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Terça, Março 6

[revisão: a dama na água]

A Dama na Água

É tão difícil defender o que você ama incondicionalmente. Você percebe todos os problemas que os outros apontam, mas as qualidades, elas te parecem tão superiores que você os minimiza ou os ignora. Seu eleito é imperfeito, mas é seu. Você o escolheu assim que colocou os olhos nele e é natural que queira defendê-lo, afirmá-lo e celebrá-lo. O cinema é meu refúgio e quando eu separo um filme para ser meu, eu posso soar até arrogante ao expressar minhas razões para amá-lo, coisa que eu sempre faço por escrito porque sou um péssimo orador.

Com A Dama na Água foi exatamente assim. Assisti ao filme numa pré-estréia para uma platéia de convidados que gostam de pré-estréias, mas nem sempre gostam de cinema. Fui sozinho e parece que saí do cinema apaixonado igualmente sozinho. Estava encantado com a defesa da fábula, com a celebração do conto de fadas. O primeiro grande motivo para não se gostar deste filme é que qualquer coisa que pareça pertencer ao universo infantil soa quase sempre menos interessante do que elementos do que pode se chamar de um mundo de adultos.

A lei da natureza é assim. A infância é saudada com uma nostalgia do que deve permanecer no passado. Trazê-la para a experiência mais imediata do homem adulto é comumente assimilada como uma tolice. E o que M. Night Shyamalan faz em A Dama na Água é assumir o conto, aumentar um ponto e visitar o lúdico sem o menor pudor ou vergonha. Foi a paixão que o diretor libera pelo universo infantil em cada explicação desleixada, em cada reviravolta atrapalhada que me despertou um interesse inédito por uma de suas obras.

Ao contrário do que fez em A Vila (2004), quando a desconstrução surge como negação da história e como possível golpe de marketing disfarçado de questionamento político, em seu último filme o indiano decanta essa história, desmembra seu conjunto de enredos e personagens, para afirmá-la. A partir de uma história contada para seus filhos, Shyamalan se mostra um defensor do mágico e não do truque, como vinha se desenhando até então. E para que essa história dê certo, ele cobra apenas uma coisa do espectador: acreditar. Um preço muito caro.

A Dama na Água

Ninguém precisa estar disposto a acreditar. O esforço pode ser deveras musculoso para alguém, digamos, mais sério. É preciso se doar muito para gostar deste filme lento em que, numa revisão, fica muito claro o interesse de seu diretor pelo processo. O processo de montar e contar uma história. É nesse processo que Shyamalan comete seu primeiro grande pecado, vingar-se dos críticos que tinham torcido o nariz para Corpo Fechado e que resolveram interpretá-lo em A Vila. Pecado que fica flagrante na fala de Jeffrey Wright sobre o assunto. Um constrangimento desnecessário já que tudo que a personagem em questão promove poderia estar lá de maneira diferente.

Sua outra grande falta foi querer ser ator e, cada vez mais, ter um papel grande em seus filmes. Shyamalan é um intérprete medíocre e precisa enxergar isso antes que prejudique seus próprios filmes. Um personagem como Vick merecia um grande ator. Como Cleveland mereceu um maravilhoso Paul Giamatti, em sua interpretação mais delicada. É de seu confronto com a fábula que sai grande parte da força deste filme. Não acho que Cleveland não questiona a história mágica que se escreve em sua frente porque precisava se apoiar em algo, mas porque estava disposto a acreditar.

Exatamente como eu, que quase fui às lágrimas em vários momentos da projeção e que quase repito o vexame ao reassistir ao filme em casa. Bem, não para chamar de vexame sentir-se tocado por um filme e querer defendê-lo, afirmá-lo e celebrá-lo. Ninguém precisa concordar, inclusive, porque a questão não é ter entendido um filme. É ter se apaixonado de novo mesmo tendo enxergado todos os problemas que os outros apontaram e os minimizando ou ignorando em prol das qualidades que se vê nele. A Dama na Água é um filme que eu escolhi. É imperfeito, mas é meu.

posted by Chico Fireman at 15:37:38 | 14 comentários



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Comentários




Alessandro Martins · http://www.alessandromartins.com
Adoro esse filme. Principalmente porque a história é o personagem principal. Não a toa a protagonista tinha esse nome...
06.03.07 @ 21:27



Gosto bastante de como o filme se propõe a desconstruir os processos de uma estória e de revelar seis maecanismos.
06.03.07 @ 23:03


Minha experiência com o filme foi ótima. Vi dentro de um avião com turbulência, hehe.
06.03.07 @ 23:29



Não perdeu os detalhes, as nuances? se bem os scrunts devem ter ficado mais assustadores...
06.03.07 @ 23:39


Edney Souza · http://www.interney.net/
Aumentou meu desejo de ver o filme, acabou de se tornar um daqueles casos de 'putz, não acredito que ainda não vi!'
06.03.07 @ 23:39



Quer emprestado? Eu comprei.... hehe. Nos extras tem uma brincadeira com o crítico.
06.03.07 @ 23:43


Edney Souza · http://www.interney.net/
Se a distância não fosse empecilho eu pegava aí contigo, aproveitava e batia um bom papo! :)

Mas na locadora aqui do lado eu assinei aqueles planos de quantos filmes eu conseguir ver por mês, então não tem despesa extra :P
06.03.07 @ 23:55



Avião é baratinho hoje em dia...
06.03.07 @ 23:58


Quando assisti a primeira vez (no cinema) o filme terminou já era quase 2 da manhã... e fiquei intrigadíssimo com o filme, me perguntando será que eu gostei mesmo ou eu tava sonhando?
Fui ao cinema de novo e tive a certeza de estar num mundo mágico. Mas não era um mundo mágico qualquer, era o mundo mágico de Shyamalan...
07.03.07 @ 00:07



Eu saí do cinema maravilhado, louco pra chegar em casa e fazer um texto enorme sobre ele.
07.03.07 @ 00:08


Juca Azevedo
Fui ver o filme depois de ler algumas críticas positivas. Muita gente havia considerado o filme como o pior filme de suas vidas. Não consegui entrar no clima... Achei o filme uma bomba. Nem a quase ausente autocrítica de Ed Wood o deixaria filmar um roteiro com explicações tão esdrúxulas. Não é o pior filme da minha vida, mas está ali juntinho com os outros candidatos. E falo como grande admirador do cinema do M. Night Shyamalan.
10.03.07 @ 12:36


Marcelo Scanzani
Eu também adorei esse filme, achei o melhor do Shyamalan.
Achei razoável o "Sexto Sentido" e "A Vila", odiei o "Sinais" e "Corpo Fechado", mas esse é bem surreal.
Muito legal que esse cineasta não tem medo de arriscar.
03.11.08 @ 01:02


Vagner
Filme maravilhoso. Para mim o melhor de Shyamalan. Como se escrevia nos traillers " a bedtime story"...
14.04.09 @ 19:48


Lucas C. S. Portela
heheh, ótimo filme, tbm o escolhi.
30.06.09 @ 19:07


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