Categoria: Turismo

UMA OPORTUNIDADE ÚNICA PARA ALGUÉM ESPECIAL

“Você foi selecionado para conhecer um novo produto”, me disseram ao telefone, numa tarde qualquer, coisa de uns cinco anos atrás. Perguntei do que se tratava, como tinham conseguido meu telefone, essas coisas. Secamente, o homem disse que não poderia revelar mais detalhes, por questões estratégicas. Pessoas do meu perfil, segundo ele, seriam fundamentais para a avaliação desse produto especial, que ocorreria no próximo sábado. Para isso, ele me passou o endereço e o horário do evento, ressaltando que, no fim, eu ganharia um brinde. Opa, brinde? Confirmei minha presença no ato. Afinal, eu não teria nada pra fazer no próximo sábado de tarde mesmo. Lucro certo.

Me senti especial, imaginando que tipo de produto seria aquele, onde um seleto grupo atuaria como formador de opinião. Seria um novo carro, onde afortunados feito eu ficariam a tarde inteira fazendo test drives? No fim, pediriam a minha opinião. “Olha, sobre essa nova Ferrari… ela tem um desempenho aerodinâmico que está entre o bom e o ótimo. Bem, achei acima da média, mas poderia ser melhor.” Não, eu não sou muito fã de carros. Não seria pra isso, considerei. Gosto de chocolates, por exemplo. Então, quem sabe, eu avaliaria uma nova marca, especialmente designada pra pessoas de paladar refinado, já pensou? No fim, após a minha valiosa opinião, eu voltaria com sacolas personalizadas, cheias de chocolates. Quem sabe.

Especulei até coisas medonhas. Como a suspeita de que tudo isso não passaria de golpe de uma dessas quadrilhas internacionais de tráfico de órgãos. Cogitei a possibilidade de descobrir que a famosa estória de acordar numa banheira cheia de gelo, sem um dos rins, seria verdadeira mesmo.

Enfim, como minha curiosidade foi mais forte do que tudo, fui até o local, no dia e horário combinado. Era um sobrado, localizado em uma dessas regiões chiques de São Paulo, decorado com muito bom gosto em seu interior. Ao ver por lá outros afortunados como eu, fiquei bem mais tranqüilo. Após me identificar, fui gentilmente conduzido para um imenso jardim nos fundos, onde tinham várias mesas, quase todas ocupadas. Lá, fui recebido por uma loira simpática, que não parava de sorrir pra mim, preocupada em garantir que eu me sentisse VIP. “Aceita um refrigerante? Salgadinho? Whisky?”. Ao perceber que o guaraná era de lata, aceitei um. Bebida direto da garrafa, ainda não. Afinal, eu ainda não tinha descartado de vez a possibilidade de me doparem pra arrancarem um dos meus rins.

Seguiu-se quase uma hora de conversa amena, com a loira interessadíssima na minha vida. Ela não era bonita, tinha até um nariz meio torto que me desviou a atenção em vários momentos. Mas era de uma simpatia que me deixava à vontade, admito. Perguntava sempre sorrindo o que eu gostava de fazer, o que era a vida pra mim, essas coisas. Arregalava os olhos a cada coisa interessante que eu dizia ter feito. No fim, depois de tudo que eu falei, ela concluiu que eu era um cara que gostava de curtir a vida. Concordei. E, dentre tudo isso, viajar pra mim era fundamental, não é? Concordei, novamente. Cada vez mais, ela ia direcionando a conversa apenas para o tema “viagem”. Viagem, viagem e viagem. Matei a charada: estavam tentando me vender um desses títulos de viagem.

E era isso mesmo.

Bem, daí, resolvi entrar no jogo, fazendo o papel do cliente ideal, querendo ver até onde tentariam insistir. Era uma tarde de sábado de inverno, gelada, e aquilo seria bem mais interessante do que ficar em casa, à toa, pensei. Ali, pelo menos, eu encheria a pança de salgadinhos, guaraná e whisky - sim como não queriam meus rins, mas apenas alguns reais, resolvi relaxar, tomando uns drinquezinhos. Assim, bebericando com gosto, revelei todos os lugares do Brasil e do mundo que eu gostaria de conhecer, enquanto ela ia me ouvindo maravilhada, certa de que havia conquistado um cliente. Fui dando corda.

Num dado momento, ela me convidou pra assistir a projeção de um vídeo, no telão instalado em uma das salas. Aceitei a proposta. Nesse vídeo, passavam imagens e imagens de casais apaixonados e famílias na felicidade suprema de uma viagem, em locais de paisagens paradisíacas. E tome cenas clichês de confraternizações à beira-mar, beijos ao pôr-do-sol, no êxtase da classe média branquinha e de sorriso colgate. No meio da projeção, a loira, empolgada, comentou comigo: “Quanta coisa bonita, né? Vendo tudo isso, dá uma vontade danada de viajar, né? Aposto que você tá louquinho pra fazer as malas!”. Eu, já com um leve efeito do whisky na cabeça, me limitei a responder, como se eu fosse um desses personagens de comerciais da Polishop: “Nossa, é verdade…”

Ao voltarmos para o jardim, começou o ataque. Durante quase uma hora, ela tentou me convencer a comprar um título de viagem. Não adiantou eu dizer que estava guardando dinheiro pra um novo carro, onde cada centavo economizado era fundamental. Ela não se conformava que eu, um cara que adorava viajar e curtir a vida, tinha a ousadia de dispensar uma oportunidade daquelas. E tome cálculo disso, daquilo, mais descontos. Nada, eu continuava irredutível. “Olha, quem sabe no fim do ano, hein? Agora, infelizmente, não dá.” Imagina, aquela promoção maravilhosa só duraria naquele dia. Outra oportunidade como aquela, nunca mais. Nunca mais! Era pegar ou largar!

Entregando os pontos, ela me passou pra um rapaz que mais parecia um robô, de tão artificial que era a simpatia do mesmo. Pelo que percebi, ele era desses que tentavam, a todo custo, convencer os “clientes” mais difíceis, de forma agressiva. “Tá bom esse plano aqui pra você? Tá, né? Vamos fechar então!” E tome mais contas. Mais descontos. Mais vantagens. Mais ameaças de ultra-super-promoções desse tipo que jamais voltariam a oferecer pra mim. Só faltou o cara colocar um revólver na minha cabeça. E eu, nada, só bebericando o meu whisquinho. “O meu carro novo, entende?” Percebi que muitas pessoas nas mesas ao redor assinavam cheques. “Minha nossa”, pensei, “o vídeo funcionou com esses aí…”. Ao notar que a coisa não andaria comigo mesmo, o rapaz, resignado, foi buscar o meu brinde: uma estadia de três dias num hotel três estrelas de Recife - só isso, nada de passagem -, com prazo de validade de seis meses, que só eu teria direito a desfrutar. Fui embora já meio cambaleante do whisky, estufado de salgadinhos, com o cupom-brinde nas mãos. Me despedi da loira que me atendeu, ainda meio intrigado com aquele desvio no nariz dela. Ao contrário da simpatia do início, ela me respondeu com um “tchau” bem mal humorado.

Voltei sorrindo pra casa, certo que vivi uma tarde divertida, boca-livre das boas. Pena que eu não passei perto de Recife nos seis meses seguintes. Tudo bem.


Post publicado em 18/09/2007 no blog do Marmota. Fez parte da série "Colônia de Férias", na qual tive a honra (bonito, hein?) de ser um dos autores convidados.


Permalink15.09.09, 08:00:16, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Humor, Turismo, Comunicação 9 comentários

STONES EM COPACABANA

Num grupo com dez pessoas, é previsível que tenha sempre um doido. Não foi diferente no caso da turma que estava comigo, no show dos Stones. O Doido, horas antes do show, olhou pra suas garrafas de tequila e vodka e resolveu tentar vender algumas doses, fazendo propaganda enquanto caminhava pela multidão da praia de Copacabana. Usando óculos estilo “Hermes e Renato”, com uma seletividade perto do zero, abordava qualquer mulher aparentemente desacompanhada e, num portunhol propositadamente tosco, ia oferecendo seus serviços, avisando que um selinho na boca vinha como bônus:

- Tequila dez rrreás, vodka 5 rrreás, e selito de gratcia!!!

Na meia hora que eu o acompanhei, até a porta do Copacabana Palace, não vi dose alguma sendo vendida. Agora, selinhos, conseguiu uns cinco.

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Como fã de verdade dos Stones, em alguns momentos me senti um pouco sozinho no meio da multidão, sem alguém ao lado pra cantar as músicas junto com a banda, ou então demonstrando empolgação por estar ouvindo “aquela” música, tocada pelos velhotes que a criaram. Mas, quando começaram os acordes de “Satisfaction”, que desencadeou um clima de gol de desempate em final de Copa do Mundo, aos 45 minutos do segundo tempo, percebi que 95% do povo ali era fã de uma música só. Outros nem isso. Eram fãs de muvuca mesmo.

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Quase todo mundo veio descalço ou com suas havaianas. Não seria lá muito confortável andar de outra maneira naquela areia. No entanto, algumas pessoas pensavam diferente, como as várias moças que vi caminhando com bota de cano longo, inclusive à beira-mar, ou até mesmo pulando as ondas. Bizarro.

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O Doido até que vinha incorporando bem o estilo rock’n roll, com bastante irreverência, com alguns rindo ao seu redor, outros já de saco cheio das gracinhas vitaminadas pela birita. Perto do fim do show, ele resolveu brigar pelo território na areia com um coroa forte, desses com físico de lutador de luta livre, acompanhado pelo sobrinho não menos forte:

- Seguinte, a gente tava aqui primeiro, e vocês dois estão atrapalhando a gente pra dançar, ok?

O sobrinho, ao perceber a insistência do Doido, implorava ao tio pra irem embora dali, confusão à vista. Nem queria mais ver o show. Não achei justo e prometi à eles que eu faria o Doido parar, dando uma bronca nele. Pra minha surpresa, resolveu. Minutos depois, já mais calmo, o rapaz pediu pro Doido me agradecer, pois, uma vez que o tio resolvia levantar a mão, era caminho sem volta. E o tio lá, sereno como um Bruce Lee na folga das lutas...

Reunião com mais de um milhão de pessoas, sem uma única morte ou gente em coma? Talvez eu tenha ajudado nisso também.

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Numa multidão com mais de um milhão de pessoas, num show de graça, seria previsível que houvesse o pessoal do mal. Mais de uma vez, presenciei alguns bestas-feras agarrando mulheres desacompanhadas, tentando enfiar a língua na boca delas, que respondiam sempre com uma expressão de nojo e constrangimento, enquanto tentavam escapar daquele quase estupro. As duas moças que faziam parte do nosso grupo não tinham namorado, tampouco "ficante". Pelo menos ali. De alguma forma, sem acordo prévio, fiquei como uma espécie de protetor de uma delas. Quando havia ameaça de briga, de imediato eu me transformava num paredão pra ela, trazendo-a na minha frente. No término do show, espremidos na multidão que tentava sair da praia, oportunidade pra turma do mal agir, ficávamos abraçados, dedos entrelaçados, feito namorados. Assim, mesmo sendo bonitinha, ninguém mexeu com ela. Impressionante.

Coisas do código de ética da máfia masculina, que respeita mulheres comprometidas. Quando acompanhadas, é claro.

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E como não poderia deixar de ser, mesmo sendo um show dos Rolling Stones, teve o pessoal que, nos intervalos das músicas, gritava o suuuper original “Toca Raul!!!”. Até que não seria má idéia, se pensarmos bem. O “Rock das Aranhas” ficaria interessante na voz de Mick Jagger.

Então, toca Raul!!!

(Texto escrito em 19/02/06)


Permalink12.10.06, 15:15:32, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Música, Turismo, Cultura Pop Deixe seu comentário


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