Sexta, Fevereiro 14
[Chegadas e Partidas]
Chegadas e Partidas
O cinema norte-americano, no seu quase um século de longas-metragens, desenvolveu uma espécie de subgênero do drama que faz muito sucesso popular: uma espécie de pequeno melodrama interior, onde o espectador é tomado pela tristeza da vida de pessoas comuns que viveram grandes tragédias pessoais e buscam redenção. A fonte é, sem dúvida, o turbilhão de romances populares que invade todos os anos as livrarias norte-americanas. Romances como The Shipping News, de E. Annie Proulx, adaptado para o cinema em 2001.
Como a maioria dos pequenos melodramas interiores, Chegadas e Partidas, o filme, exagera nos traumas de seus personagens, sobretudo nos de seu protagonista, Kevin Spacey. Um pai que o maltratava, um emprego sem graça, uma mulher que leva homens pra casa, suicídio em família, filha vendida no mercado negro. E isso é o começo da história. Depois de tanta desgraça, há que se buscar a redenção. Eis que ele volta ao lugar onde seus antepassados viveram para construir uma nova vida... Premissa de quase todos os pequenos melodramas interiores.
O maior problema deste gênero de filmes é que ele está gasto. A eficiência que se conseguiu em Laços de Ternura (83), seu maior exemplar (um filme do qual eu não sou muito fã), dificilmente será repetida. Em Chegada e Partidas, não existe doença, mas uma dor incontrolável, que percorre todos os personagens. O problema é o excesso. A caracterização de Kevin Spacey é exagerada. Seu personagem é apresentado como um ser completamente patético. Tanto que não dá para se envolver tanto no seu drama com a esposa Cate Blanchett (melhor atriz do filme). E todos os coadjuvantes têm dramas pessoais de grandes proporções. Tudo soa falso, o que atrapalha o bom elenco. A exceção de Cate Blanchett, atores reconhecidamente bons como Julianne Moore, Judi Dench e o próprio Spacey nunca conseguem o tom certo para seus personagens. Percebe-se o esforço, que esbarra na fragilidade não só do roteiro como da própria história.
Lasse Hallström era um cineasta promissor. Minha Vida de Cachorro (85), feito ainda na Suécia, é um dos mais belos filmes sob a perspectiva de uma criança. Já nos Estados Unidos, Gilbert Grape (93) enchia os olhos, com um roteiro inteligente e sensível e ótimas interpretações. Mas seus últimos filmes são insípidos e inodoros. Só não se tornam invisíveis por causa das milionárias campanhas da Miramax para o Oscar. Em Regras da Vida (99), só se salvavam a interpretação de Michael Caine e belíssima trilha de Rachel Portman. Chocolate (00) é de uma nulidade sem precedentes. Rachel Portman salva o filme da destruição total mais uma vez. Em Chegadas e Partidas, a compositora não fez a trilha, aí não sobrou muita coisa além de uma bela paisagem e um monte de atores bons que lutam para dar verdade a personagens de mentira.
Chegadas e Partidas
The Shipping News, EUA, 2001
Direção: Lasse Halsström.
Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Scott Glenn, Cate Blanchett, Pete Postlethwaite, Rhys Ifans, Gordon Pinsent, Jason Behr, Larry Pine, Alyssa Gainer, Kaitleen Gainer e Lauren Gainer.
Roteiro: Robert Nelson Jacobs, baseado no livro de E. Annie Proulx. Produção: Rob Cowan, Leslie Holleran, Linda Goldstein Knowlton e Irwin Winker. Fotografia: Oliver Stapleton. Direção de Arte: David Gropman. Edição: Andrew Mondsheim. Figurinos: Renne Erlich Kalfus. Música: Christopher Young.
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