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Segunda, Abril 16

[o sol, para todos]

Sunshine

O novo filme de Danny Boyle pode ser encarado como uma aventura futurista sobre a humanidade lutando contra seu fim. Mas, se a intenção do espectador é assistir ao longa com esta expectativa, uma decepção é bastante provável. Sunshine é muito mais um filme intimista, no que isso tem de melhor e de pior, do que de ação. Boyle lança seus personagens num plano de discussão quase filosófica, sem que isso se transforme num exercício exaustivo, refletindo sobre sua própria existência e sua religiosidade.

A viagem até o Sol - para reacender com uma bomba seu núcleo que já não é mais aquele - serve de metáfora para uma aproximação inédita com algo que pode ser absorvido como um criador ou uma força maior. Nesse sentido, a abordagem do roteiro de Alex Garland ganha um ponto. Oito cientistas, pessoas céticas por natureza, são forçadas a lidar com questões para além de suas crenças e diretrizes. Todos são voluntários de uma missão supostamente sem volta que, num primeiro momento, abdicam da chance de retorno para a manutenção da existência humana. E, em seguida, são confrontados com a preservação das próprias vidas.

O personagem que melhor encarna essa dicotomia (a resistência humana x a proximidade de Deus) é o do psicólogo da tripulação, cujo rosto quase desfigurado pela exposição excessiva - e voluntária - à luz do Sol, revela um irresistível encantamento pelo desconhecido. A proximidade do objetivo da missão, a possibilidade de vê-la ir por água abaixo e a própria seleção natural pela sobrevivência lançam os remanescentes da nave a uma condição de brutalidade, que, diferentemente do que acontece em Extermínio (2003), se dá num animalesco golpe de civilização numa mesa de jantar.

Sunshine perde a força no terceiro ato, quando surge um personagem extra na história como tentativa de dar corpo à complexidade da experiência do grupo. Algo desnecessário já que o filme já tinha se argumentado o suficiente para justificar suas idéias e o comportamento de seus protagonistas. Embora Boyle tenha conseguido dar um desfecho coerente ao material, a investida no viés filme de ação, que o que dá o tom desse ato final, é boba. Mas vale a discussão do eterno, o embate entre ciência e religião e a certeza de que é a riqueza do que nós acreditamos, mesmo que nós não acreditemos em nada, o que nos mantém seguros e quentinhos. E provavelmente vivos.

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direção: Danny Boyle.
Sunshine, Grã-Bretanha, 2007 roteiro: Alex Garland.
elenco: Chris Evans, Cillian Murphy, Rose Byrne, Michelle Yeoh, Mark Strong, Cliff Curtis, Troy Garity, Hiroyuki Sanada, Benedict Wong.
fotografia: Alwin H. Kuchler. montagem: Chris Gill. música: John Murphy e Underworld. desenho de produção: Mark Tildesley. figurinos: Suttirat Anne Larlarb. produção: Andrew Macdonald. duração: 94 min. site oficial.

nas picapes: why_does_it_always_rain_on_me?, travis

posted by Chico Fireman at 09:55:58 | 13 comentários



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Comentários




Marcele Fernandes
Eu vi o filme ontem e adorei. Mas concordo plenamente contigo: aquele toque de terror/ação com o personagem extra era desnecessário.

Abs,
16.04.07 @ 21:27



Pois é, teve momentos em que eu achei as discussões soberbas, que o filme iria merecer 5 estrelas.
16.04.07 @ 22:54


Tuca Hernandes · http://www.fiapodejaca.com.br
Seria um grande filme se não fosse o momento "Sexta Feira 13"...
17.04.07 @ 00:13


Diego
Eu acho que ele se sai bem conciliando o intimismo de alguns momentos (e nem são muitos - fui esperando um filme bem mais contemplativo do que vi) com os rompantes de filme de ação/horror de outros. O ato final, de "ação", por exemplo, tem um vilão que nunca conseguimos observar direito (porque aparece sempre distorcido pela lente e pela fotografia) e a seqüência de detonação no sol, com o físico observando A cena da vida dele, é linda e bastante inusitada.
17.04.07 @ 00:36


Tens razão. A trama do "terceiro ato" é um pouco desnecessária, porque há tensão o suficiente para manter o filme até o fim. (E angústia pelo que vai acontecer (ou não).)
17.04.07 @ 14:16



Exato, Fabricio, mas mesmo assim achei o filme muito bom. Engraçado que foi um personagem que me parece criado apenas para justificar a discussão toda do filme; uma discussão que já tinha sido bem apresentada e desenvolvida

Diego, a solução visual encontrada para vilão é, na verdade, a melhor coisa do vilão.

Esta sua definição, "momento sexta-feira 13", me fez rir um bocado, Tuca.

17.04.07 @ 17:23


Gostei muito de Sunshine. Confesso que fiquei preocupado, pois gosto dos trabalhos anteriores de Boyle e de como ele lida com a natureza humana. Vale muito a pena ver esse filme justamente pela quantidade de pontos de vista possíveis, mas todos em torno de nosso comportamento e nossos dilemas.
Gostei do seu texto!
18.04.07 @ 09:45


Marcele Fernandes
eu também me senti assim. achando que o filme ia merecer a classificação máxima, que era soberbo; por isso mesmo meu pique deve ter diminuído tanto com a aparição do personagem extra. ainda assim, continuo gostando do filme. gostando bastante, aliás.
19.04.07 @ 00:04


sabe q o terceiro ato não me incomodou, não? talvez porque eu tenha ficado super tensa com aquele "como assim, um quinto tripulante???", talvez porque eu tenha gostado muito do filme, talvez porque a experiência de ver um filme dessas na telona tenha me deixado que nem o psicólogo... não sei. só sei q gostei bastante.

beijos!!!
19.04.07 @ 11:28



Eu também gostei muito do filme, Fer, mas acho que não precisava aquela concessão a um cinema mais de ação. Mas foi um filme que também mexeu comigo.
19.04.07 @ 12:13


mario
É um filme honesto qua vale cada centavo do ingresso. Entretanto, esperava muito mais pois só me vinha a memória o histórico soberbo do diretor: cova rasa, transpoting e extermínio.
05.05.07 @ 02:30


Ptz, eu tmb em certo momento achei que o filme seria cinco estrelas e brigando por uma vaga entre os melhores do ano. A primeira morte aliás, achei fascinante, tanto visualmente pelo uso do som como tensão (me veio a mente logo Space Oddity do Bowie) e acho que por enquanto é a minha cena do ano.

O foda é q logo no começo eu fiquei com medo de levando em conta Extermínio e Abismo do Medo de botarem algo de terror no filme... e não é que aparece o tal do zumbi alienigina para estragar o filme? Mas os dois primeiros atos e o finalzinho valeu... Abraços!
08.05.07 @ 02:52


Hiverson
Gostei muito do filme mexe muito com a vida humana e o grande e desconhecido universo realmente o vilão veio sabotar e intrigar a ciência e religião.
26.11.11 @ 02:24


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