de Osama Bin Laden e o que mais tem nas HQs são megaprédios sendo destruídos. Nos filmes anteriores, essa correlação existe mais fortalecida. Neste, não vejo muito.
Concordo sobre o tratamento que o Raimi dá ao complemento - a relação Peter-Mary Jane, a cena da cozinha - mas acho que o que vc batizou de emo-Aranha não funciona tanto por causa daquela caracterização desnecessária. O cabelinho me incomodou muito. A referência ao "Saturday Night Fever" é ótima assim como a hilária participação do Bruce Campbell no restaurante - exemplo de timing exato porque acontece durante uma cena das mais dramáticas.
Claro que não impede, mas não entendi assim, não.
E certamente HA3 é um filme para ser visto em 2007.
O Peerre amou o filme.
É, podemos esperar por uma nova trilogia.
Deixa quieto nada. Faz o comentário.
Por que uma nova trilogia? Por que não um novo filme?
O roteiro depois da primeira hora (excelente) vira uma fórmula horrorosa (a cena do mordomo 'explicativo' é um pavor), mas o filme não é tão ruim como andam dizendo por aí.
www.rosebudeotreno.com
Realmente o mordomo foi preguiça de arrumar uma explicação melhor para a reconciliação.
Valeu pela visita e pelo elogio. E vc já sabe que sou fã deste teu espaço.
Ah, e desculpe pelo total off-the-topic, eheh... Ainda não vi o Aranha 3...
Abraço,
desculpe-me, mas é que sua aventura em busca do 'elo perdido' ofuscou o enredo do filme.
Ainda assim... vou correr pro cinema essa semana.
Bjo.
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péssimo 







