Domingo, Março 4
[a conquista da honra + cartas de iwo jima]

O que sobra - e o que mais me incomoda - em Menina de Ouro (2004) é o que falta - e o que mais me incomoda - em A Conquista da Honra. O melodrama. O texto de Paul Haggis no drama boxeur carrega a história com tintas que apenas ganham equilíbrio nas mãos de bom administrador de Clint Eastwood e na interpretação delicada de Hilary Swank. Já na visita à batalha de Iwo Jima, o mesmo roteirista peca justamente pelo contrário: falta dramaticidade ao texto. A opção de Eastwood talvez tenha sido podar as concessões de Haggis ao drama em grandes goles em prol de dar um tom mais seco e crítico a sua visão do assunto.
O fato é que, e praticamente todo mundo já falou isso, o filme é bastante feliz ao decompor a História e, conseqüentemente, dar novo peso à imagem do herói, um material que não é nada novo, mas que ganha tratamento cuidadoso. E o tom menos dramático ajuda a dar mais sobriedade à história. Esta economia aparente ganhou um curioso reforço nos três principais atores do filme, todos atores fracos, mas que estranhamente colocam suas limitações a favor de seus papéis e do próprio longa.
Falta cinismo a Jesse Bradford, expressividade a Ryan Philippe e Adam Beach é muito canastrão - isso fica claro em qualquer cena em que ele precise de um pouco mais de talento - mas, e isso talvez se deva ao modo como Clint dirige seus atores há alguns anos, todos funcionam nesse exercício sobre a fabricação dos fatos, dos heróis e da própria América da vitória, a que Clint parece, cada vez mais, querer se opor. No filme, fica explícito que o velho caubói rejeita títulos que muitas vezes já foram inclusive impostos a ele próprio e num trabalho de implosão da memória de uma nação tenta deixar as coisas, se não mais corretas, pelo menos mais justas.
Então, qual é o problema? O meu é justamente não ter esquecido do filme na sala de projeção. Não ter me apaixonado por nenhuma interpretação, não ter me emocionado com a história. Senti falta de me envolver de verdade com o filme, de ter meu coração roubado. E era isso que eu esperava de Clint Eastwood. Será que não dava para ter usado a trilha linda que ele compôs tanto quanto aquela fotografia esmaecida e azulada dos flashbacks? A razão pela qual eu achei A Conquista da Honra um filme apenas bom, apenas correto, eficiente e equilibrado é completamente mesquinha. Eu queria amor e era só amizade.

Algumas semanas depois, estou eu entrando na sessão do duplo japonês do filme, Cartas de Iwo Jima, que se aventura bela batalha mostrando o ponto de vista dos soldados japoneses para o conflito. Curiosamente, um filme que só surgiu porque começou a se aventar a possibilidade do longa anterior ser unilateral e maniqueísta, e defender os Estados Unidos no conflito, quando o que o diretor propõe é justamente o contrário.
Não foi difícil entender o porquê da excelente recepção que o filme teve entre os críticos. Esse segundo filme guarda o melodrama verdadeiro que muita gente, inclusive eu, esperava ter visto em A Conquista da Honra. Aqui, ao contrário do exercício reflexivo e analítico sobre o conflito do primeiro longa, temos um relato pequeno sobre homens perdidos num campo de batalha.
Campo de batalha que não é escolhido, mas assumido a partir de um rígido código de conduta oriental que é respeitado por Clint no filme de guerra mais silencioso que eu já vi. Apesar de ser "o outro lado", Cartas de Iwo Jima é bem mais universal do que específico. No filme, o diretor sabe que está diante de uma cultura que não é a dele, de regras que não são as que ele conhece, de uma visão do mundo que sempre lhe será diferente. O que mais é bonito no filme é como Clint Eastwood tenta entender esse outro modelo de pensamento e comportamento.
Por isso, ainda que a leitura da carta do soldado norte-americano seja o ponto alto da seqüência, o momento anterior, qaundo o oficial japonês tenta a qualquer custo se humanizar junto a este soldado, buscando identidade entre os dois é muito mais forte. O filme se ergue pela capacidade de seu diretor de estabelecer algum tipo de conexão entre estes dois mundos. Muitas vezes a gente esquece ou acha bobas noções como integridade ou justiça. Clint nunca esqueceu. É nesse esforço que ele renega seu histórico de herói americano e assume o manto de um herói do mundo todo.
[a conquista da honra 

]
direção: Clint Eastwood.
Flagas of our Fathers, Estados Unidos, 2006. roteiro: William Broyles Jr. e Paul Haggis, baseado em livro de Ron Powers e James Bradley.
elenco: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, John Slattery, Barry Pepper, Jamie Bell, Paul Walker, Robert Patrick, Melanie Lynskey, Judith Ivey, Benjamin Walker.
fotografia: Tom Stern. montagem: Joel Cox. música: Clint Eastwood. desenho de produção: Henry Bumstead. figurinos: Deborah Hopper. produção: Clint Eastwood, Steven Spielberg e Robert Lorenz. duração: 132 min. site oficial.
[cartas de iwo jima 


]
direção: Clint Eastwood.
Letters from Iwo Jima, Estados Unidos, 2006. roteiro: Iris Yamashita, baseado em livro de Tadamichi Kuribayashi e em estória de Iris Yamashita e Paul Haggis.
elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura, Hiroshi Watanabe, Takumi Bando, Yuki Matsuzaki, Takashi Yamaguchi, Eijiro Ozaki.
fotografia: Tom Stern. montagem: Joel Cox e Gary Roach. música: Kyle Eastwood e Michael Stevens. desenho de produção: Henry Bumstead e James J. Murakami. figurinos: Deborah Hopper. produção: Clint Eastwood, Steven Spielberg e Robert Lorenz. duração: 140 min. site oficial.
nas picapes: [steady as she goes, the raconteurs]
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Comentários
Anotado a dica...
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abraço,
Lari e Jô
"Menina de Ouro" é um filme muitíssimo bem dirigido. Incrível o que o Clint Eastwood fez com um texto tão piegas quanto o do Paul Haggis.
Acho que é proposital o tom sentimental, mas Paul Haggis faz uma dramalhão. Como Clint é um grande diretor, "Menina de Ouro" funciona. Mesmo assim, o excesso do texto me incomodou.
Pois é, e imagina que é um filme que nem seria feito!
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