Quinta, Março 29
[ó paí, ó]

Eu moro em Salvador desde junho de 2003, mas eu somente entendi a Bahia oito meses depois. Eram duas horas da manhã, eu saía do trabalho – nessa época é quando mais se trabalha na minha profissão aqui nesta terra – e resolvi dar uma espiada no tal do Carnaval. O carro me próximo ao local onde acontece a festa porque muitas ruas ficam fechadas. Eu ainda tinha que andar um pouco. E foi esse pouco que foi me apresentando um lugar que eu ainda não conhecia em tantos meses. À medida que eu andava, que aumentava o som e que aumentava a quantidade de pessoas felizes ou bêbadas que passavam por mim eu começava a ter uma idéia do que era aquela coisa de que todos falavam, mas que nenhuma palavra pode dar conta completamente. Eu, que passei minha adolescência odiando axé, locando dezenas de filmes para matar meus dias de Carnaval, tinha me encantado com aquela manifestação apenas porque eu estive lá para ver tudo aquilo.
É por isso que eu acho que pouca gente vai entender as qualidades de Ó Pai Ó, de Monique Gardenberg. O filme, apesar de ter uma sucessão de fragilidades formais - da montagem esquizofrênica ao excesso de momentos musicais que parecem querer esconder uma inconstância do roteiro, que não há - é um raro exemplar de como o cinema brasileiro soube capturar um certo espírito baiano. Algo que vai além daquela tradicional malandragem carioca e que se mistura com uma tendência à relativização, à permissividade que, se inibe comportamentos preconceituosos, também se satisfaz com arranjos e arremedos. E, correndo o risco de ser mal interpretado, algo que exalta a sexualidade não de uma maneira promíscua, mas num nível, sendo mais específico, de celebração do corpo - ou, de uma maneira mais ampla, de celebração por si só.
O texto de Márcio Meirelles, que faz parte da Trilogia do Pelô, conjunto de peças que o autor escreveu para o Bando de Teatro do Olodum, traz esse retrato com grande fidelidade do cotidiano de um povo. Claro que há lugares comuns e personagens que parecem reprises de muita coisa que já se viu por aí. E boa parte da essência do texto -acredite, eu já vi algumas peças de Márcio Meirelles com o Bando e, geralmente, elas são muito boas - parece ter se perdido na tradução de Monique Gardenberg, que, com seu sotaque carioca, se gabou muito de ter nascido na Bahia na pré-estréia para mais de 5 mil pessoas na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Ó Pai Ó, mesmo com seu talento para representar o baiano, chegou pasteurizado na tela do cinema.
De certo modo, o filme se torna refém de alguns vícios. O primeiro é o que parece ser um projeto secreto de nacionalização do cinema brasileiro de fora do eixo Rio-São Paulo, patrocinado com veemência pela Globo Filmes, padronizando as naturalidades para universalizar o discurso e alcançar o público, como com 2 Filhos de Francisco e sua representação do caipira. Neste filme, essa tática se manifesta na escalação de atores como Stênio Garcia e Dira Paes, bons atores, diga-se de passagem, para papéis que estão aquém de suas capacidades e que seriam melhor interpretados por baianos mesmo. O segundo vício é como a nova geração de atores baianos abraçou a caricatura. Lázaro Ramos, que já teve momentos brilhantes no cinema brasileiro recente, parece que foi passado a ferro para retirar as dobras e Wagner Moura tem sua pior aparição num filme, num personagem que ninguém compra e completamente dispensável.
O que se sobressai no filme é o elenco do Bando de Teatro do Olodum, mesmo que muitas vezes os atores não entendam que não estão num palco. Luciana Souza, que faz a evangélica dona do prédio em que mora a maioria dos personagens, apesar de certa impostação, domina qualquer cena da qual participe. E há um casal perfeito no filme: o Reginaldo de Érico Brás, que amalgama as características do tal espírito baiano num só corpo, e o travesti interpretado com dedicação por Liu Arrison, candidato forte a melhor ator coadjuvante do ano, que, da explosão sexual do início à cena em que comemora o próximo encontro com seu amado, reafirma que a Bahia entende e aceita tudo.
[ó paí, ó 

]
direção: Monique Gardenberg.
Ó Paí, Ó, Brasil, 2007. roteiro: Monique Gardenberg, baseado no espetáculo teatral de Márcio Meirelles.
elenco: Lázaro Ramos, Emmanuelle Araújo, Stênio Garcia, Wagner Moura, Luciana Souza, Dira Paes, Érico Brás, Soriano, Jorge Washington, Auristela Sá, Virgínia Rodrigues, Vinícius Nascimento, Felipe Fernandes.
fotografia: Eduardo Miranda. montagem: João Paulo de Carvalho e Giba Assis Brasil. música: Caetano Veloso e Davi Moraes. desenho de produção: Vera Hamburger. figurinos: Bettine Silveira. produção: Augusto Casé, Paula Lavigne e Sara Silveira. duração: 98 min. site oficial.
nas picapes: [protesto olodum, olodum]
Posts similares:
A Máquina
do cinema e de suas fundações
o cheiro do ralo
Comentários
Mesmo que, no fim, vc não goste, acho que vale a pena ver o filme. Eu tb tinha odiado o trailer.
Não é questão de passar o Carnaval, Filipe.
Daniel, me poupe. Propaganda vc faz no seu blogue...
Diego, eu vi na sexta mesmo. Mas ainda não sentei a bunda pra escrever.
Manoel, Fabrício, quero ver o que acontece se eu vir o filme de novo...
Que o filme não aceita lá muito bem a personagem evangélica, ah, não aceita, não.
Abraços!
Gosto mais do "carnaval" da vida cotidiana do que do carnaval em si, Hudson.
Será, Diego?
Ricardo, o Wagner Moura me parece um completo equívoco no filme.
Apesar de tudo, não foi uma decepçao total. O filme é engraçado e envolvente, despertando no espectador a curiosidade de saber como se desenvolverá a história daqueles personagens, cuja alegria destoa em muito das penosas condições em que vivem, ou melhor, sobrevivem.
Sou soteropolitano, e conheço o Brasil de ponta a ponta. e confesso: o filme me deu saudades da minha terra de onde tive que sair por necessidades da profissão.
Os atores estão TODOS - sem excessão de parabéns. Não sei como conseguiram captar e copiar fielmente as expressões e gírias daquela terra maravilhosa que é Salvador.
Como Ivete Sangalo já comentara, há alguns anos, durante uma entrevista na TV: o povo baiano é maravilhoso e ele não nasce, ele estréia (risos).
E foi isso que eu pude comprovar no filme "Ó Paí Ó": uma estréia espetacular da maneira, linguajar, simplicidade, cumplicidade e o modo de aceitar a vida sem muita discriminação e aceitando tudo da grande maioria do povo soteropolitano.
Para quem não assistiu ainda: vale a pena, principalmente se vc for baiano. Vai dar muitas risadas, pois vai lhe lembrar muitos dos seus amigos e episódios da sua vida.
Forte abraço a todos.
Que Deus e Jesus os abençoem.
Sim, sou baiano, e nossa produção é lembrada por um dos maiores cineastas do Brasil, o genial Glauber Rocha, que soube como ninguém imortalizar a cultura de nossa terra.Ó paí ó, credibiliza o turismo sexual e embuti na classe média branca e decadente de nosso país, que cablocos e negros são motivos de piadas e que não valoriza a auto-estima. Talvez a intenção seja essa, deixar o povo mobilizado intelectualmente, desacreditado como raça.Foda-se Caetano Veloso, Gilberto Gil e sua corja hereditária.
O Márcio Meirelles foi nomeado secretário de cultura no governo Jaques Wagner do PT na Bahia.E logo após lança um filme que tem relação direta com suas produções. sai o carlismo entra o jaquismo.
Porra, brasileiro é burro pra caralho!
O senhor ministro Gilberto Gil e sua quadrilha tem o maior prazer de financiar esta farra cinematográfica.
Ê Brasil..
O filme teve 16 patrocinadores e todos de grande porte como: .... Ótimos atores empenhados em uma trama que caminha por várias óticas, da festa a crítica social, um cenário bonito, no entanto, conseguiram fizer um filme sem contexto. Utilizando de uma baianidade que não existe há tempos. Deveria ter adaptado esse texto teatral para estar na telas do cinema, afinal, será mostrado ao mundo.
Para mim, a idéia do filme se resume a mostrar uma parte de salvador que não se vê e pulsa viva apesar do carnaval. Recheada de traços reais da cultura baiana e também de críticas sociais, por vezes óbvias, mas sem hipocrisia.
Sou estudante do curso de Artes cênicas da UFBA. Estou fazendo uma pesquisa em teatro baiano e o meu recorte é em " A interpretação baseada na observação de tipos baianos" um ex é o filme ó, paí ó, que fala sobre " tipos" do pelourinho. As críticas positivas ou negativas a respeito do filme, vêm me ajudando bastante. Estou aberta a Qualquer idéia ou sugestão!
Um Abraço
Outro aspecto que gostaria de comentar é que o filme, no meu entender, não se propôs mostrar Salvador como um todo e não mostrou. Não mostrou nem o carnaval da elite, nem os grandes nomes do nosso carnaval, como por exemplo, Chiclete com Banana, Ivete Sangalo, entre outros. O filme manteve o foco em blocos que estão ligados a negritude. Existe a crítica social, os personagens Cosme e Damião (o paradoxo do filme) retratam a maneira algre de ser, contentam-se com tão pouco. Entretanto, são confundidos com os pequenos margianais, perdem suas vidas, levam-nos a melancolia. É a parte triste do filme, é a parte triste da realidade: tomada de consciência. Estar ali viajando no filme, achando tudo ótimo, derrepente aquela cena, o desespero daquela mãe. Aquela música: "mãe que é mãe no peito sente dor... e lá vou eu... lá, lá, lá". Doeu. Beirei as lágrimas. Ciente que aquilo que via era um filme, mas também nossa realidade.
Sou baiano mas sou realista...
Adoraria que se fisessem também um filme que ilustrasse a realidade das comunidades pobres de Salvador, da vida sofrida do povo do subúrbio, da agitação e correria do centro da cidade, do esforço do povo em trabalhar dia a pós dia levantando 4:00 da manhã, da realidade das drogas que acabam com a vida de diversos jovens em Salvador, das pessoas simples que comumente não aparecem na televisão não são músicos não vão pro carnaval não são populares mas fazem dessa cidade ser a 3ª maior capital do Brasil.
Parabéns pelo filme, porém...
Salvador merece muito mais!
Alguem sabe o nome da musica que eles estao dançando no bar? A musica da foto deste Post
Quem souber mande mail greenhida3@gmail.com
Sou professor de história do ensino público de sp
PARABENS,.
não podia ser melhor!!!na cidade de "Salvador" na de boa!!!vou até dá um rolé por lá pra ver se eu apareço nas filmagens...rsrsrsrsr...
Escuta aí Rede Globo e seus pseudointelectuais de cinema: Viva Glauber Rocha!
Brasil, um país brega!!!
Deixe aqui seu comentário:


péssimo 







