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Quinta, Novembro 16

[o céu de suely]

O Céu de Suely

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O Céu de Suely, 2006
Karim Aïnouz

A sina de Hermila é a da inquietude. O reencontro com a pequena cidade do interior do Nordeste que ela deixou em busca de um algo mais que não veio é emoldurado pela frustração. Hermila não reconhece aquele lugar como seu, nunca chegou a reconhecer. Viver num espaço de possibilidades tão limitadas era um martírio do qual ela queria escapar a todo custo. Para isso empreendeu uma jornada ao lado de Mateus, aquele que viria a ser ser marido, até o outro canto do país. Agora, de volta, com um filho nos braços, seu único alento é a espera pela volta retardada do amado para descobrir como recomeçar.

A cena que abre O Céu de Suely, numa belíssima deformação em superoito, de certa forma, expressa alguns dos porquês da protagonista. Sua vontade de movimento é maior do que ela mesma e ao mesmo tempo a deixa imensa, pronta para qualquer desafio, para qualquer perda, para qualquer escolha de Sofia. Nem sua condição de filha pródiga, seu retorno à família, à amiga, a um antigo amor podem dar conta de sua inconformidade. Mas Hermila, que não cabe mais ali, que vende uma rifa para vender seu diferencial, seus cabelos tingidos, essa Hermila não ter um lugar para ir.

Karim Aïnouz, em seu segundo longa-metragem, fez um filme cheio de camadas. Há o êxodo do nordestino que foge da pobreza, mas há algo muito maior, há a fuga de uma mulher que quer provar o mundo. E o cineasta sabe transformar essas texturas dramáticas em texturas pictóricas. A câmera aberta, seja nos belos planos do céu, seja no breu das estradas, reforça o isolamento da personagem, deixando-a refém daquele lugar que ela renega. O espaço opressor, ao mesmo tempo em que confina Hermila à solidão, praticamente a expulsa como um corpo estranho.

Como num filme iraniano, as personagens ganharam os primeiros nomes de seus intérpretes, intensificando as relações dos atores com seus duplos, reforçando o naturalismo nas performances. Se João Miguel, mais uma vez encantador, é João, Maria Menezes, com timing preciso, é Maria, e Georgina Castro, graciosa, é Georgina, mais do que todos, Hermila Guedes, revelada na boléia da caminhonete de Cinema, Aspirina & Urubus (Marcelo Gomes, 2005), é Hermila. Do lírico ao àspero, a interpretação dessa menina para uma mulher incomodada com sua inquietude, é o que traduz esse filme gigantesco.

posted by Chico Fireman at 03:15:32 | 2 comentários



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Comentários




Denise
Nossa, você descreveu o filme muito bem. O Karim é o meu diretor brasileiro favorito justamente por essa delicadez e riqueza de sentimentos.
30.11.09 @ 22:37


rafael pinto
Engraçado dar 5 pra esse filme...
01.03.10 @ 15:05


Este post tem 1 comentário aguardando aprovação...

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