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Sexta, Junho 18

[ARGENTINA 2]

DOIS OLHARES PARA O MESMO PAÍS


O cinema argentino atinge o máximo de seu vigor narrativo com duas obras distintas e distantes





É impressionante como o cinema argentino nada contra a corrente que atinge e devassa o país nos últimos anos. Os nossos vizinhos conseguem extrair bons filmes de romances policiais, histórias de família e crônicas sociais. O Brasil, com uma crise bem mais domada, não consegue ter a unidade de qualidade que os filmes argentinos têm. A diversificada produção cinematográfica do país invade em doses cada vez maiores as salas brasileiras. Nos últimos anos, longas como Nove Rainhas (Fabián Bielinsky, 99), Plata Quemada (Marcelo Piñeyro, 00) e O Filho da Noiva (Juan José Campanella, 01) levaram muita gente pros cinema, além do bom desempenho junto aos críticos. O cinema da terra de Evita consegue ser popular sem abraçar a vulgaridade e denso, passando longe da pretensão intelectual. Os dois exemplos mais recentes, ainda em cartaz pelo Brasil, são Histórias Mínimas, de Carlos Sorin, e O Pântano, da estreante Lucrecia Martel.


O primeiro segue a linha do "filme pequeno". É um delicado conto sobre três personagens de um vilarejo da Patagônia, que enfrentam por motivos diferentes uma viagem para a mesma cidade. O diretor Carlos Sorin, que trabalhou com atores não-profissionais (com impressionante resultado), aposta na simplicidade e no poder de encantamento do roteiro, que foge de estripulias narrativas tão comuns em filmes com histórias paralelas. O título dá conta do quão particulares são os contos (um velhinho procura o cão fugitivo, uma mulher vai receber o prêmio de um programa de TV e um homem leva um bolo de aniversário para o filho de sua pretendente). Pequenos recortes das vidas de gente simples, com motivações reveladas aos poucos, objetivos minúsculos. Um filme que vence pelo cuidado que o diretor tem na composição dos personagens, nas imagens trabalhadas, no espírito lúdico.





O Pântano, de Lucrecia Martel, segue uma linha oposta. Propõe-se a uma crônica familiar e social que narra os bastidores de duas famílias em torno de uma piscina suja, uma possível metáfora da atual situação do país. Mas, ao contrário de Sorin, a diretora estreante não busca o caminho da poesia. A simplicidade - ou ainda, a quase rispidez - do roteiro parece querer sufocar o espectador com um não-trabalho de ambientação que resume o filme ao texto e ao elenco. Um grande texto e um elenco totalmente inspirado por ele. O grau de estilização visual seja na fotografia, seja na direção de arte é nenhum. O que fica mais evidente ao descobrir que o responsável pela câmera deste filme é o mesmo que fez Histórias Mínimas.


A família dona da casa da tal piscina é a própria aberração. Um pai bêbado, uma mãe reclusa, um filho de rosto desfigurado, uma filha desnorteada. O espetáculo de caos e desordem que se desenha foge do padrão estereotipado que poderia resultar desse conjunto de personagens arquetípicos criados pela diretora. Em contraposição, a família amiga, teoricamente melhor estruturada, se mostra tão suscetível à tragédia quanto a primeira. A cineasta sublima a ação em favor do retrato, do recorte, de mostrar. O olhar de Lucrecia Martel para seu próprio país é rico e sem filtros, coisa rara no cinema de hoje.


HISTÓRIAS MÍNIMAS

Historias Mínimas, Argentina/Espanha, 2002.
Direção: Carlos Sorin.

Roteiro: Pablo Solarz.
Elenco: Javier Lombardo, Antonio Benedicti, Javiera Bravo, Francis Sandoval, Carlos Montero, Aníbal Maldonado, María Rosa Cianferoni, Mariela Díaz, María del Carmen Jiménez, Mario Splanguño, Julia Solomonoff, Armando Grimaldi, César García, Laura Vagnoni, Rosa Valsecchi, Silvia Fontelles, Rosario Vera, Enrique Otranto.

Fotografia: Hugo Colace. Montagem: Mohamed Rajid. Direção de Arte: Margarita Jusid. Música: Nicolas Sorin. Produção: Leticia Cristi. Site Oficial: http://www.ocean-films.com/historiasminimas.


O PÂNTANO
La Ciénaga, Argentina/França/Espanha, 2001.

Direção e Roteiro: Lucrecia Martel.
Elenco: Mercedes Morán, Graciela Borges, Martín Adjemián, Leonora Balcarce, Silvia Baylé, Sofia Bertolotto, Juan Cruz Bordeu, Noelia Bravo Herrera, Maria Micol Ellero, Andrea López, Sebastián Montagna, Daniel Valenzuela, Franco Veneranda, Fabio Villafane, Diego Baenas.

Fotografia: Hugo Colace. Montagem: Santiago Ricci. Direção de Arte: Graciela Oderigo. Música: Van Dyke Parks. Produção: Lita Stantic. Site Oficial: http://www.lacienaga.net.


nas picapes: Letter to Memphis, Pixies.

posted by Chico Fireman at 13:52:00 | 0 comentário



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