Segunda, Abril 30
[o estado das coisas]

O domingo não prometia nada. A ida à locadora, que há tempos não fazia parte da minha vida, foi para tentar reassistir o melhor filme do ano passado, O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006), mas as poucas cópias já haviam sido locadas. Foi então que uma olhada rápida nas prateleiras de lançamentos me levou para um tal de Conflito Mortal, filme estrelado por Andy Lau e Maggie Cheung. Como tem um monte de coisas orientais interessantes chegando em DVD, peguei o filme e vi que se tratava do primeiro longa de Wong Kar-Wai, As Tear Goes By, em mais um caso de tradutor que merece a forca.
O filme, de 1988, tem uma estrutura conflituosa, entre o filme de ação, com cenas bastante violentas e montagem com todos os maneirismos do gênero, muita câmera lenta e som alto nas perseguições, e o drama, com o protagonista dividido entre o destino e o amor. Desse confronto temático, surge um ensaio do cinema de um dos diretores mais interessantes surgidos nos últimos tempos. Em certa medida, o filme antecipa tanto a narrativa urbana de filmes como Amores Expressos e Anjos Caídos quanto os que formam a trilogia encerrada com 2046.
Dos primeiros, há a grande cidade e os personagens que sobrevivem - e que são reféns - daquele ambiente urbano. Dos seguintes, o filme antecipa uma série de características do cinema de Kar-Wai, como os protagonistas tentando reformular suas vidas, a consciência da solidão e a busca por um papel no mundo. O filme, que já anuncia o namoro do diretor com os enquadramentos menos tradicionais - o que se consolidaria logo depois com o começo de sua pareceria com Christopher Doyle - também é a matriz para estabelecer a relação de Kar-Wai com a música.
Numa seqüência longa, caminhando a centímetros do kitsch, o cineasta usa de um ícone da música pop, "Take My Breath Away", do Berlin, numa versão, acredite, em chinês, para emoldurar o reencontro dos personagens, filmado como um clipe romântico dos anos 80. O resultado é sublime. Tanto no envolvimento que a cena provoca, transformando a dupla em seres comuns, populares, da esquina, quanto na maneira como Kar-Wai se apropria da linguagem para ilustrar aquele trecho da história.
Assistir ao filme me fez finalmente resolver escrever sobre Dias Selvagens, visto há um bom tempo. A cena mais bonita do filme - e possivelmente a que mais me emocionou neste ano no cinema - é aquela em que o guarda, em off, narra, sobre um plano em que ele está em pé ao lado da cabine telefônica, seu desencontro com Su Lizhen e as possibilidades que sua imaginação oferece para o porquê de ela nunca ter ligado. "Naqueles dias, minha mãe morreu e eu virei marinheiro".
É nesse filme que nasce a dimensão de desencontros temporais em que mora esta parte do cinema de Wong Kar-Wai. O momento exato nunca é determinado e as camadas de tempo se entrelaçam para, ao mesmo em que embaralharam a cabeça do espectador, estabelecer uma cronologia da memória e do desejo que parece apenas ter sentido em seus filmes. Como nos longas seguintes da trilogia, os personagens se movem pelo que desejam, mesmo sem estar certos do que buscam. Aqui, amor, família, paixão e relevância são motivos que fazem cada um dos quatro protagonistas se movimentar.
Dias Selvagens ensaia tanto a inquietação que Kar-Wai imprime a seus personagens como a inquietação que ele próprio imprime à estrutura de seus filmes. É um dos poucos diretores que conseguem se aproximar da literatura com material original sem soar fora do tom. Tom que, por sinal, ganha corpo no início do namoro a música latina. Somado a Amor à Flor da Pele e a 2046, que resgatam não só a forma, mas muitos de seus personagens - e, inclusive, promovem o encontro entre Su Lizhen e Chow Mo Wan, o filme forma uma obra ímpar que oferece surpresas a cada nova olhada.
conflito_mortal 


direção: Wong Kar-Wai.
Wong Gok ka Moon/As Tear Goes By, Hong Kong, 1988 roteiro: Wong Kar-Wai.
elenco: Andy Lau, Maggie Cheung, Jacky Cheung, William Chang, Kau Lam, Alex Man, Ronald Wong.
fotografia: Wai Keung Lau. montagem: Pi Tak Cheong. desenho de produção: William Chang. música: Ting Yat Chung e Teddy Robin Kwan. duração: 99 min.
dias selvagens 



direção: Wong Kar-Wai.
A Fei Jing Juen/Days of Being Wild, Hong Kong, 1991 roteiro: Wong Kar-Wai.
elenco: Leslie Cheung, Maggie Cheung, Andy Lau, Carina Lau, Rebecca Pan, Jacky Cheung, Danilo Antunes, Hung Mei-Mei, Ling Ling-Hung, Tita Muñoz, Alicia Alonzo, Angela Ponos, Tony Leung.
fotografia: Christopher Doyle. montagem: Kai Kit-Wai e Patrick Tam. desenho de produção: William Chang. produção: Rover Tang. duração: 94 min. site oficial.
nas picapes: perhaps_perhaps_perhaps, cake
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Fotografia
Comentários
Em "Plataforma", do Jia Zhang-ke, tem uma cena em que toca "Gengis Khan" em chinês. Deve ser uma febre!
abraço
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péssimo 







