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Segunda, Junho 7

[HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN]

BRUXO EM FASE DE CRESCIMENTO


Novo diretor finalmente transforma Harry Potter num adolescente





Há um certo preconceito intelectual com o universo de Harry Potter, a criação milionária da inglesa J. K. Rowling. A pequena massa culta estranha um personagem popular surgido em meio a uma realidade fantástica, que gera livros em série e mais games, filmes, camisetas, bonés e bonequinhos. O bruxinho criado por Rowling é visto mais como produto com fins lucrativos que como obra. Potter, numa visão simplificada da questão, é raso, fácil e com um forte poder de abstração do que realmente conta. O primeiro problema talvez seja estabelecer o que realmente conta. O segundo, e talvez mais grave, é desconhecer a obra em si por preconceito ? e falar mal dela mesmo assim.


Harry Potter, no entanto, não é apenas o maior fenômeno da literatura infantil dos últimos vinte ou trinta anos. É a maior criação literária destinada a este perfil de público leitor neste mesmo período de tempo. Uma elaborada criação literária, é verdade, que incorpora mitologias, lendas e fábulas para contar uma história sobre um menino que começa a virar homem. Bobinho, não é? Ingênuo. Mas Potter é exatamente isso. Um menino crescendo. Um garoto que descobre a cada dia, com cada situação, que o tempo passa e provoca mudanças nele e em seus amigos. Transformações no corpo e na mente. E realmente não há nada de fantástico nisso. Qualquer um que está lendo este texto enfrentou essas transformações, mudou com estas mudanças.


O melhor de Harry Potter é como sua autora consegue criar um ambiente de fascínio e identificação sugerido pela palavra. Rowling é uma escritora extremamente popular e muito talentosa. Um talento talvez bem limitado de acordo com visões mais exigentes, mas é inegável sua capacidade de envolver o leitor através de um universo que estava em desuso, num lento processo de decadência e de esquecimento. Bruxos, criaturas míticas, seres malvados deixam mais carinhosa a relação de quem lê com o que está no papel. Harry Potter exalta o lúdico e a criança. Talvez seja por isso que as duas primeiras investidas do bruxo no cinema sejam dois filmes para a criança. Dois filmes bons, mas dois filmes feitos para o público infantil.


O diretor Chris Columbus assumiu o compromisso de dirigir uma aventura para meninos e meninas. E fez isso duas vezes. A Pedra Filosofal (01) e A Câmara Secreta (02) são belos trabalhos para um público específico. A terceira incursão do personagem no cinema reverte tudo isso. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban evolui significativamente em relação aos filmes anteriores: é uma história sobre meninos crescendo. O melhor é que o longa não se estrutura sobre as obviedades da concepção de responsabilidade ou o amadurecimento em troca da infância. O filme é sobre olhar para o mundo de uma maneira nova.


Harry, Hermione e Ron dominam filme. Tudo gira em torno deles, o que até prejudica um pouco a participação dos adultos veteranos do elenco. Maggie Smith, por exemplo, tem uma pequena cena. Mas em compensação a opção do novo diretor Alfonso Cuarón (do belo A Princesinha, 95) por priorizar o trio permite as mudanças de tom do filme. O Prisioneiro de Azkaban é o Potter mais sombrio dos que já chegaram às telas. Como o humor de um adolescente. O mundo não é mais tão colorido e o esplendor visual pode vir da figura macabra de um dementador, a nova criatura mágica criada por Rowling. A magia, por sinal, é a grande novidade deste terceiro capítulo da série. No filme, os garotos finalmente se mostram bruxos. Os feitiços são mais visíveis e o universo místico está espalhado por todas as cenas, sobretudo as que revelam mais um pouco do passado do protagonista e acenam para seu destino.


O diretor recém-chegado foi feliz na escolha dos novos integrantes do elenco: Gary Oldman e David Thewlis, ambos perfeitos, e Timothy Spall, em ritmo acelerado. Emma Thompson é que não escapa do exagero na caracterização da nova professora. Michael Gambom é um grande ator, mas seu Dumbledore dá bastante saudade de Richard Harris. No entanto, o grande destaque do novo elenco é o hipogrifo criado pelas maravilhas da tecnologia que permitiram uma cena de absoluto deslumbre visual.


A chegada de Cuarón e de suas intenções de investigar os adolescentes em formação ganhou uma ajuda inusitada: o crescimento dos três pequenos protagonistas. É o melhor desempenho de Daniel Radcliffe na série. Nos dois filmes anteriores, Harry estava à sombra de personagens mais ricos em nuanças como Hermione e Ron, os contrapontos cômicos para o bom menino. Agora, com mais espaço, Radcliffe está seguro, com presença mais marcada. Melhor ator mesmo (embora Emma Watson ainda tenha a grande performance do filme - no primeiro, era até covardia compará-los). É curioso perceber que ao deixar Harry, Hermione e Ron no comando, Cuarón foi responsável por uma quase-dicotomia: O Prisioneiro de Azkaban é o mais adolescente dos três filmes. E também é o longa mais adulto. Mistérios de quem está crescendo.


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN

Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, Estados Unidos, 2004.
Direção: Alfonso Cuarón.

Roteiro: Steve Kloves, com base no livro de J.K. Rowling.
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Alan Rickman, Gary Oldman, David Thewlis, Emma Thompson, Timothy Spall, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Maggie Smith, Fiona Shaw, Jimmy Gardner, Pan Ferris, Tom Felton, Oliver Phelps, James Phelps, Matthew Lewis, Richard Griffiths, Harry Melling, Julie Christie, Chris Ranking, Julie Walters.

Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Direção de Arte: Stuart Craig. Música: John Williams. Figurinos: Jany Temime. Produção: Chris Columbus, David Heyman e Mark Radcliffe.


nas picapes: Come Upstairs, Snooze.

posted by Chico Fireman at 01:14:00 | 2 comentários



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Comentários




locoooooo
13.07.09 @ 13:35


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