Categoria: Clima

CÉU AZUL E AR DE MICROONDAS

Se eu pudesse ser o roteirista pleno de minha própria vida, o meu horário de dormir, todos os dias, iria do início das manhãs até o fim das tardes. Tudo isso para fugir da luz do sol compreendida nesse intervalo de tempo. Principalmente no verão. Não que eu seja uma espécie de esquisitão que sofre de fotofobia e prefira ficar em casa meditando no escuro sobre qualquer coisa da alma. Acontece que a luz do sol nas horas mais intensas me incomoda, bastante. Mesmo na sombra, o ar de microondas consegue me deixar com saudades dos dias frios. Ou pelo menos das horas de clima mais ameno.

Sim, não gostar de dias quentes pode ser um absurdo em um país que está habituado a jogar confetes sobre o sol mais escancarado. Logo de manhã, temos sinais de que o clima promete, com aquele céuzão azul? Opa, então, se for um dia de descanso, a ordem é ir para um lugar em que possamos ficar na mira dos raios ultravioletas, como se fossemos oferendas para o deus Sol, confere? Não se iludam: a pele bronzeada é apenas uma reação da epiderme a uma queimadura. Por isso, é uma bobagem das grandes associarem esse estado com saúde. Dermatologicamente falando, a moça branquela é bem mais saudável do que a outra que mantém a cútis no estilão pastel-de-feira.

Tenho lá minhas razões para fugir do sol mais intenso. Deixei de exercer a profissão na qual me formei por causa de um tumor - benigno, vá lá, mas tumor - que tive na pele, perto do nariz, originado por causa de exposição excessiva ao sol. A principal razão de eu ter optado pela medicina veterinária foi a possibilidade de trabalhar no campo, o dia inteiro vagando pelos pastos ao redor da bicharada. No entanto, percebi que essa rotina seria uma provocação direta para a minha pele de espanhol branquelo. O tumorzinho foi um aviso. Recado assimilado, voltei para a cidade grande, no conforto das salas fechadas, devidamente climatizadas pelo simpático ar-condicionado. Era oito ou oitenta: se fosse para ser veterinário, que fosse no campo. Não deu.

Alguém poderia me sugerir algo simples para evitar esse meu divórcio com o sol: o uso contínuo de filtro solar. O dia inteiro, todos os dias? Tô fora. Ok, eu sei que o recomendável é se lambuzar com esse troço todos os dias do ano, seja lá aonde estivermos. Qualquer dermatologista diz isso, ainda mais nesses tempos de superaquecimento global. Mesmo assim, relapso confesso, eu ainda acho que estou um bocado mais protegido agora, vivendo boa parte de meus dias envolto por tetos e paredes. Mesmo sem filtro solar. A radiação continua chegando a mim, é fato, mas de uma forma bem menos intensa de quando eu trabalhava com os meus amigos avestruzes, por exemplo.

Bem, já sabem, se me chamarem pra pegar um solzinho naquele dia de céu azul, depende. Se for para ver o sol nascer ou o dia morrer no crepúsculo, tô dentro. Caso contrário, dispenso o ar de microondas.

***********

Olá! Já que provavelmente você não vai fuçar nos arquivos deste blog, que tal pelo menos conferir os 3 posts abaixo?

- O Crachá-Espetáculo
- Pra Ler no Banheiro
- Pra Onde Foi o Meu Dinheiro?


Permalink03.12.08, 08:07:20, by Tuca Hernandes Email , Cotidiano, Meu Umbigo, Memórias, Clima 4 comentários

MAS QUE CALOR, HEIN???

Apesar de muita gente fazer careta, sobretudo os de pendor mais sarcástico, não me incomodo quando alguém solta aqueles comentários nada originais sobre o tempo ("Nossa, que calor, hein?"). Afinal, muita gente está aqui nesse mundo porque, num dia quente como hoje, um homem chegou perto de uma mulher, comentou sobre o calor de matar, ela concordou, e daí emendaram outros assuntos além dos metereológicos, descobrindo que foram feitos um para o outro, e assim por diante. Você, que está lendo isso aqui, pode ter começado a existir por causa de um papo inicialmente banal.

Muitas pessoas com tendência intelectualóide acreditam que vão encontrar a sua cara-metade em algum colóquio de filosofia, por exemplo. Nem sempre é assim. Os melhores relacionamentos que tive nasceram do banal, a partir de uma observação óbvia sobre algo evidente, ali na cara delas. Puxar assunto é preciso, como se fosse o abrir de portas pra uma casa onde nos sentiremos à vontade.

E quando duas pessoas independem de grandes motivos pra saliva começar a ser gasta com gosto, podemos ter certeza: tem futuro aí. Caso contrário, imagine a angústia que deve ser conviver com alguém e ter que citar Fernando Pessoa, por exemplo, a cada vez que você quiser iniciar um papo com ela. Quando duas pessoas se gostam, não são preciso parafernálias verbais pra um chamar a atenção do outro.

Mas o que eu queria dizer mesmo nesse texto? Ah, sim. Que o calor de hoje foi de matar. Concorda?

(Texto escrito em 16/01/2006)


Permalink24.04.07, 12:00:07, by Tuca Hernandes Email , Relacionamentos, Clima 5 comentários

ENQUANTO AS FLORES NÃO VÊM E AS FOLHAS NÃO CAEM

Não gosto do verão. Tampouco do inverno. Prefiro as estações intermediárias, outono e primavera. No entanto, as duas primeiras sempre ganharam mais destaque. Quem sabe por coincidirem com o período de férias escolares, só pode ser isso. Ao meu ver, é mais agradável podermos sair pela rua sem grandes preocupações com extremos de temperatura, sem riscos de atrair uma gripe ou um câncer de pele. No mais, desconfio que toda essa badalação em torno das estações mais queridinhas foi inventada pelo comércio. Nesse verão? Que tal uma cervejinha refrescante pra curtir junto aos amigos, hein? Nesse inverno? Que tal uma bela jaqueta de cinco salários mínimos pra suportar esse friozinho gostoso, hein? E, nesse outono? Nessa primavera? Sei lá. Vai ver se estou colhendo flores ou varrendo folhas secas, vai.

Outono e primavera não são fortes, comercialmente falando. Funcionam mais como pré-carnavais, meros três meses que funcionam como intervalo bossa nova do clima heavy metal que está por vir. Nunca vi comercial de cerveja que tivesse como pano de fundo os cartões postais dessas estações, de flores desabrochando ou folhas caindo. Gatinhas sorridentes e garotões marombados, ao que parece, preferem tomar cerveja debaixo do sol do meio dia, sempre em alguma praia manêríssima, onde todos fazem sinal de joinha e ninguém fica de ressaca. Pro inverno, inventaram até a variação Bock de cerveja, perfeita pra se bebericar trajando aquela jaqueta charmosíssima, a tal que custou cinco salários mínimos. Mas e quanto o outono e a primavera? Nada. Temperaturas inofensivas demais para se levantar a bola de algum alívio, seja algo refrescante, seja algo que esquente.

No mais, pelo menos em alguns dias dos verões, temos fins de tarde como o de hoje aqui em São Paulo. Brinde dos bons. Céu azul e sol que chega na pele com o peso de uma pluma morna. Não feito um tabefe, conforme o roteiro dos inícios de tarde dessa época. Sem nuvens de chumbo que refrescam a cidade inundando-a sem tréguas, como é comum nos verões por aqui. Apenas um fim de tarde bonito, tanto de temperatura, quanto de paisagem. Assim, deu até pra aliviar a minha saudade da primavera. E do outono também.

**********

Ps: Cintaliga, o blog da Patrícia Köhler - minha namorada - e da Luciana (sem sobrenome mesmo, pelo menos na internet) entrou numa nova fase, em um novo endereço, fazendo agora parte do Interney Blogs, novíssima empreitada do mundo virtual-dinheiral que - anote aí - vai dar o que falar. Evolução das boas, pois elas merecem. Confira lá esse e outros blogs igualmente interessantes. Vale a visita!


Permalink22.02.07, 21:51:06, by Tuca Hernandes Email , Clima 7 comentários

FOTOGRAFIA DE UM FRIO SEM NEVE E PINGÜINS

Um texto pode ser uma foto expressa em palavras. Muitas vezes, funciona até melhor do que uma fotografia, dependendo de como certas sensações são descritas. Portanto, nem sempre uma imagem vale mais do que mil palavras. Decerto que palavras, quando bem empregadas, podem valer mais do que mil imagens. No momento em que escrevo este texto, por exemplo. O frio é grande, desses de cutucar a medula dos ossos, dando a sensação de que a qualquer momento encontrarei pingüins atravessando os faróis daqui. Não há imagens convincentes que revelem o gelo desse momento. Não está nevando, tampouco um iceberg surgiu no meio de uma avenida. Dessa maneira, resta tentar provar pelas palavras o quão chato deu pra esse inverno ser, perto do seu fim.

Como a sensação é recente, desconfio que não causará muita comoção a leitura desse texto, logo após a sua publicação. Muita gente, ao conferir essas palavras, simplesmente dirá: "E daí? Eu também estou com frio… Grande novidade! Ô falta de assunto!" Como fotos tiradas no dia anterior, no máximo isso aqui merecerá uma olhada pra ver se tudo está de acordo com o esperado. Se os verbos continuam sendo conjugados como devem ser, se as crases foram bem colocadas, essas coisas. No entanto, tempo passando, calor voltando, texto largado por aqui, sem atualização automática conforme o clima, a leitura disso aqui pode provocar outras sensações. Aí sim, se torna recordação, pose em palavras lembrando que na primeira semana de setembro de 2006 fez um frio de desvirginar termômetros aqui em São Paulo.

No momento em que você lê essas palavras, talvez a sua testa esteja cheia de suor, tamanho o calor que vem fazendo aí do outro lado do monitor. Se for assim, das duas, uma. Ou você está numa região que não é o sul e sudeste do Brasil, ou então, encontrou este post bem depois dele ter sido publicado. Talvez estas linhas possam servir de consolo pra você, que pode estar reclamando do forno daí. Sendo assim, saiba que o coitado aqui está nesse momento tentando usar seus dedos gelados pra finalizar este texto, desconfiado de que ainda tropeçará em alguns pingüins lá na calçada.

Fui convincente na fotografia?

Ps: link para a Central da Esperança.


Permalink06.09.06, 11:44:12, by Tuca Hernandes Email , Clima 8 comentários


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]