Quinta, Abril 19
[anotações no canto da página]

Pro Dia Nascer Feliz foi tão elogiado que eu já começava a desconfiar dele antes mesmo de assisti-lo. Como realizar um filme sobre educação no Brasil e não cair nos maneirismos daquele cinema social que virou padrão numa nova faceta dos documentários? Minha idéia sobre o primeiro vôo solo de João Jardim na direção de um longa-metragem era de um cinema chato em que o denuncismo fácil - o Brasil é uma seara farta para este tipo de filme - dava o tom da narrativa e os realizadores faturavam em cima da miséria alheia.
Eu nunca tive tanta vergonha de estar errado sobre um filme. E nunca mais me percebi tão feliz por estar errado sobre um filme. Em Pro Dia Nascer Feliz, João Jardim dá conta de uma missão difícilima: equilibrar a denúncia de uma educação desigual com os dramas, sonhos e projetos de adolescentes prestes a aterrissar num mundo de adultos que pode hostilizá-los pela falta ou pelo excesso. E num terceiro eixo, Jardim dá a palavra ao professor, a figura-chave de todo o processo, que raramente ganha um fórum correto para se apresentar.
Da primeira cena em que são mostrados os banheiros de uma escola pobre até os corredores de um dos colégios mais ricos do país, o filme passa por uma sucessão de metamorfoses que, se não fosse bem costurada por roteiro e montagem, poderia resultar num tiroteio cego que atira para vários lados, e não acerta um alvo sequer. Mas, pelo contrário, abre várias frentes de discussão e consegue apresentá-las, dar densidade a elas e discuti-las, mesmo que rapidamente, num tom bastante acertado.
O trabalho de pesquisa de personagens foi fundamental para que o filme funcionasse tão bem. Jardim dá voz a professores, mas nunca ousa classificá-los e nem, como dita o clichê, consagrá-los como heróis populares. O filme é exato em desenhá-los em duas dimensões: ao mesmo tempo em que são esforçados, estão desiludidos com a profissão. É quando o trabalho vira serviço.

O tratamento mais delicado, porém, é dado aos estudantes. Jardim tem um imenso cuidado em defender cada um de seus eleitos como um grande pai, mas não abre concessões nessa defesa. Sua câmera e, sobretudo, sua edição sempre tenta compreender os sentimentos e as dúvidas dos alunos. Os depoimentos são naturalmente emotivos, como o da menina que abdica de seu sonho no jornal da escola depois que ganha um emprego de dobrar calças.
O filme ainda sabe relativizar os dramas dos personagens. Nada parecia mais forte do que a história de Valeria, pernambucana do interior cuja vontade de estudar e o talento para escrever superam as dificuldades de chegar à escola e a falta de aulas. Mas Jardim sabe colocar essa história no mesmo patamar da de Ciça, estudante de um colégio caríssimo que se dedica tanto aos estudos - para justificar o investimento de seus pais em sua formação - que enche os olhos de água ao lembrar que faz tempo que não namora.
Ainda que alguns espectadores da sessão em que eu vi o filme tenham rido desta cena - riso que deveria estar justificado depois de mazelas tão, a princípio, mais graves apresentadas até então - João Jardim selecionou esta cena para dar as múltiplas dimensões do universo dos adolescentes brasileiros. O diretor entendeu perfeitamente que as lágrimas de Ciça são tão honestas quanto a versão de Valeria para a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.
pro_dia_nascer_feliz 




direção: João Jardim.
Pro Dia Nascer Feliz, Brasil, 2006
roteiro e montagem: João Jardim.
fotografia: Gustavo Hadba. música: Dado Villa-Lobos. produção: Flávio R. Tambellini e João Jardim. duração: 88 min. site oficial.
nas picapes: a geladeira, mopho
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Comentários
A reação da sala ao depoimento da Ciça também me incomodou bastante. Fiquei com vontade de socar nariz por nariz.
Foi constrangedor, Diego. Para ele, que não entenderam nada. Acho que merece cinco, sim. É um filme que cumpre objetivos muito difíceis.
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péssimo 







