Categoria: Literatura
EU, NO PAPEL?

Ainda existem escritores que usam a caneta e o papel para gravar suas idéias. Descobri isso dias atrás, num café perto da minha casa. Enquanto eu conversava com uns amigos, reparei que o senhor da mesa ao lado não parava de escrever em folhas que iam acumulando-se. Pela velocidade de sua mão sobre o papel, como se fosse uma impressora humana, aquele homem com cara de papai noel parecia ter as ideias muito bem estabelecidas na cabeça, sem grandes pausas para dúvidas gramaticais, de estilo ou mesmo de pensamento. Invejável. Sim, devia ser um escritor. E tinha todo o jeito de estar inspirado, concluí.
Percebi que vez ou outra ele olhava para mim, como um pintor que observa algum detalhe na paisagem antes de dar a próxima pincelada. Será que eu me tornara referência para um personagem que estava nascendo ali, naqueles papéis? Pode ser. Num dado momento, tive vontade de interrompê-lo, pedindo para ler aqueles manuscritos, só para saber o que estava sendo feito da minha imagem.
- Olha, tem como reescrever essa passagem aqui, na qual eu fico observando a paisagem de Paris enquanto não sai uma ária de ópera da minha mente?
- Quer que eu troque a cidade?
- Não. Paris está ok. O problema é a música. Eu jamais fui de ouvir ópera. Jamais. Tá incoerente isso aí. Não sou eu. Tem como trocar por "Angie", dos Rolling Stones?
É bem provável que eu nunca terei noção de como foi a minha participação no enredo. Não reconheci a figura daquele senhor. Decerto que jamais li qualquer coisa dele. De familiar, apenas aquela cara de papai noel. No fim, fiquei com a sensação de que alguém tirou uma foto minha que jamais verei. No papel, terei sempre aquelas características que o suposto escritor captou em mim. Uma fotografia em forma de palavras que custarão a envelhecer. Se fiquei bem ou mal? Bem, deixa pra lá.
Talvez eu esteja exagerando, pois aqueles papéis podem fazer parte de um rascunho que jamais sairá da gaveta, feito uma foto esquecida no meio de tantas outras numa câmera digital. Pensando bem, pela convicção com que ele ia preenchendo as folhas em branco, eu acho que a ideia estava boa demais. Portanto, se em breve você ver um cara parecido comigo num romance ou conto recém publicado, tudo bem, eu admito, sou eu mesmo. Agora, se eu estiver numa história ruim demais, favor nem me avisar, combinado?
O ZÉ PAMONHA QUER UM PONTO FINAL

Eu estava tranquilo, tomando o meu cafezinho no lugar de sempre, imaginando o próximo texto que eu escreveria, quando um cara meio estranho me abordou:
- Olá, tudo bem? - ele tinha um rosto sem personalidade, em que todos os traços eram indefinidos. Difícil de descrever.
- Oi... - respondi desconfiado, um pouco incomodado com aquela invasão na minha tranquilidade.
- Então, desistiu de mim, é?
Era isso então. No mínimo, o figura devia ter me confundido com um alguém com quem ele tivera um envolvimento amoroso. Porque uma modelo ninfomaníaca nunca me confundira daquela maneira? Vida ingrata. Procurei esclarecer o mal entendido:
- Olha, meu chapa... Pra início de conversa, eu nunca vi você na minha vida. Depois, o meu negócio sempre foi mulher, ok? E se isso for uma pegadinha, se deu mal, porque eu sou o cara mais desconfiado do mundo e...
- Calma, não tô falando disso... - estranho, aquele cara começou a me parecer familiar, o que me incomodou um bocado, pelas circunstâncias.
- E do quê você está falando então?
- Lembra que, semanas atrás, você começou a escrever um texto sobre um cara que se deu mal ao cantar uma mulher, só porque ela preferia continuar com o noivo dela, que era um anão albino?
- Ué, como você sabe disso? Eu não comentei com ninguém sobre essa história. Ou comentei?
- Sei lá se você comentou. A questão é: porque você não continuou desenvolvendo a história?
- O que você tem a ver com isso, afinal?
- Rapaz, eu sou o cara do texto, o que se deu mal.
- Hein???
- É isso mesmo. Eu saí da sua imaginação, mas não tive a sorte de ter um ponto final, como os seus outros personagens.
- Não pode ser... Então você é o... o... Zé Pamonha?
- Opa, lembrou o meu nome! Sinal de que a história não foi esquecida. Aliás, não tem como trocar esse nome? Não gostei. Que tal "Renatão Presença"?
- Ah, me desculpe, jamais que um cara como você se chamaria "Renatão Presença".
- Ué, porquê?
- Pela simples razão de que a mulher da sua vida preferiu um anão albino e fanho à você!
- Ele era fanho também? Não me lembro disso...
- Eu ia colocar mais isso também, caso eu retomasse a história.
- Sacanagem, hein?
- Fique tranquilo. Não rola mais esse risco.
- Ufa! Como eu fico no final então?
- Não terá final. Não vou retomar a história. É ruim demais, não ia chegar a lugar algum. Fiz um favor para os meus leitores. Bem, pelo menos para aqueles que sempre me perdoaram pelos piores textos.
- Então é isso? Ficarei vagando por aí, para sempre nessa condição de rascunho? Olha a minha cara, não tem nada definido. Nada!
- Foi mal, Zé. Mas eu não vou retomar esse texto. Aliás, foi bom você me lembrar dele. Vou apagá-lo de vez do meu computador.
- Espere aí, vamos negociar!
- Zé, existem coisas das quais eu preciso me libertar, entenda isso. Essa minha fixação por anões e mulheres impiedosas precisa desaparecer da minha obra. Não quero ser desses autores que passam o resto da vida revisitando obsessões. Muito chato isso.
- Me reaproveite em algum outro texto, por favor!
- Eu já estou reaproveitando, rapaz! Não percebeu ainda?
- Sério?
- Sim, estamos em um texto. Em um diálogo. Tá vendo esses travessões, no início de cada frase sua?
- Olha, é mesmo... As reticências também... Ei, olha só, três pontos de exclamação!!!
- Tá bom assim pra você?
- Tá ótimo! Vocês, autores, pregam cada peça na gente, hein? Incrível como vocês manipulam o enredo e...
- Zé, melhor pararmos por aqui. O texto está ficando longo demais. Lembre-se, você é personagem de um post. Não de um romance.
- Entendi... Agora, resta o...
- Isso, ele mesmo. O ponto final.
ACORDO ORTOGRÁFICO SOFRE NOVA REVISÃO

Se depender dos responsáveis que zelam pela sua integridade, a língua portuguesa ainda ficará um bom tempo no divã em que foi colocada. O mais recente capítulo desse drama aconteceu no início dessa semana, quando a Associação Brasileira dos Ortografistas Brasileiros (ABOB ) conseguiu entrar no STF com um pedido de liminar que provocou a suspensão imediata do novo acordo ortográfico. "As mudanças não traduzem a realidade do povo brasileiro." afirmou Geremias Chiavenatto, presidente da associação.
Além de invalidar as regras que já estavam em vigor, a ABOB instituiu uma série de alterações que revolucionarão a língua portuguesa de uma maneira sem precedentes na história moderna. No documento que detalha as mudanças - intitulado "Português do Povo Para o Povo" - são inúmeros os exemplos que rompem com a rígida formalidade que até então caracterizava a nossa ortografia. Como no caso do emprego da crase, que, com as novas regras, será facultativo, de acordo com a vontade de quem estiver escrevendo. "É o fim da paranóia com a crase. Daqui por diante, a pessoa só a colocará quando o coração mandar. Se for em todos os 'as' que ela encontrar pela frente, ótimo. Agora, se quiser abolir esse traço da sua vida, sem problemas!", explica um entusiasmado Chiavenatto. O mesmo raciocínio vale para o uso do hífen e da vírgula.
Palavras que antes eram consideradas erradas - tanto na grafia quanto na fala - passarão a ser oficialmente incorporadas no novo vocabulário. Portanto, a pessoa que escrever "asterístico" estará tão correta quanto aquela que fizer uso de "asterisco", por exemplo. Segundo o documento da ABOB, toda e qualquer palavra que de alguma forma já existe no vocabulário popular passará a constar como certa, numa espécie de anistia ortográfica. Dessa maneira, órgãos oficiais poderão resolver seus "pobrema" e "excessões" ao redigirem seus requerimentos, sem que isso comprometa suas "pretenções" gramaticais.
Mas o ponto mais controverso é o relacionado ao uso do "mim". Nesse sentido, Chiavenatto é enfático: "A partir de agora, 'mim' vai poder fazer tudo. Acabou essa ditadura do povo teoricamente letrado ficar corrigindo os outros nesse sentido. Convenhamos, 'mim' é algo que há anos vem sendo incorporado como sujeito nas milhões de frases que são ditas todos os dias por esse povo sofrido, batalhador e que merece respeito. Confesso que pra mim aceitar o uso do 'mim' foi difícil no começo. Mas, depois, a gente se acostuma. Sim, mim pode fazer o que bem quiser da vida, de cabeça erguida."
O documento com todas as mudanças já está disponível no site da ABOB. Nesse, o leitor perceberá um detalhamento que não poupou nem o popularíssimo e polêmico "cu", que, segundo as novas regras, passará a ser finalmente escrito com o acento agudo - "cú". A população terá o prazo de um ano para se adaptar ao novo formato da língua portuguesa, que entrará oficialmente em vigor no dia 29 de fevereiro de 2010. Até lá, espera-se que "todos percam a vergonha e passem a abraçar essa língua maravilhosa, flexível e dinâmica que é o português genuinamente brasileiro, sem frescurites elitistas que só oprimem o cidadão comum.", concluiu o presidente da ABOB, visivelmente emocionado.
Fonte: Folha da Manhã Ensolarada
FARFALHÕES AFIBULADOS
Ele avisou que, naquele papel, estava todo o sentimento que sentia por ela. "É um poema. Escrito à mão mesmo, à moda antiga, pra que a verdade de meu coração seja mais evidente.", avisou, delicadamente. Com uma mal disfarçada discrição, tentando sufocar a ansiedade de enfim ler o primeiro poema que alguém dedicara a ela, respirou fundo antes de pousar seus olhos sobre aquelas palavras. Mas, um momento. Que garranchos eram aqueles? Indecifráveis. Ah, sim. Lembrou de imediato que o seu novo namorado era um médico. Assim, aquilo, que deveria ser um soneto, poderia perfeitamente passar por uma receita médica, não fosse a ausência do carimbo com a assinatura.
"Lindo, lindo! Amei!", disse ela, cobrindo-o de beijos, mesmo não reconhecendo letra alguma daquilo que tentara ler. No fim das contas, vale a intenção, concluiu. "Sério? Gostou? Puxa…", ele reagiu animado, com o sorriso de quem havia concluído com sucesso uma cirurgia delicadíssima. Minutos depois, antes de seguir para mais um plantão, ele prometeu que aquele seria apenas o primeiro de uma série de poemas. E escritos à mão, é claro. "Aiai…", ela engoliu aquela promessa, como se fosse uma ameaça, apesar de deixá-la naturalmente envaidecida.
Parecia que o sucesso daquele primeiro poema havia acordado o lado lírico dele. Agora, todos os dias, escrevia algo pra sua musa, que dava um imenso sorriso toda vez que lia aquelas palavras, mesmo não entendendo coisa alguma daquilo. Garranchos e mais garranchos. Vez ou outra, com muito esforço, conseguia enxergar um "amor" ali. Um "musa" acolá. Ou não? Será? Quem não a conhecesse, ao ver aquela pasta onde guardava os poemas dele, iria imaginar que ela seria uma pessoa muito doente, cheia de receitas médicas.
Semanas depois, cansada de presentear sorrisos e beijos apenas por causa da intenção alheia, ela resolveu acabar com o mistério: o que afinal traziam aqueles garranchos? Seriam eles dignos de um Drummond? Um Neruda? Vinícius de Moraes? Foi ao lugar mais adequado para decifrar tudo aquilo: o balcão da farmácia. Um senhor simpático e paciente a atendeu, concordando em ler alguns dos trechos ali. Com o coração palpitante, como se um baú de tesouros estivesse sendo enfim aberto, ela ouviu com máxima atenção os primeiros versos:
"Farfalhões afibulados me infestam do fastio afã / No fundo, afago o fogo que me fere o falho filho." "Quem me dera musas que de ti resplandecessem ourives / Catadupas em cornucópios circunspectos de aspectos na alcatéia amorfa." "A barca de teu ventre singra o aço de miríades inférteis / Decerto, deuses cospem lírios nefastos no giz de suas retinas."
Hein?
Mais tarde, ao receber o poema daquela noite, ela sorriu, como sempre. Afinal, ele era um bom médico.
Resumo 2007 - Que tal (ler)?
- “Os surdos, os escritores e a internet”, texto do Alex Castro, do blog Liberal, Libertário, Libertino?
- “Os leitores são uns idiotas“, no blog do Paulo Polzonoff?
- “Sobre os Perigos da Leitura“, texto do escritor e educador Rubem Alves?
- (ou reler) o hilário post “Como me fudi no show dos Los Hermanos“, no blog do Adolar Gangorra?
- “Santos Brasileiros“, texto do Mr. Manson, autor do Cocadaboa?
- “Small Talk“, texto do Pedro Ivo, autor do blog “Loser“?
- “Por Que Detesto Estatísticas“, texto de Kandy Saraiva, autora do blog “Idéias na Janela“?
- “Porque o Linux Não Deslancha“, texto de Adamastor da Silva, no blog “Jornalista de Merda“?
- “Antes ela do que eu“, texto do sempre inspirado Nelson Moraes, autor do blog “Ao Mirante, Nelson“?
- “Quando a brincadeira fica séria demais“, texto de Rafael Galvão? Vale a pena conferir a discussão nos comentários também…
- “10 motivos para ler livros clássicos“, post do Alessandro Martins?
- “Download de MP3 Vs Compra de CD“, post do Ian Black, autor do blog “Enloucrescendo“?
- “Da dor e outras dificuldades“, post da Lulu, autora do blog “Diário da Lulu“? (dica encontrada lá no Hedonismos, blog do Doni)
- “A inveja é uma coisa feia“, texto da Alessandra Souza, do “Isto Não É um Blog“?
- “Padaria Brasil“, texto escrito pelo Branco Leone?
- “Uma cart…ahn, um bilhete…um post-it de reclamação“, post da Menina Eva, autora do blog “Coisas de Manauara“?
- um desconcertante post sobre livros de auto-ajuda, escrito pelo Alexandre Inagaki, autor do Pensar Enlouquece, Pense Nisso?
- o blog “Tô Cansadinho“, que tira uma bela onda do movimento “Cansei“?
- “Tô de Saco Cheio de Leitor Babaca“, texto de autoria de Henrique Szklo, um dos autores do Blônicas?
- “Reforma Estúpida“, texto onde Hélio Schwartsman, na seção Pensata, da Folha Online, critica a nova reforma ortográfica?
- “As Fotos Vazaram, e Agora?”, partes 1 e 2, posts do Doda, autor do blog Bloda?
- “Fui reprovado na dinâmica“, texto em que o Marmota aborda o universo pavoroso de algumas dinâmicas de grupo?
- “Os problemas econômicos do golpe do baú“, post do blog “O Primo“?
- “Vou te quebrar essa cara aí“, post escrito pelo Raphael, autor do blog “Odeio e Justifico“?

