Terça, Janeiro 24
[Munique]

Quando dirigiu Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, Steven Spielberg definiu para o espectador o que esperar exatamente de um filme seu. São raros os cineastas que têm o dom da manipulação consentida, que conseguem atingir limites dramáticos tão perigosos quanto ele, que usualmente passa de raspão do sentimentalismo por causa da forma direta de se comunicar. Pelo menos, é isso o que eu acho de Spielberg. E eu acho também que ele errou algumas vezes. Mas, de uma maneira geral, Spielberg é um grande diretor.
As críticas a seu trabalho geralmente resvalaram no quanto ele abusa dessa capacidade de manipulação em seus filmes. De certa maneira, quem se dispõe a assistir a um trabalho de Spielberg está preparado ou para ser abduzido pelos encantos de suas histórias, ou para refutar a maneira como ele as conta. Sim, porque na mesma medida em que o diretor é grande, o diretor é previsível. E essa talvez seja sua maior falha.
Então, de tão previsível na construção de seus filmes (entendam: eu não acho isso necessariamente ruim), é bem entendível o porquê da recepção fria a Munique, novo filme sério do diretor, que vai de encontro a quase tudo o que Spielberg fez: o longa é de uma economia dramática impressionante. Razões existem. Acompanhar um grupo de homens cuja missão é assassinar pessoas - por mais que elas sejam terroristas - e fazer com que o espectador se apaixone por eles, tática comum na hora de cativar o público, soaria esquizofrênico num filme clássico de Spielberg. Por isso, a solução foi o distanciamento. Um tom quase documental.
A própria natureza da história a ser contada mendigava este formato, então há uma excelente composição das cenas, que funcionam tanto enquanto tradução dos fatos (não vou entrar no mérito de como os eventos se desenrolaram realmente) quanto na forma de narrativa dramática. Munique lembra muito os filmes sobre espionagem e terrorismo feitos nos anos 70. O tom nostálgico surge na fotografia de Janusz Kaminski, que faz mais um trabalho exemplar nos enquadramentos, movimentos de câmera e na iluminação propositadamente escassa. A sepialização tão excessiva no cinema feito hoje em dia é usada com parcimônia.
Mesmo abraçando o documental, o diretor não se esquiva de uma das coisas que melhor sabe fazer: humanizar suas personagens. Todos os integrantes do grupo ganham atenção em maior ou menor grau. O Avner de Eric Bana, na condição de protagonista, é quem recebe um desenho mais amplo, um homem de família, cuja integridade não é abalada por aceitar a missão em nome de sua pátria. Bana, tão econômico quanto a encomenda, está particularmente bem em cena. Sua performance profissional - e seus questionamentos sobre o ofício - contrastam com os pequenos momentos de explosão pessoal. O bálsamo de ouvir a sonoplastia da filha pelo telefone.
Há um aproveitamenro discreto, mas eficiente de personagens periféricos, como a família mafiosa francesa, a mãe e a esposa de Avner e a primeira-ministra Golda Meir, que mesmo sem um texto particularmente notável, ganha uma performance notável de Lynn Cohen. Acho injustas e mal colocadas as acusações de "defesa" da causa judaica porque a análise sobre os eventos não me parece assumir partidos. Não se trata de imparcialidade, mas de foco. Há, inclusive, uma bela cena entre um judeu e um árabe numa discussão sobre terra, lar, casa. Para Spielberg, o que importa não é a política. Nem exatamante a ética. O que conta é a porrada nos ouvidos de quem aperta o botão.
Munique




Munich, Estados Unidos, 2005.
Direção: Steven Spielberg.
Roteiro: Tony Kushner e Eric Roth, baseado no livro Vengeance: The True Story of an Israeli Counter-Terrorist Team, de George Jonas.
Elenco: Eric Bana, Daniel Craigm Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Ayelet Zurer, Geoffrey Rush, Gila Almagor, Michael Lonsdale, Mathieu Amalric, Moritz Bleibtreu, Valeria Bruni Tedeschi, Meret Becker, Marie-Josée Croze, Yvan Attal, Lynn Cohen.
Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Direção de Arte: Rick Carter. Figurinos: Joana Johnston. Música: John Williams. Produção: Kathleen Kennedy, Barry Mendel, Steven Spielberg e Colin Wilson. Site Oficial: Munique.Duração: 167 min.
posted by Chico Fireman at 17:23:00 | 30 comentários
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Comentários
acho que estão substimando Spielberg, tá certo qu eo cara fez o último filme "bacana" com "Prenda-me se For Capaz". Munique é capaz de arrebatar bastante indicações ao Oscar. A recepção fria que ele teve é o pé atras com que a crítica tem tratado Steven.
01.12.07 @ 04:03
O faxineiro parando um avião com um esfregão, também. Mas o filme é bom mesmo, não estava esperando.
01.12.07 @ 05:50
filmesdochico
Discordo sobre o seu "tá certo". Acho "Guerra dos Mundos" genial.
01.12.07 @ 09:27
Não sabia que o filme era tão longo. Pelo visto, só vai dar pra eu ver no fim de semana mesmo.
01.12.07 @ 09:51
Chico, ainda sobre a música da Baez: hoje li no IMDB que ela é original do S. Zissou. Atenção: isso tá errado! Essa música já esteve até em outros filmes. Talvez tu já saiba, mas quis só chamar a atenção ao erro do imdb.
01.12.07 @ 12:13
Olá, entrei no seu blog por acaso (estava em outro blog que tinha o seu adicionado)e, cara, fiquei apaixonado.
Suas resenhas são muito boas: diretas, construtivas e com conteúdo. Parabéns. Vou adicionar o seu blog!
Quanto a Munique, o filme estréia nessa sexta na minha cidade. Mas como fã do Spielberg, to com muita expectativa.
Se tiver interesse, dá uma passado no meu blog!
Abraço
Suas resenhas são muito boas: diretas, construtivas e com conteúdo. Parabéns. Vou adicionar o seu blog!
Quanto a Munique, o filme estréia nessa sexta na minha cidade. Mas como fã do Spielberg, to com muita expectativa.
Se tiver interesse, dá uma passado no meu blog!
Abraço
01.12.07 @ 13:55
filmesdochico
Essa música é bem antiga, anos 60, acho. E com a Joan Baez cantando... mas valeu o toque, Milton.
André, valeu pelo elogio. Vou passar lá, sim.
Um abraço.
André, valeu pelo elogio. Vou passar lá, sim.
Um abraço.
01.12.07 @ 14:19
filmesdochico
E o Chris Penn, irmão do Sean Penn, apareceu morto ontem. Ainda não se sabe do que ele morreu. Chris esteve genial no papel do mafioso de "Os Chefões", do mestre Abel Ferrara.
01.12.07 @ 14:24
Nao gostei de Munique. Não mesmo. Me irritou bastante, me deixou inquieto na cadeira, enfim...
Assim como você, gosto de "Guerra dos Mundos"...
Assim como você, gosto de "Guerra dos Mundos"...
01.12.07 @ 14:55
Uma pena, eu gostava do cara.
Chico, como tanto a Baez quanto o Morricone são vivos e ainda ativos, algum incauto poderia confiar na info do imdb.
Munique já estreou no Brasil? Ainda não fui ver.
Chico, como tanto a Baez quanto o Morricone são vivos e ainda ativos, algum incauto poderia confiar na info do imdb.
Munique já estreou no Brasil? Ainda não fui ver.
01.12.07 @ 15:06
filmesdochico
Estréia na sexta, Milton. Vi numa cabine para a imprensa.
Que a Joan estava viva eu sabia, mas não sabia se ainda produzia. mas no IMDB diz que é original ou apenas lista as canções?
Que a Joan estava viva eu sabia, mas não sabia se ainda produzia. mas no IMDB diz que é original ou apenas lista as canções?
01.12.07 @ 15:13
Não gosto de Guerra dos Mundos, e saí dos cinemas achando Terminal fraquinho, mas com o passar do tempo fui achando o filme mais simpático.
Munique ainda vou ver.
Munique ainda vou ver.
01.12.07 @ 15:25
filmesdochico
Sinopse do livro que Chris Claremont escreve inspirado no roteiro de X-Men 3:
"Os X-Men, heróis mutantes que juraram defender um mundo que os teme e odeia, estão de volta! Desta vez, com o auxílio dos novos recrutas Fera e Anjo, eles deverão enfrentar a evolução encarnada na forma de sua antiga colega, Jean Grey! Possuída pelo poder cósmico da Fênix Negra, a renascida Jean Grey tornou-se um perigo para ela mesma, seus companheiros mutantes e o planeta todo! Para acabar com a ameaça iminente, uma potencial cura é desenvolvida e processada para tratar - e em última instância eliminar - as mutações genéticas de uma vez por todas! Agora, conforme os campos de batalha são definidos, os X-Men, liderados pelo Professor Charles Xavier, precisam enfrentar não apenas os poderes capazes de consumir mundos de Jean Grey, mas também a maligna Irmandade, um bando de mutantes poderosos organizado pelo antigo aliado de Xavier, Magneto!"
"Os X-Men, heróis mutantes que juraram defender um mundo que os teme e odeia, estão de volta! Desta vez, com o auxílio dos novos recrutas Fera e Anjo, eles deverão enfrentar a evolução encarnada na forma de sua antiga colega, Jean Grey! Possuída pelo poder cósmico da Fênix Negra, a renascida Jean Grey tornou-se um perigo para ela mesma, seus companheiros mutantes e o planeta todo! Para acabar com a ameaça iminente, uma potencial cura é desenvolvida e processada para tratar - e em última instância eliminar - as mutações genéticas de uma vez por todas! Agora, conforme os campos de batalha são definidos, os X-Men, liderados pelo Professor Charles Xavier, precisam enfrentar não apenas os poderes capazes de consumir mundos de Jean Grey, mas também a maligna Irmandade, um bando de mutantes poderosos organizado pelo antigo aliado de Xavier, Magneto!"
01.12.07 @ 15:39
filmesdochico
Eu peguei de lá, Ed.
01.12.07 @ 16:12
O Spielberg toma uma posição sim: ele é contrário a todo tipo de extremismo, o filme é sobre isso, essa é uma posição. Mas que ele fica a todo momento tentando mostrar que não quer atirar especificamente nos judeus nem nos árabes, isso fica.
01.12.07 @ 17:27
"Mas que ele fica a todo momento tentando mostrar que não quer atirar especificamente nos judeus nem nos árabes, isso fica."
Qual o problema?
Qual o problema?
01.12.07 @ 17:49
filmesdochico
Não gosto tanto de "O Terminal", mas tem uma cena que eu adoro: aquela onde ele tenta conquistar a policial para o amigo. Aquela seqüência é antológica.
01.12.07 @ 18:04
filmesdochico
Tiago, eu não falei que ele não toma posição, inclusive citei a cena da conversa do Bana com o árabe, que sintetiza o para o que o filme veio, falei que ele não toma "um lado", não toma "partido".
01.12.07 @ 18:06
filmesdochico
Mas por quê?
01.12.07 @ 18:27
Hummm.
A Isabela Boscov desceu a lenha no filme porque ele não toma um lado.
Dependendo de como o Spielberg trabalha isso, é uma grande qualidade.
A Isabela Boscov desceu a lenha no filme porque ele não toma um lado.
Dependendo de como o Spielberg trabalha isso, é uma grande qualidade.
01.12.07 @ 20:21
filmesdochico
Por que ele tem que tomar um lado? Ele não quer tomar um lado.
01.12.07 @ 20:28
Vou deixar meus comentários sobre o filme para depois. Por enquanto, estou bobo com a coincidência, pois acabei de baixar Here's to You e tava ouvindo quando abri teu blog!!!!
01.12.07 @ 20:32
filmesdochico
Essa música é genial. Mas, fala aí, vc viu o filme? Eu ainda não li uma crítica sobre o filme só o buzz do Oscar. Queria saber o que vcs acharam.
01.12.07 @ 20:37
honey, amei munique. amei o modo como ele começa cheio de certezas e vai te deixando cada vez mais com dúvidas. mas depois eu vou falar dele melhor no meu blog.
beijossssss
beijossssss
01.12.07 @ 20:47
Nenhum, Diego. Só o didatismo que eu já devia esperar de todo filme do Spielberg.
01.12.07 @ 21:44
conicidência por aqui tb. acabo de ver o trailer de munique na TV, enquanto eu lia este post.
eu curti o filme, e acho uma grande besteira esperar que ele tome uma posição...
eu curti o filme, e acho uma grande besteira esperar que ele tome uma posição...
01.12.07 @ 23:05
filmesdochico
Também acho isso uma imensa qualidade do filme!
01.12.07 @ 23:42
filmesdochico
Vai escrever sobre ele?
01.12.07 @ 23:59
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péssimo 







