Sexta, Janeiro 19
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O modelo labiríntico que Alejandro Gonzalez Iñarritú vem desenvolvendo desde que começou a filmar é, ao que parece, a idéia que se tem de bom cinema hoje em dia. A administração de histórias paralelas e de seus entrelaces e interrelações requer certa arquitetura de roteiro e direção, um trabalho que aparenta ser mais braçal - e é - do que as narrativas lineares. O modelo não é novo. Robert Altman se utiliza dele há cerca de quarenta anos e, mesmo com alguns tropeços, produziu muita coisa boa. Mas o que parece se querer enfatizar nesses novos exemplos é uma disposição sociológica de seus novos maestros.
A proposta de Iñarritú foi lançada com eficácia em Amores Brutos (2001), reprisada, mas enfraquecida, em 21 Gramas (2004), em que os atores são muito melhores do que a história em si, e radicalizada em Babel, que, em muitos momentos parece mesmo uma metástase de Crash. A fórmula de isso-influencia-aquilo ganhou proporções internacionais, com eventos mínimos provocando conseqüências além-mar. Ainda que em menor intensidade, como no filme de Haggis, o longa lança olhares castradores sobre o homem e suas ações, olhares prontos para prender, julgar e executar.
Apesar de ter talento para a direção de atores, Iñarritú não consegue arrendondar as relações entre as histórias muito bem. A facção japonesa é a mais isolada, ligada às outras por um fiapo bem frágil. O drama no Marrocos, quase inerte, parece apenas um apêndice da história que realmente interessa ao diretor, a mexicana, a única que tem vida própria e a que guarda a melhor interpretação do filme, a de Adriana Barraza. No entanto, tal qual Crash, o filme tenta esconder sua fragilidade num tom de denúncia, denúncia de comportamentos, que invade as três histórias.
A linha, necessariamente fatalista em tempos de terror e desconfiança étnica, virou vício do roteirista Guillermo Arriaga, ao mesmo tempo em que se posiciona contra injustiças, ajuda a reforçar diferenças, na estilização das atitudes das personagens, sobretudo as periféricas. O que mais assusta é Arriaga e Iñarritú podem também estar iludidos de que completaram sua missão, missão que a princípio seria tipicamente norte-americana, mas que foi executada por mexicanos, que ganhou prêmio em Cannes, que ganhou o Globo de Ouro, que é apontado como forte candidato ao Oscar - duvido que ganhe - e que possivelmente vai exaurir o cinema deles. Mas com o decreto de que histórias esquartejadas pessimistas são o que há de bom cinema feito hoje, pode ser que eles sejam mais e mais celebrados. E o errado seja quem não está do lado deles.
P.S.: este texto, com algumas adaptações, foi publicado neste blogue em outubro, na época da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
P.S.2: perspectivas para os Oscars de ator coadjuvante e atriz coadjuvante no oscarBUZZ.
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direção: Alejandro Gonzalez Iñarritú.
roteiro: Guillermo Arriaga, baseado em idéia de Arriaga e Alejandro González Iñárritu.
elenco: Adriana Barraza, Brad Pitt, Cate Blanchett, Rinko Kikuchi, Gael García Bernal, Jamie McBride, Kôji Yakusho, Lynsey Beauchamp, Nathan Gamble, Elle Fanning, Aaron D. Spears, Clifton Collins Jr..
fotografia: Rodrigo Prieto. montagem: Douglas Crise e Stephen Mirrione. música: Gustavo Santaolalla. desenho de produção: Brigitte Broch. figurinos: Michael Wilkinson produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu e Jon Kilik. site oficial: Babel. duração: 142 min. Babel, Estados Unidos, 2006.
nas picapes: [great big world, anne hathaway]
Marcadores: Adriana Barraza, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Brad Pitt, Cate Blanchett, filmes 2006, Oscar, Rinko Kikuchi
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3 macacos
Comentários
Entendo também seu medo de que este suposto novo bom cinema caia na fórmula histórias picotadas + histórias paralelas. Mas assim como você, receio que a crítica especializada coloque tudo no mesmo balaio e também trate tudo como lixo. Por mais razos e forçados que alguns pareçam, no mínimo entretenimento todos são. Nem que seja apenas para ligar os pontos, como você bem sugeriu. No geral achei Babel um filme difícil, com um montagem bem mais linear que os outros dois filmes de Alejandro, mas com uma trilha que incomoda, com uma fotografia que cansa a vista, com silêncios para lá de incômodos também, com conflitos que se prolongam propositadamente para evitar o consumo fácil e efêmero dos mesmos. Ou seja, bem diferente de Crash, que é pop em quase todos os aspectos.
Há um tempo li que Fernando Meireles preparava um filme que pela descrição lembraria bastante esse. Seriam seis histórias que rolariam em seis locações diferentes no mundo, mas teriam um elo comum. Sabe dizer se ainda vai rolar este filme?
E já começo a campanha, Caché como filme do ano no Oscar rsrsrs
Eu não acho que "Babel" vá ganhar o Oscar não, Michel. Sua semelhança com "Crash" vai ser fatal.
se ligam, mas fica por aí. Previsível, um tanto parado. Vale a trilha sonora.
* Agora, o que o Guilherme Del Toro, conseguiu fazer com O Labirinto do Fauno, isso sim é digno de valorização.
Anderson, lembro, sim. Dei uma passada no seu blogue. Bem legal.
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