Domingo, Fevereiro 12
[George Clooney]

Eu geralmente me sentia meio burro quando saía de um filme como Syriana, cuja dezena de micro-histórias têm tantos meandros, ora conspiratórios, ora jurídicos, ora sei-lá-o-quê, que eu nunca consigo entender tudo plenamente. Por isso, já faz algum tempo eu decidi que não teria mais vergonha de olhar para um filme deste tipo como um todo, mesmo que tenha deixado um ou outro detalhe escapar. E Syriana, a segunda experiência de Stephen Gaghan na direção, é um bom filme, embora geralmente queira ser bem mais do que isso.
Gaghan, que por tudo o que foi divulgado na imprensa, teve bastante dificuldades para realizar o filme, que tem por objetivo ser uma visão multilateral do funcionamento da indústria do petróleo, que o subtítulo brasileiro deixa, como de praxe, tão obviamente explícito. Pois bem, enquanto retrato da complicada questão, que, bem além do petróleo, envolve política, religião e cultura, Syriana é um exercício bastante satisfatório. Quase todas as histórias são bem apresentadas e resolvidas. O mosaico pode não ter tanta profundidade, mas dispara para todos os lados e geralmente acerta em algum lugar bem parecido com um alvo.
O que mais se pode louvar no filme é como ele não tenta seguir a fórmula de um thriller político, com uma historieta central que vai prender a atenção do espectador até o final. Não há um assassinato a evitar, um culpado a prender, uma notícia para ser levada aos jornais. Não é um Todos os Homens do Presidente ou um A Conversação, dois belos filmes (o último um excelente filme). Syriana tem tantas personagens - e seus "episódios" são tão completamente importantes para alcançar o painel proposto por Gaghan - que o filme se aproxima mais de um Robert Altman, sobretudo porque não há exatamente esse eixo central.
O texto é bastante, digamos, engajado, mas passa ao largo de ser panfletário. Gaghan apresenta muito bem a história do garoto árabe que, aos poucos, se envolve numa luta religiosa que não é sua e assume um discurso que não é seu. Há momentos em que pincela tentar ser definitivo, como no discurso empostado sobre a corrupção e como ela é importante. O texto é bem escrito, mas a vontade de dizer a "verdade" atrapalha um pouco seu intento.
A história menos bem resolvida é a de Matt Damon, justamente a mais fácil de entender, a mais linear. Em determinado momento, fiquei questionando o porquê da personagem. Seria para que fosse possível aquela cena final? Ou seria para apresentar o príncipe de Alexander Siddig, de longe o melhor ator do filme, que bem que merecia mais espaço. Seu diálogo com Damon sobre o que ele pretende para seu país é uma das melhores cenas. E George Clooney me surpreendeu. Em que bom ator ele se transformou. Aqui, renega toda sua "linha de representação", despindo-se do quê sedutor para fazer um homem obcecado, sem um pingo de exagero.

Clooney, que se revelou um diretor surpreendente em Confissões de uma Mente Perigosa, aproveitou parte da equipe técnica do filme que fez como ator em sua segunda incursão na direção. Com um tema como este (história real, fato político-histórico), outro cineasta faria um filme de três horas, mas ele fechou o seu na metade deste tempo. Curioso que ele pareça ter muito mais (não numa avaliação aborrecida) por causa da quantidade de material que apresenta. Veja como é o preconceito... minha próxima frase é: "impressionante como isso vem de um ator revelado como galã de seriado de TV".
George Clooney parece ser um cara muito legal. Seu carisma se reflete na tela e nas entrevistas que dá aqui e acolá. Mais que isso, é um artista consciente de um certo papel social, o que pode soar bobo e utópico, mas que ele converte muito bem na forma de um filme. Aproveita com precisão de imagens, depoimentos, entrevistas, gerando um longa quase documental, que poderia ter sido retirado de um belo arquivo de uma emissora de TV. Eu, que trabalho numa há um bom tempo, sei o quanto é difícil usar com parcimônia esse material e, mais ainda, conceder-lhe uma linha narrativa, que mesmo que pareça ingenuamente em busca da ética, é sempre muito honesta.
(Aparte: "honesto" virou uma palavra daquelas para se riscar de textos opinativos sobre obras de arte, não é? Falar que um filme é honesto parece simplista e redutor, mas eu sinceramente acho que há um grande exagero em depreciar uma palavra tão bonita.)
O tema é o macarthismo, o vilão não ganhou performer, a luta é simples: certo contra errado. Tá, o que é certo? O que é errado? Isso cada um decide para si. Clooney decidiu o que é o certo dele. E ele defende seu certo muito bem, com um filme econômico e direto, impecável tecnicamente (fotografia habilidosíssima e boa montagem). David Strathairn está perfeito. Ele é o herói da vez, o herói de verdade. Eu gosto de heróis, eu preciso de heróis.
Syriana - A Indústria do Petróleo



Syriana, Estados Unidos, 2005.
Direção e Roteiro: Stephen Gaghan, baseado em livro de Robert Baer.
Elenco: George Clooney, Matt Damon, Amanda Peet, Nicholas Art, Luke Barnett, David Clennon, John Higgins, Steven Hinkle, Max Minghella, William Charles Mitchell, Jeffrey Wright, Tim Blake Nelson, Keveh Sari, Greta Scacchi, Alexander Siddig, Bob Fajkowski, Chris Cooper.
Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Tim Squyres. Direção de Arte: Dan Weil. Figurinos: Louise Frogley. Música: Alexandre Desplat. Produção: George Clooney, Georgia Kacandes, Michael Nozik, Jeff Skoll e Steven Soderbergh. Site Oficial: Syriana.Duração: 126 min.
Boa Noite, e Boa Sorte.



Good Night, and Good Luck., Estados Unidos, 2005.
Direção: George Clooney.
Roteiro: George Clooney e Grant Heslov.
Elenco: David Strathairn, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Ray Wise, Frank Langella, Jeff Daniels, George Clooney, Tate Donovan, Thomas McCarthy, Matt Ross, Reed Diamond, Robert John Burke, Grant Heslov, Alex Borstein, Rosie Abdoo.
Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stephen Mirrione. Direção de Arte: James D. Bissell. Figurinos: Louise Frogley. Produção: Grant Heslov. Site Oficial: Boa Noite, e Boa Sorte..Duração: 93 min.
nas picapes: Heroes, David Bowie.
posted by Chico Fireman at 19:36:00 | 14 comentários
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Comentários
Não acho o Syriana exatamente ingênuo, também simplista, o que é diferente. Agora, a parte da formação do terrorista é de lascar de tão preguiçosa e protocolar.
01.12.07 @ 01:36
O Strathairn é um gênio. Fiquei com uma vontade absurda de fumar depois do filme.
01.12.07 @ 02:07
filmesdochico
heheheh
Eu não, mas tb o acho um gênio.
Eu não, mas tb o acho um gênio.
01.12.07 @ 02:13
Também discordo que "Boa Noite e Boa Sorte" seja arrastado. Pelo contrário, ele é extremamente suscinto e preciso...
01.12.07 @ 08:23
Chico, belas análises, embora algumas vezes contradiza explicitamente trechos de meus textos sobre os filmes, hehehe...
Achei estranho você comparar "Syriana" a "Todos os Homens do Presidente" (ainda que numa negativa), já que a comparação seria quase inevitável com o outro filme, "Boa Noite e Boa Sorte" (embora ainda numa chave negativa, pois o filme de Clooney não busca aquele clima de mistério e tensão pra representar o trabalho dos jornalistas).
A personagem de Matt Damon não me parece mal resolvida. Acho que ele serve para mostrar como alguém que acredita ter uma visão completa do negócio de petróleo (ele é analista e consultor) mas que só tem esse contato através de números e relatórios acaba caindo do cavalo quando "sai a campo", por seu próprio preconceito (não enxergava o príncipe como um reformista) e inocência (achava que uma transformação daquele porte fosse possível, mesmo contrariando interesses americanos).
E concordo com o Marcelo: "Boa Noite e Boa Sorte" merecia 4 estrelas (ao menos numa escala até 5).
Achei estranho você comparar "Syriana" a "Todos os Homens do Presidente" (ainda que numa negativa), já que a comparação seria quase inevitável com o outro filme, "Boa Noite e Boa Sorte" (embora ainda numa chave negativa, pois o filme de Clooney não busca aquele clima de mistério e tensão pra representar o trabalho dos jornalistas).
A personagem de Matt Damon não me parece mal resolvida. Acho que ele serve para mostrar como alguém que acredita ter uma visão completa do negócio de petróleo (ele é analista e consultor) mas que só tem esse contato através de números e relatórios acaba caindo do cavalo quando "sai a campo", por seu próprio preconceito (não enxergava o príncipe como um reformista) e inocência (achava que uma transformação daquele porte fosse possível, mesmo contrariando interesses americanos).
E concordo com o Marcelo: "Boa Noite e Boa Sorte" merecia 4 estrelas (ao menos numa escala até 5).
01.12.07 @ 09:14
Achei que a duração de SYRIANA fosse maior, Chico. No jornal daqui diz que o filme tem 172 minutos! Acho que eles erraram.
01.12.07 @ 15:35
Valeu pela visita, Chico! Apareça sempre...
"Boa Noite e Boa Sorte" merece a revisão, mesmo não sendo um filme de múltiplas camadas como "Syriana" ou "2046" (filme que mais revi este ano).
"Boa Noite e Boa Sorte" merece a revisão, mesmo não sendo um filme de múltiplas camadas como "Syriana" ou "2046" (filme que mais revi este ano).
01.12.07 @ 15:52
Eu achei "Boa noite, e boa sorte" irregular. Um filme meio arrastado, geralmente maniqueísta -e isso, para mim, é um trunfo da narrativa, mas planifica o que há de documental. Sobre a fotografia, achei ok. Me parece que todo filme em P&B hoje merece destaque por isso, mas há mais do que eximir cores e equilibrar (ou estourar) contrastes, né?
Palmas para o protagonista e para Diane Reeves, fenomenal como sempre.
Quero ver "Syriana".
Palmas para o protagonista e para Diane Reeves, fenomenal como sempre.
Quero ver "Syriana".
01.12.07 @ 16:23
Estou bem de acordo com seu texto, mas acho "Good Night..." um filme muito superior. O que me incomodou em "Syriana" foi justamente a ingenuidade, mas é claro que a tentativa é louvável. Também acho que honestidade é um dos conceitos-chave a ser aplicado em obras de arte.
01.12.07 @ 18:04
filmesdochico
Muito superior a "Syriana"? Eu também acho, mas não consegui dar quatro estrelas para ele.
É o tempo que tem no Adoro Cinema e no IMDB, Ailton. "Syriana" é longo, mas nem tanto...
É o tempo que tem no Adoro Cinema e no IMDB, Ailton. "Syriana" é longo, mas nem tanto...
01.12.07 @ 18:27
"Syriana" é bom, mas um pouco confuso...vou ter que rever o filme para entendê-lo melhor, mas adorei a interpretação de Clooney e fiquei sensibilizado com o problema que ele obteve na médula depois da cena da tortura. Ainda assim, prefiro "Boa Noite", o melhor da safra do oscar até agora! Digo isso, porque o soberbo e melhor filme de Woody Allen, "Ponto Final" estréia semana que vêm...
01.12.07 @ 18:47
filmesdochico
Eu acho que fotografia do Robert Elswit não é apenas não ter cor e estourar contrastes. Há um belo trabalho de luz e de criação de enquadramentos. Você achou o filme arrastado? Eu achei justamente o contrário, curto e polpudo (ou seja, parece que se disse muito em pouco tempo).
Pretendo revê-lo. Estes últimos dois meses têm sido especialmente complicados para mim.
Pretendo revê-lo. Estes últimos dois meses têm sido especialmente complicados para mim.
01.12.07 @ 19:39
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