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Terça, Agosto 17

[jornada de cinema silencioso 2010]

Eu adoro a Mostra de Cinema de São Paulo, tento acompanhar o É Tudo Verdade, o Festival de Curtas, o Anima Mundi e boa parte dos eventos de cinema da cidade, mas tenho uma queda especial pela Jornada de Cinema Silencioso, que começou justamente no ano em que eu vim morar por estas bandas. A quarta edição da jornada trouxe algumas pérolas. Conseguir ver onze longas. Aqui estão minhas impressões sobre eles:

Mary Pickford

A Aurora de um Amanhã EstrelinhaEstrelinha
The Dawn of a Tomorrow, James Kirkwood, 1915

O filme estrelado pela primeira namoradinha da América foi um dos mais bobinhos da programação. Mary Pickford foi a encarnação da boa moça na era silenciosa e em A Aurora de uma Manhã não fugiu do papel. Mary interpreta Glad, "a órfã mais feliz de Londres", num conto sem nuances sobre o valor de ser nobre e coisas afins. O filme tem uma realização bastante rudimentar e ainda obedece a uma tradição literário-teatral que dominou os a nos inciais do cinema, mesmo sendo do mesmo ano do primeiro longa de D. W. Griffith.

Clarence Brown Greta Garbo John Gilbert

A Carne e o Diabo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Flesh and the Devil, Clarence Brown, 1926

Apesar da beleza de muitas imagens, A Carne e o Diabo interessa mais por sua ousadia ao abordar o adultério e mostrar beijos e carícias explícita e eroticamente, numa época em que Hollywood ainda sobrevivia incólume ao moralismo. A história é simples: no filme de Clarence Brown, Greta Garbo safadíssima e tão malvada quanto tenta destruir a amizade íntima, ainda que não explícita, entre dois rapazes. Um deles é John Gilbert, com quem a atriz viveu um romance extra-tela.

Rossi Film

Companhia Paulista de Estrada de Ferro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Companhia Paulista de Estrada de Ferro, Rossi-Film, 1930

O mais interessante neste documentário, sem assinatura de diretor, são suas imagens de setenta anos atrás que mostram trabalhadores da estrada de ferro construindo artesanalmente locomotivas. O molho especial é perceber como as pessoas se portavam frente a um objetivo ainda relativamente medo: uma câmera.

Allan Dwan

Este Mundo é um Teatro EstrelinhaEstrelinha
Stage Struck, Allan Dwan, 1925

Este filme é mais um veículo para Gloria Swanson do que qualquer outra coisa. É uma comédia simples sobre uma garçonete que quer ser atriz e, apesar da assinatura de Allan Dwan, que dirigiria bons westerns, inclusive com John Wayne, tem uma narrativa formal e até truncada. A curiosidade maior foi ver Gloria vinte e cinco anos antes de Crepúsculo dos Deuses, filme que a homenageou justamente como grande diva do passado.

Per Lindberg

As Garotas de Norrtull EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Norrtullsligan, Per Lindberg, 1923

Se as comédias hollywoodianos muitas vezes engatinhavam em temáticas, a Europa, na mesma seara, mostrava uma rara elaboração. O sueco As Garotas de Norrtull, é um belo exemplo. O filme de 1923 é delicioso: uma comédia feminista sobre quatro mulheres bem resolvidas que dividem apartamento em Estocolmo. Além de um texto cheio de ironia, outro trunfo do filme é como a liberdade das personagens é levada com naturalidade.

Hands Up! Raymond Griffith

Golpes de Audácia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Hands Up!, Clarence G. Badger, 1926

É lamentável que Raymond Griffith tenha sido praticamente esquecido quando se fala dos grandes comediantes do cinema silencioso. Griffith, que era mudo, sumiu do mapa com a chegada dos filmes falados, mas seu talento para o humor físico e a pantomima pode ser comparado ao de Chaplin, Buster Keaton ou Harold Lloyd. Este Golpes de Audácia é uma comédia maluquinha passada durante a Guerra Civil Americana em que o ator interpreta um espião sulista que se apaixona por duas irmãs. Até chegar ao final libertino, o filme nos leva para um delicioso passeio pelo Oeste dos Estados Unidos, fazendo piada com tudo e todos: governo, índios, escravos negros, mineiros. Sempre na maior democracia.

Lars Hanson

A Herança de Ingmar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Ingmarsarvet, Gustaf Molander, 1925

Gustaf Molander foi bem ousado em retomar a série de filmes de Victor Sjöström que adapta o romance épico Jerusalém, de Selma Lagerlöff. A Herança de Ingmar engana a princípio, com uma história familiar, mas aos poucos vira uma reflexão profunda sobre religião e fanatismo. Mas o que talvez impressione mais no filme é como os efeitos visuais são estilizados, sobretudo na cena fantasmagórica - e brilhante - em que demônios invadem a vila em que se passa a história.

Raoul Walsh

Regeneração EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Regeneration, Raoul Walsh, 1915

Regeneração é um dos mais antigos longa-metragens que eu vi e é impressionante como um filme relativamente simples, a história de amor e redenção de um marginal, ganhou um tratamento de linguagem rebuscado do diretor Raoul Walsh, em seu primeiro trabalho. A herança de D.W. Griffith, com quem o cineasta novato havia acabado de trabalhar, está por toda parte: movimentos de câmera, montagem de causa-e-efeito, efeitos especiais e até um flashback. A concepção visual é impecável. O filme é considerado o primeiro longa a retratar o cotidiano dos gângsters.

G. W. Pabst

A Rua das Lágrimas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Die freudlose Gaße, Georg Wilhelm Pabst, 1925

Este é outro filme que engana logo de início, quando parece burocrático, mas G.W. Pabst, aos poucos, revela suas engrenagens e compõe um mosaico bem rico da Viena do pós-guerra, devastada e miserável. A sequência final de A Rua das Lágrimas transforma a trama ingênua envolvendo Greta Garbo, no auge da beleza, em retrato poderoso e cruel de uma época e se integra à ambientaçào sinistra mesmo com um final feliz. Um epílogo pesadíssimo afasta o clichê.

Victor Fleming

O Supersticioso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
When The Clouds Roll By, Victor Fleming, 1919

Vinte anos antes de dirigir O Mágico de Oz e ...E o Vento Levou, Victor Fleming estreou na profissão com uma comédia que acaba de entrar para a lista das minhas favoritas. O astro Douglas Fairbanks escreveu a história, perturbadíssima, sobre um homem que está servindo inadvertidamente de cobaia para as experimentações de um cientista louco. Se O Supersticioso começa esquisito com suas piadas metafóricas explícitas, o humor e a ironia rapidamente assumem o controle e a entrega do elenco, sobretudo Fairbanks, que nunca esquece de mostrar seu lado atleta, dá ao conjunto um polimento raro. Os minutos finais impressionam pela magnitude de uma inundação, com cenários em tamanho real e, pricipalmente, sem nunca perder a piada.

Wara Wara

Wara Wara EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Wara Wara, José Maria Velasco Maidana, 1930

É bem triste imaginar que este é o único filme silencioso boliviano que resistiu ao tempo. Wara Wara, apesar de demonstrar aqui e ali sua manufatura, nunca esconde suas pretensões épicas. O filme adota o romance clássico entre adversários - Wara Wara é uma princesa nativa - para narrar a chegada dos espanhóis a um reino do Império Inca. As atuações caricatas parecem saídas de um desenho do Picapau, no melhor dos sentidos. Mas se falta refinamento à história e aos intérpretes, sobra aos cenários, figurinos e à fotografia, sempre dispostos a dar as credenciais necessárias ao filme. Algumas imagens, por sinal, são bem bonitas.

posted by Chico Fireman at 02:17:39 | 4 comentários


Sexta, Agosto 13

[alfred hitchcock]

Alfred Hitchcock

Meu irmão Thomaz é um sortudo. Nasceu no dia 13 de agosto. Faz aniversário junto com o maior cineasta de todos os tempos. Alfred Hitchcock, sexta-feira, 13 de agosto, 111 anos.

posted by Chico Fireman at 15:25:34 | 6 comentários


Sexta, Julho 30

[a aldeia dos malditos / a estirpe dos maditos]

Wolf Rilla

Não é sempre que escrevo no blogue sobre filmes antigos, mas quando eles entram para a lista dos melhores de sua vida, alguma coisa precisa ser dita. A Estirpe dos Malditos, filme dirigido pelo britânico Anton M. Leader em 1963, me deu um baque. Primeiro, preciso confessar que confundi o filme com A Aldeia dos Malditos, lançado três anos antes, objeto de culto e alvo de um remake feito por John Carpenter nos anos 90. O filme de Leader é uma continuação do longa original. Uma continuação às avessas, diga-se de passagem.

Na verdade, o filme de 1963 aproveita apenas a ideia de crianças estranhas com poderes telepáticos e olhos brilhantes. As semelhanças param por aí. O longa original, que eu vi, curioso, um dia depois de assistir embasbacado a sua seqüência, trata de acontecimentos esquisitos numa cidadezinha britânica que culminam com o nascimento de crianças loiras que conseguem ler mentes e manipular pessoas. O filme é quase que uma versão britpop dos longas de ficção-científica popularescos dos anos 50 que faziam alusão à Guerra Fria. É diversão com alguma inteligência, mas esbarra num texto pobre, numa encenação apressada e em conceitos mais imediatistas.

Anton M. Leader

Já o filme de Leader, que à primeira vista parece uma continuação picareta, surpreende desde a abertura, com stills incomuns do personagem principal, Paul. As cenas seguintes revelam um elaborado trabalho de fotografia, que serve de apoio para um dos melhores filmes políticos que eu já vi. Hoje em dia, é facil classificá-lo como datado, mas eu custo a lembrar de ver a Guerra Fria ser tão bem traduzida num longa-metragem. O roteiro, correndo o risco da adjetivação, é inteligentíssimo e completamente metafórico; o retrato de uma época e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre intolerância étnica.

Apesar dos olhinhos brilhantes parecem ingênuos, a construção visual é requintadísima, com a fotografia, a montagem e os efeitos muito acima do que se poderia esperar de um diretor inexperiente. Leader, no entanto, fez carreira em TV, assinando episódios de séries clássicas como Agente 86 e Além da Imaginação. Mais requintado do que sua plástica é o texto do filme, ou melhor, o subtexto que recheia cada cena, que ora é sarcástico, ora faz uma reflexão sobre abusos de poder, tensão bélica, conspirações e medo do desconhecido.

Na minha próxima lista de filmes favoritos essa obra-prima chamada A Estirpe dos Malditos terá lugar privilegiado.

A Aldeia dos Malditos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Village of the Damned, Wolf Rilla, 1960

A Estirpe dos Malditos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Children of the Damned, Anton M. Leader, 1963

posted by Chico Fireman at 01:26:17 | 4 comentários


Terça, Julho 27

[a origem]

Christopher Nolan

Leonardo Di Caprio Christopher Nolan

Marion Cotillard Ken Watanabe

A Origem é um bom filme, mas não é tudo isso que querem que ele seja não. Primeiro, é preciso deixar claro que eu não sou do time que acha o Christopher Nolan um diretor "do caralho". Apesar de ter ficado impressionado com Amnésia há quase dez anos, achei Insônia apenas razoável, Batman Begins eficiente, O Grande Truque um belo de um golpe e, atirem as pedras, acho Batman: O Cavaleiro das Trevas superestimado. Muito, eu diria.

Nolan é um cara esforçado, não há como negar. Seus projetos são bem ambiciosos e isso, na maior parte das vezes, é bastante saudável. Além disso, aparente não ser um cara arrogante: parece sempre empenhado em entregar o melhor de um trabalho. No entanto, sua pretensão em criar filmes únicos me parece muito mais ficar na ideia. E ele já provou ser um grande vendedor de ideias, que geralmente são compradas como revolucionárias quando me parecem apenas bem executadas. Nolan não é um criador, mas um operário competente.

Essa impressão se confirma em A Origem, que, repito, é um bom filme, mas não inova em praticamente nenhum aspecto. O novo longa, com uma trama intrincada sobre invasão em sonhos, funciona bem porque seu roteiro é articulado o suficiente para permitir que o espectador embarque em seu conceito com num filme de ação envolvente. Nolan trabalha no subconsciente num nível de realidade virtual, mais elaborado, mas não muito diferente do que Kathryn Bigelow em Estranhos Prazeres, guardando proporções, especificidades e objetos-alvo dos dois projetos.

Joseph Gordon-Levitt

Ellen Page

Christopher Nolan

A Origem usa muitos conceitos caros às HQs, como planos de realidade alternativos e estados de consciência. É legal ver esses conceitos levados a sério num blockbuster hollywoodiano, mas não consigo enxergar nada de pioneiro no que Nolan faz. O filme chega a ser didático na tentativa de manter o espectador atento à trama. Todos os conceitos e as viradas na história são explicados quase em tempo real, principalmente pela personagem de Ellen Page, que parece estar lá para nos guiar.

O que mais me incomodou foi que algumas metáforas são quase óbvias, como a opção pelo lugar onde se escondem os segredos mais íntimos ou a maneira de se passar entre planos. Os signos usados por Nolan remetem diretamente aos que usamos nos sonhos, mas nunca chegam ao grau de complexidade dos filmes de David Lynch, por exemplo, um expert no campo onírico e em inserir seus elementos à narrativa. Lynch é um cineasta mais difícil, mas a maneira como trata os signos é mais fiel a nossa própria construção dessas experiências.

A concepção visual, um dos pontos altos do filme, é realmente muito boa: os cenários, a maioria virtual, são bem bonitos, mas os tão comentados efeitos visuais impressionam em poucos momentos, como na aparição de elementos durante o passeio de Page e Di Caprio ou na cena em que a cidade se dobra. No mais, me parecem uma variação - não muito discreta - das câmeras ultralentas de Matrix. São bem feitos, mas raramente originais.

No entanto, o roteiro escrito pelo próprio Nolan é bastante inteligente e funciona da maneira mais pop possível, sempre procurando cutucar o espectador - e aí provavelmente criando a sensação de experiência única. Só isso já merece aplauso. Ele também é um diretor de atores eficiente e domina um elenco cheio de estrelas, com destaque para as performances de Tom Hardy e Marion Cotillard. Todos estão a serviço do filme e de suas pretensões. E a melhor maneira de encerrar esse texto é justamente dizer que, para um filme tão ambicioso, assistir A Origem foi uma experiência bastante divertida.

A Origem EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Inception, Christopher Nolan, 2010

posted by Chico Fireman at 01:50:54 | 30 comentários


Sexta, Julho 23

[vincere]

Marco Bellochio

O novo filme de Marco Bellocchio é maiúsculo em todos os sentidos. O cineasta elegeu uma história de bastidor que mostra como o ditador italiano Benito Mussollini entrou para a política. Bellocchio aposta no superlativo: conduz o longa como uma ópera furiosa, com um uso excelente da trilha sonora e um talento inegável para reger os atores em cena. Na primeira meia-hora, os textos e as imagens de arquivo invadem a tela numa poesia brutal que quebra o classicismo do tom do longa. Com sua história estabelecida, Bellochio diminui o ritmo para criar planos belíssimos - e depois retomar sua marcha. Mas Mussollini, interpretado pelo ótimo Filippo Timi, na verdade, é um coadjuvante nessa história. A performance de Giovanna Mezzogiorno, do belo e pouco conhecido O Último Beijo, é, desde já, uma das melhores do ano.

Vincere EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Vincere, Marco Bellochio, 2009

posted by Chico Fireman at 15:35:53 | 5 comentários


[festival de cinema latino]

Desculpem pela demora, mas não deu para publicar antes. Aqui estão minhas impressões sobre os sete filmes que eu vi no Festival de Cinema Latino-Americano, encerrado no último domingo, em São Paulo.

Alamar

Ao Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Alamar, Pedro González-Rubio, 2009

Este filme mexicano é um dos mais intrigantes dos últimos tempos. É um quase-documentário sobre pai e filho. O pai, um mexicano descendente dos maias - isso segundo o catálogo porque nunca se explica nada sobre sua origem -, é um pescador que teve um affair com uma turista italiana por três anos. Fez neném. O filho mora com a mãe, em Roma. O filme acompanha uma espécie de temporada de férias que o garoto passa com o pai numa casa-palafita erguida dentro do mar há alguns metros de uma praia paradisíaca mexicana. O diretor ocupa a tela com o cotidiano dessa convivência de forma bem documental: pescar, tratar peixes, preparar o jantar, brincar com as aves marinhas. Começa bem chato e pretensioso, mas aos poucos o carinho entre os protagonistas se toma conta das cenas. E o registro do dia-a-dia dos dois se transforma num documento dos laços entre pai e filho.

Daniel Burman Graciela Borges

Dois Irmãos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Dos Hermanos, Daniel Burman, 2010

Daniel Burman não aposta muito em provocações. Seus três primeiros filmes são histórias sobre microversos familiares que não se esforçam para escapar do "simpático". Depois de uma tentativa ruim de intrincar sua temática, o fraco Ninho Vazio, Burman retorna ao conforto dos relacionamentos familiares. Para isso chama dois atores veteranos, ambos na casa dos 70, e explora sua relação de amor e ódio. Graciela Borges, que já tinha sido vista em O Pântano, assume um modelo de personagem (entre o bufo e o melancólico) clássico em filme hispânicos. Mas é ela, com sua petulância charmosa, quem diferencia esse Dois Irmãos do resto da fimografia de Burman.

Pablo Stoll

Hiroshima EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Hiroshima, Pablo Stoll, 2009

Hiroshima parece ser a prova de que Pablo Stoll era o responsável pela metade insólita de Whisky, filme que dirigiu ao lado do falecido Juan Pablo Rebella, que deveria ser a metade doce da dupla e a quem este filme é dedicado. O longa é uma brincadeira ora esquisita, ora despretensiosa, mas sempre muito agradável com musicais e filmes mudos. Stoll explora ao máximo as possibilidades sonoras do filme, repleto de trilhas e efeitos, mas priva os personagens de falar, traduzindo-os em letreiros. O protagonista, um personagem que vive num universo completamente particular, é um loser que mora com os pais, tem um trabalho qualquer e passa os dias vagando à procura de algo realmente significativo.

Mateo Herrera

Impulso Estrelinha
Impulso, Mateo Herrera, 2009

O primeiro filme equatoriano que eu vi na vida é uma decepção. A trama, à primeira vista, parece bem simples: uma garota resolve procurar o pai que não conhece. Mas o diretor Mateo Herrera tem intenções maiores e insere elementos metafísicos ralos que nunca são assumidos completamente e parecem jogados às pressas na história como numa tentativa de tornar o filme peculiar. A encenação é uma lástima.

Miente

Mente Estrelinha
Miente, Rafi Mercado, 2009

Este filme portorriquenho tem um acabamento visual caprichado, mas sua vontade de ser uma espécie de Tarantino + Guy Ritchie é meio infantil. A historinha com cara de suspense indie ganha intenções psicológicas que parecem surgir do nada - e que também não são grande coisa. No conjunto, decepciona pela fragilidade, mas há acertos aqui e ali. As cenas estilizadas começam funcionando bem. Mas o diretor resolve pecar pelo excesso e as usa mais do que manda o bom senso.

Marcelo Piñeyro

As Viúvas das Quintas-Feiras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Las Viudas de Jeuves, Marcelo Piñeyro, 2009

Depois da derrapada de O Que Você Faria?, uma espécie de O Aprendiz espertinho, Marcelo Piñeyro volta a acertar. As Viúvas das Quintas-Feiras volta a uma fórmula já usada pelo cineasta argentino: partir de um gênero cinematográfico para passar suas impressões sobre um período histórico. O diretor aposta na ambientação familiar para retratar a crise econômica de seu país no início da década passada. O filme é ao mesmo tempo sutil na composição das tramas particulares e contundente quando a história central precisa de mão firme. Piñeyro come pelas beiradas para mostrar um país cheio de rachaduras.

Ninón del Castillo, Juan Carlos Valdivia

Zona Sul EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Zona Sur, Juan Carlos Valdivia, 2009

Este filme boliviano foi a maior surpresa do cinema sul-americano nos últimos anos. A primeira impressão é de que o longa esbarraria em suas próprias pretensões: todas as cenas são filmadas em plano-sequência, sem cortes e com movimento, retratando cenas do cotidiano de uma família que mora numa mansão num bairro rico de La Paz. Os personagens parecem estereotipados, mas o roteiro se revela aos poucos, num exercício de sutileza, que, a cada cena, elege um ponto de partida para examinar a situação política do país, mas sem nunca colocá-la em primeiro plano. Essa narrativa circular, inteligente, justifica o projeto estético que se revela um projeto de linguagem. Filmaço.

posted by Chico Fireman at 09:44:31 | 3 comentários


Quarta, Julho 21

[top 100 filmes dos anos 2000]

Há alguns meses, reuni um grupo de amigos para escolher os melhores filmes realizados na década passada. O resultado está aqui. Faltou, no entanto, revelar a minha lista particular; a lista do melhor da década em que este blogue foi criado - e que já sofreu algumas mudanças desde então. E depois de muito sofrimento - cortei uma porrada de filmes que eu gosto na última leva - e um trabalho exaustivo de relacionar minhas listas anuais e melhores filmes, aqui está ela, pronta para vocês concordarem ou discordarem (e, no segundo caso, não esqueçam de fazer suas listinhas nos comentários).

Simon Pegg

100 Todo Mundo Quase Morto
Shaun of the Dead
Edgar Wright, 2004

Richard Linklater

99 Escola de Rock
School of Rock
Richard Linklater, 2003

Ang Lee

98 O Tigre e o Dragão
Wo Hu Cang Long
Ang Lee, 2000

Coen Brothers

97 Um Homem Sério
A Serious Man
Joel e Ethan Coen, 2009

O Ultimato Bourne

96 O Ultimato Bourne
The Bourne Ultimatum
Paul Greengrass, 2007

John Cameron Mitchell

95 Hedwig - Rock, Amor e Traição
Hedwig and the Angry Inch
John Cameron Mitchell, 2001

Abbas Kiarostami

94 Dez
Ten
Abbas Kiarostami, 2002

Steven Spielberg

93 Minority Report - A Nova Lei
Minority Report
Steven Spielberg, 2002

Kinji Fukasaku

92 Batalha Real
Batoru Rowaiaru
Kinji Fukasaku, 2000

Eduardo Valente

91 No Meu Lugar
No Meu Lugar
Eduardo Valente, 2009

Juan carlos Valdivia, Ninón del castillo

90 Zona Sul
Zona Sur
Juan Carlos Valdivia, 2009

Wong Kar-Wai

89 2046
2046
Wong Kar-Wai, 2004

Aleksandr Sokurov

88 Arca Russa
Russkiy Kovcheg, 2002
Aleksandr Sokurov

Bryce Dallas Howard

87 A Dama na Água
Lady in the Water, 2006
M. Night Shyamalan

Fernando Eimbcke

86 Lake Tahoe
Lake Tahoe
Fernando Eimbcke, 2008

Edward Yang

85 As Coisas Simples da Vida
Yi Yi
Edward Yang, 2000

Laurent Cantet Aurélien Recoing

84 A Agenda
L'Emploi du Temps
Laurent Cantet, 2001

Todd Haynes

83 Não Estou Lá
I'm Not There
Todd Haynes, 2007

Lars Von Trier

82 Dançando no Escuro
Dancer in the Dark
Lars von Trier, 2000

Norma Alean dro Hector Alterio Juan José Campanella

81 O Filho da Noiva
El Hijo de la Novia
Juan José Campanella, 2001

=> Continua ...

posted by Chico Fireman at 02:11:57 | 20 comentários


Sexta, Julho 16

[à prova de morte]

Quentin Tarantino

Quentin Tarantino Kurt Russell

Qunetin Tarantino

Não existe uma razão minimaente aceitável para que um filme de um diretor como Quentin Tarantino tenha permanecido inédito no circuito comercial brasileiro por quase três anos. À Prova de Morte foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2007 e, desde então, viu sua data de estreia ser adiada várias vezes até que, finalmente, teve que trocar de distribuidora para chegar aos cinemas. Uma estupiez que privou o público brasileiro de um filmaço.

O longa faz parte de um projeto em conjunto com o parceiro de velha data do cineasta, Robert Rodriguez, o filme duplo Grindhouse (a metade de Rodriguez, Planeta Terror, já foi até lançada em DVD). E, a princípio, este é o filme menos pretensioso de Tarantino, uma homenagem aos filmes de velocidade dos anos 70 que se ocupa muito pouco - ou quase nada - com aquele desfile de referências à cultura pop típico da filmografia do diretor. A verborragia continua, mas, nos primeiros 40 minutos de filme, assume a forma de um imenso girl talk.

Sexo, claro, é o assunto principal. E os diálogos, baratos, são deliciosos, inspirados explicitamente nos filmes descrebrados que Tarantino homenageia aqui. Mas essa homenagem não está apenas no texto ou na trilha sonora, mas em todo o resto. A fotografia da primeira metade do filme, assinada pelo próprio cineasta, abusa de ranhuras e borrões para envelhecer o longa. E a montagem de Sally Menke, companheira fiel do diretor, sem brincadeiras com a estrutura, marca tradicional do cinema de Tarantino, usa uma série de truques para reforçar essa proposta, como cortes bruscos e repetições. Às vezes é quase um trabalho de DJ.

Quentin Tarantino

Quentin Tarantino

Quentin Tarantino

O filme é claramente dividido em dois. Algum desavisado pode ignorar o guilty pleasure concebido por Tarantino e chamar a primeira metade do longa de misógino, mas isso se anula totalmente na segunda parte, especialmente no final. O único elo entre a primeira e a segunda metades é o personagem de Kurt Russell, o Dublê Mike, de longe a melhor interpretação que o ator já entregou ao público, tradição de Tarantino, que já havia feito o mesmo com Pam Grier, Darryl Hannah e John Travolta.

Em sua segunda metade, o filme muda bastante. O papo feminino, versão do diretor, permanece, mas as interferências visuais praticamente desaparecem, dando espaço para um trabalho de câmera é mais elaborado, embora as imagens continuem à moda antiga. Toda essa concepção retrô vem acompanhada por cenas de ação espetaculares, como a do choque entre os carros, que ganha vários pontos de vista. Todos com detalhes diferentes e imagens igualmente impressionantes.

Talvez a aparência descompromissada esconda o filme mais puro de Tarantino. À Prova de Morte, em sua amoralidade e seu imediatismo, parece ser feito apenas para se divetir. E, na boa, tem coisa melhor?

À Prova de Morte EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Death Proof, Quentin Tarantino, 2007

posted by Chico Fireman at 01:23:13 | 8 comentários


Terça, Julho 13

[animamundi 2010: primeiros filmes]

O Animamundi 2010 começa no dia 16 deste mês, no Rio de Janeiro, e no dia 28, em São Paulo. Quinze curtas do festival mundial de animação foram apresentados para a imprensa e a média não me pareceu tão boa assim. Mas minhas experiências anteriores no Animamundi nunca me decepcionaram. É raro não ver pelo menos uma cinco obra-primas no festival. Até agora, o filme que chegou mais perto disso foi The Lost Thing, melancólica e fantástica visão de um mundo em que o diferente é perseguido e escondido.

The Lost Thing

Aqui minhas cotações para os primeiros filmes vistos:

Os Anjos no Meio da Praça (Brasil) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Alê Camargo e Camila Carrossine
L'Education Sentimentale (França) EstrelinhaEstrelinha
de Paul Bourgois
Harmonix 'The Beatles Rock Band' Intro Cinematic
(Grã-Bretanha) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Peter Candleland
L'Homme à la Gordini (França) EstrelinhaEstrelinha
de Jean-Christophe Lie
Der Kleine und das Biest (Alemanha) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Johannes Weiland e Uwe Heidschötter
The Lost Thing (Austrália/Grã-Bretanha) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Andrew Ruhemann e Shaun Tan
Madagascar, Carnet de Voyage (França) EstrelinhaEstrelinha
de Bastien Dubois
Make Down (Alemanha) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Maurice Hübner
Pavasaris Varnu Iela (Letônia) EstrelinhaEstrelinha
de Edmund Jansons
Pinga com Sakê (Brasil) Estrelinha
de Wesley Rodrigues e Antonio Cruvino Caixeta
Rise Above Plastics (EUA) EstrelinhaEstrelinha
de Aaron Sorenson e Jeremy Boland
Something Left, Something Taken (EUA) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Max Porter e Ru Kuwahata
Spin (Gra-Bretanha/Alemanha/França) EstrelinhaEstrelinha
de Max Hattler
Teclopolis (Argentina) EstrelinhaEstrelinha
de Javier Mrad
Xixi no Banho (Brasil) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
de Fernando Sanches

posted by Chico Fireman at 17:23:47 | 5 comentários


Segunda, Julho 12

[shrek para sempre]

MIke Myers Eddie Murphy Mike Mitchell

Cameron Diaz Fiona

Antonio Banderas Gato de Botas

Quando, em 2001, o personagem Shrek chegou aos cinemas foi literalmente uma revolução. Naquela época, os longas de animação começavam a se arriscar, em busca de um público menos infantil, com histórias menos ligadas a contos de fada e um humor menos inofensivo. O longa de estreia do Ogro virou essas propostas pelo avesso. Shrek, de Andrew Adamson e Vicky Jenson, descontruiu as fábulas, desmoralizou personagens que pareciam intocáveis e fez isso tudo com um humor inteligente.

Mas a ousadia ficou pelo caminho. Se o segundo filme era tão bom - ou até melhor - do que o original, o terceiro, careta, com raros momentos realmente fiéis ao espírito do personagem, decepcionou. Shrek Para Sempre, anunciado como o réquiem da franquia no cinema, segue esta mesma linha e adota exatamente o conceito de franquia para se despedir. Comparando com um belíssimo fim de uma série de animação no cinema, Toy Story 3, o novo filme do Ogro apanha feio.

Enquanto a nova aventura do longa da Pixar serve como coadjuvante ao propósito de oferecer uma despedida aos personagens, o filme de Mike Mitchell, que dirigiu algumas comédias bobas em carne-e-osso antes de se aventurar pela animação, é apenas mais uma história do Shrek. A comparação já é um belo golpe no filme, mas a própria aventura não ajuda. Há algumas cenas legais e piadas engraçadinhas, mas, no geral, tudo é muito quadrado. Este filme é quase um reflexo do que aconteceu com o personagem: depois de casar e virar pai de família, o Ogro perdeu o sarcasmo e seus filmes deram adeus à anarquia. A despedida de Shrek ficou bem sem graça.

Shrek Para Sempre EstrelinhaEstrelinha
Shrek Forever After, Mike Mitchell, 2010

posted by Chico Fireman at 17:30:02 | 7 comentários


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