Categoria: Bichos
NOVO ASTRO PORNÔ SURPREENDE O MUNDO
Uma conhecida produtora nacional de filmes pornográficos anunciou no início dessa semana o seu mais novo astro: o rinoceronte Ricky. Descoberto no zoológico da cidade mineira de Aririque, o animal já está em São Paulo para fazer os primeiros testes diante das câmeras. Segundo informações da assessoria de imprensa da produtora, Ricky até agora tem se mostrado desinibido no estúdio. "Ele é bem carinhoso, sabe tratar muito bem uma mulher, melhor que muito cara por aí. Amei o teste que fiz com ele. A nossa transa rolou numa boa, sem complicações.", disse Sheron Créuzinha, uma das atrizes escaladas para contracenar com o novo astro.
Bem, se você conhece esse blog ou possui bom senso suficiente para interpretar um texto, já deve ter sacado - ou desconfiado, no mínimo - que essa notícia é falsa. No entanto, muita gente, ao ler qualquer texto escrito num português aparentemente correto, acaba acreditando em absurdos como o do parágrafo acima. Por pressa em fazer outras coisas ou preguiça mesmo, não se dão ao luxo de pesquisar sobre a veracidade ou não do que foi lido. No caso aqui, seria fácil descobrir a farsa, via google mesmo: não existe rinoceronte algum no zoológico mencionado, ora essa. Aliás, a cidade de Aririque, até onde eu saiba, existe somente nos meus delírios.
Publiquei há pouco tempo um post intitulado "TESTE - SERÁ QUE ELE GOSTA DE VOCÊ?". A intenção era simples e direta: tirar um sarro desses testes que as mocinhas carentes e inseguras adoram fazer. A meu ver, isso ficou claro na forma como o tema foi desenvolvido, das alternativas aos resultados. No entanto, para minha surpresa, muita gente acabou levando a sério esse "teste", atualmente bem cotado no google. Nos comentários, abusando de um miguxês sofrível, moças lamentam pelos resultados ali obtidos, pedindo desesperadamente que eu as ajude, como se eu fosse um guru sentimental. Claro que aproveito a ocasião pra dar uma sacaneada, de leve.
Enfim, não custa nada desconfiar de alguns absurdos que chegam tela do computador. Ou você acha que é possível, mesmo, que aconteçam coisas como orgias de rinocerontes com atrizes pornôs, enquanto o papa assina um documento liberando a masturbação? Eu, hein?
ZEZÉ, O CALOURO
Naquela manhã de verão, quase fim de fevereiro, ele encontrou aquele trecho da avenida um pouco mais complicado do que o habitual. Também pudera, estava acontecendo um desses trotes universitários conhecidos como "pedágio", onde os calouros vão pedindo uma contribuição de carro em carro, sob a vigilância ameaçadora dos veteranos. Daquela vez, pareciam ser estudantes da UNIGRANA, uma universidade que ficava perto dali. Bem, o jeito era relaxar e entrar na brincadeira, dando umas moedas, concluiu ele, de dentro do carro.
Mas, um momento, o que era aquilo ali, no meio dos calouros? Ele esfregou os olhos pra poder enxergar melhor. Não, não pode ser. Aquilo era demais. Tudo tinha um limite. Indignado, ele ligou e pisca-alerta e desceu do carro, indo em direção aos estudantes. Ele não ia deixar uma coisa dessas acontecer em pleno século 21:
- Ei, vocês aí! Que pôrra é essa, hein? - ele gritou pro grupo de veteranos que estava contando o dinheiro até então arrecadado.
- Calma, tio! - um deles respondeu, assustado.
- Calma o cacete! Podem parar com isso, já!!!
- Mas é só um pedágio… Ninguém tá batendo em ninguém aqui, relaxa. Tá tudo na maior normalidade e…
- Como normalidade? E aquilo ali, no meio dos calouros? - ele apontou pra um pessoal que estava colado na janela de um carro, implorando por alguns trocados.
- Ah, o senhor deve estar falando do Zezé…
- Zezé?
- É, um dos calouros.
- Não, meu filho, eu estou falando daquele chimpanzé ali, que está no meio dos calouros!
- Então, o Zezé, que é um dos nossos calouros, lá da UNIGRANA.
- Olha aqui, seus moleques, não tem graça essa brincadeira! Usar um bicho indefeso pra ficar andando no meio do trânsito… Olha lá, todo pintado, com metade do pêlo raspado e… - nisso chegou um homem mais velho, interrompendo a discussão:
- Olá, tudo bem? Vejo que está acontecendo um mal-entendido aqui.
- Não tem nenhum mal-entendido aqui, meu senhor. Tem sim um caso de maus-tratos com um animal. Quem é você???
- Sou o dono do Zezé.
- Ótimo, então já sei a quem responsabilizar quando a polícia chegar aqui. - ele começa a discar no celular.
- Calma, calma… vou explicar tudo.
- Não tem explicação! E esses imbecis aí - ele aponta pro grupo de veteranos - vieram tirar uma com a minha cara, ao falarem que o seu chimpanzé é calouro da universidade deles!
- Ué, e é a mais pura verdade!
- Como assim?
- Meu senhor, o Zezé fez um vestibular, passou nele, e agora está aqui, comemorando o feito com os novos colegas.
- Ah, isso é impossível. Nem vem!
- Olha, eu confesso que, até uns anos atrás, eu também achava essa possibilidade bem remota. Mas, depois que vi passarem no vestibular um analfabeto e um menino de oito anos, eu perguntei a mim mesmo: porque não o Zezé? Ele é tão esperto, aprende com tanta facilidade os truques que ensino…
- E como a universidade permitiu isso?
- Ah, não sei, mas o fato é que, da inscrição para o vestibular até a matrícula, ninguém lá da UNIGRANA se opôs ao fato do Zezé se tornar mais um aluno deles.
- Que coisa… Mas… como ele conseguiu fazer a prova?
- Ah, foi mole. Ele ia apontando pra todas as alternativas que ele achava que estavam certas.
- E como foi o desempenho dele?
- Não sei, não teve como avaliar isso.
- Como assim?
- Ah, brincalhão e impaciente do jeito que é, o Zezé acabou comendo o cartão de respostas. De qualquer forma, ele teria que sair lá da sala da prova mesmo, já que não parava de jogar cocô nos outros concorrentes.
- Bem, mesmo assim, ele foi aprovado?
- Ah, sim. Viram potencial nele, apesar de tudo. Bem, foi o que disseram pra mim, quando fui levar o cheque da matrícula lá na UNIGRANA, semana passada. Olha ele vindo aí… Vem cá cumprimentar o moço, Zezé. Vem! - andando no típico passo da espécie, ele se aproximou, evidenciando um "Direito - UNIGRANA" pintado na testa.
- Oi Zezé, tudo bem? Parabéns pela sua conquista, viu? - felicitou o homem.
- Uh, uh, uh… ah, ah, ah!!! - respondeu o calouro, mostrando os beiços e coçando o rabo - bem ali -, enquanto aguardava por uma banana do dono. Ao pegar o que queria, voltou pra junto dos novos colegas, todo animado.
- Olha, desculpe aí pela minha reação do início, eu não sabia… - ele disse para o dono.
- Ah, imagina. O senhor não é o primeiro e nem será o último a estranhar… Com o tempo, o pessoal acostuma.
- Pois é… Bem, vou voltar pro meu carro, sucesso aí pra vocês!
- Opa, obrigado! Tenha um bom dia!
- Igualmente!
Mal voltou para o carro, ele viu um início de confusão mais na frente, com todo mundo correndo pra longe dali, calouros e veteranos. Estavam fugindo do novo aluno que, irritado com um motorista que se recusou a dar uma moedinha sequer, resolveu arremesar cocô pra tudo quanto é lado, surtadíssimo.
Coisas da integração. Numa UNIGRANA da vida, normal.
CIDADÃO VET
Sou formado em Medicina Veterinária e gosto de escrever. Durante alguns anos, eu conjuguei esses dois elementos prestando serviços pra uma editora que publicava guias com produtos para animais, sobretudo rações e medicamentos. O meu papel era, basicamente, resumir o texto das bulas e rótulos, tornando-os inteligíveis sem a perda da, digamos assim, mensagem que o produto passava. Apesar desse perfil tedioso, esse trabalho, de alguma forma, me ajudou a ativar algumas regiões do meu cérebro esquisitinho, sobretudo aquelas relacionadas à escrita. Um belo exercício de gramática aplicada à veterinária.
Tudo bem, isso não me tornou um Machado de Assis na versão veterinária, é claro. Mesmo assim, ficou uma vontade de, um dia, criar algo mais autoral referente aos principais protagonistas de minha profissão: os animais. Assim, depois de um belo tempo mantendo o Fiapo de Jaca, comecei a considerar a existência de um blog onde eu escrevesse apenas sobre animais. Mas eu não pretendia fazer um estilo fofinho, cheio de fotos engraçadinhas de cãezinhos e gatinhos, com legendas açucaradas. Tampouco era a minha intenção posar de especialista do copy and paste, aquele que apenas vai publicando informações e textos técnicos encontrados por aí, caoticamente.
A minha intenção era fazer um meio termo, algo parecido com uma conversa despretensiosa, como se eu tivesse falando com meus melhores amigos a respeito de fatos sobre animais, seja lá de que espécie forem esses. Bem, um pouco sobre a minha profissão também. Sem frescura, sem empolação, como nos melhores bate-papos.
Bem, um dia eu teria que sair de toda essa teoria, afinal, quem não publica se complica, certo? Então, esse dia é hoje, em que começo a deixar público esse meu outro blog: Cidadão Vet. Sim, tá no comecinho, e muita coisa lá vai mudar ao longo do tempo, pra melhor. Não estranhem, pois lá eu assino como Marcelo, justamente o nome que está na inscrição do meu CRMV. Se o assunto não interessar pra você, bem como a forma de abordagem do mesmo, tudo bem, o Fiapo de Jaca continua por aqui, como sempre.
Então já sabe, estou lá também: Cidadão Vet.
FORMIGAS
Quando criança, fui uma espécie de Dr. Mengele das formigas. O que isso significa? Para aqueles que morriam de sono nas aulas de história ou continuam abrindo o jornal só para conferir o horóscopo, Dr. Mengele é o médico nazista que ficou conhecido pelas experiências grotescas conduzidas em prisioneiros nos campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial. Esclarecimento feito, admito que fui igualmente pródigo no sadismo em relação às formigas. Quando avistava uma, não via lá muita graça em esmagá-la. Simples demais pro meu gosto. Meu interesse mesmo era o de bolar maneiras de testar a resistência dela, com o resultado final sempre sendo o pior possível pro bicho, imóvel, mortinho, em coma, sei lá.
Eu tinha curiosidade em saber, por exemplo, por quanto tempo uma formiga resistiria ao frio do congelador. Se ela encostasse no gelo, a coitadinha morria na hora, por choque térmico. Ainda na cozinha, não havia uma que sobrevivesse à imersão em detergente líquido, por mais breve que essa fosse, não importando o quanto eu enxaguasse a vítima logo depois. Luz do sol atravessando uma lupa pra dar aquela famosa tostadinha? Ah, apenas mais um dentre tantos outros métodos de rotina que prefiro não mencionar aqui, sob pena de perder mais leitores ainda, perplexos com o sadismo da minha infância. Mas o tempo passou e fiquei bonzinho com esses bichos. Verdade.
Há dias que venho notando a presença de formigas no apartamento onde moro, algo até então inédito, aqui no décimo primeiro andar. Como é óbvio nessas invasões, o açucareiro virou uma espécie de ponto de encontro delas. Toda vez que vou adoçar algo, não há como evitar o meu reencontro direto com elas. Mas, diferentemente do que foi comum no meu passado de Dr. Mengele das formigas, faço questão de afastá-las gentilmente com a colher, antes de pegar a porção desejada de açúcar. E nada de esmagar as que eventualmente encontro em cima da pia. Continuando desse jeito, quase um São Francisco das Formigas, é bem capaz que eu venha a colocar avisos pelo apartamento todo, no estilo "Cuidado ao pisar: local de trilha de formigas."
Pela diferença de tratamento em relação ao meu passado sombrio na sociedade das formigas, há quem diga que me tornei religioso, onde, em nome de uma ordem superior, respeito toda e qualquer forma de vida. Nada disso. Fosse assim, eu já teria deixado de considerar o churrasco como uma das melhores invenções do homem. Apenas cresci, só isso. Tenho mais o que fazer do que ficar brincando de torturador de formigas, ora essa. Mas confesso que hoje em dia acho esses bichos mais simpáticos da forma que eu os encontro: livres, vivos e intactos. Ok, tudo bem, eu admito: sou um amor com formigas. Fofo. Bonzinho. Uma gracinha só. Mais um pouco, e eu viro uma espécie de ativista do Greenpeace por causa delas, jogando coquetel molotov nos carros das dedetizadoras. Quem diria, hein?
(Texto escrito em 18/04/2006)
AMIGOS DE CASULO
(Como sou médico veterinário de formação, qualquer coisa que eu venha a escrever sobre animais tem um selo de autoridade. Ok, sei que no fundo não é bem assim, afinal temos por aí vários profissionais excelentes no discurso, mas desastrosos naquelas responsabilidades que o diploma impõe. Rolandos Leros é que não faltam nesse mundo. Mas, enfim, o fato é que, meses atrás, umas amigas minhas me convidaram para colaborar em um trabalho de conclusão de curso de jornalismo – um projeto de revista direcionada ao público solteiro -, escrevendo uma crônica sobre animais. Como tema, me foi imposto sugerido abordar o universo das pessoas que pouco saem de casa e a relação dessas com seus bichos de estimação. E com o trabalho, desde o fim do ano passado, avaliado, aprovado, e esquecido arquivado em alguma gaveta de faculdade, sinto-me à vontade para publicar o texto aqui, enfim. Como conseqüência disso, fui convidado para atuar como cronista de uma revista sobre animais de estimação, a ser lançada em maio agora. E em troca de alguns milhares de centavos. Eu, ganhando uns trocados pra escrever. Sei lá, engraçado isso…)
Da ameba a baleia, qualquer ser vivo passa os dias na busca daquela boa sensação de segurança. Dentre as várias maneiras de se conseguir isso, podemos destacar a nossa relação com os locais onde nos sentimos bem à vontade, como a nossa casa. Nesse caso, vejo cada vez mais ganhar força o fenômeno do encasulamento, aquele onde a pessoa, se pudesse, passaria dias dentro de casa, sem saudades do mundo lá fora. E não estou falando de isolamento total, uma vez que a internet pode fazer de qualquer um o ser mais social do pedaço, mesmo que esse seja virtual. E por falar em relacionamento, um real pode ganhar força nesse contexto: o das pessoas com seus animais de estimação.
É natural que os laços entre um cão e seu dono fiquem mais firmes quando o segundo pouco sai de casa. No confinamento, seja lá qual for a razão desse, por opção ou falta dela, esse companheirismo pode vir a ganhar aquele ar das grandes amizades. A presença desse outro torna-se indispensável, onde o cão ou gato deixa de ser simplesmente aquele bicho engraçadinho ou maluquinho. Torna-se algo mais. Por mais que as distrações do lar consumam o tempo da pessoa, a presença do amigo peludo dá uma outra dinâmica à estadia em nossas cavernas modernas. Há uma cumplicidade, mesmo que silenciosa, mas bem mais autêntica que muitas carinhas que pipocam por aí nos orkuts e messengers da vida. Uma ligação que não seria tão intensa assim caso o dono pegasse a via inversa do encasulamento, ficando em casa apenas pra dormir, nada mais.
Uma vez que o mundo lá fora continuará tendendo à hostilidade e não deixaremos de buscar a boa qualidade de vida, não estranho o crescimento desse fenômeno, onde o bicho vai aos poucos deixando o quintal pra se instalar de vez nas salas adentro. Afinal, salvo uma ou outra exceção, feito os que possuem odores não tão agradáveis assim, fazemos questão de ter ao nosso lado os melhores amigos. Mas é claro, passear com os mesmos, deixando o casulo vez ou outra, faz um bem danado, pros dois. Assim como encontrar e se comunicar com seres da mesma espécie também, ao vivo e a cores, debaixo do sol que computador algum conseguirá reproduzir…

