Categoria: Contos
MICHAEL JACKSON, APENAS MAIS UM BRASILEIRO

Era uma noite de quinta-feira bem atípica: Michael Jackson tinha acabado de falecer. Apesar de não ter ficado surpreso com a notícia, por achar que o cantor já estava numa espécie de sobrevida pela aparência cada vez mais fragilizada, eu me comportei como boa parte da população mundial, ao não tirar os olhos da televisão e do computador. Cada fato que surgia funcionava como uma pitada de fermento que só ia aumentando a minha curiosidade sobre o episódio.
Quase perto das nove da noite, recebi um e-mail que me deixou intrigado. Era de um homem que se apresentava como Marcos, dizendo que gostaria de falar comigo a respeito das manchetes do momento. Explicava que pretendia desabafar, uma vez que era um leitor antigo do meu blog, apesar de nunca ter comentado nele. Para demonstrar que falava sério, deu o número de telefone de sua casa. "Pode ligar a cobrar", destacou na mensagem, sinalizando mais ainda a necessidade de falar comigo. Apesar de desconfiado, resolvi entrar em contato, enquanto a televisão continuava sintonizada no canal de notícias.
Ele atendeu já no primeiro toque. Depois de me agradecer pelo retorno, parecendo bem ansioso, o cara pediu para que eu fosse até o apartamento dele, no bairro de Pinheiros. De imediato, recusei o convite. Como que um estranho vem me fazer um convite desse nível, naquele horário? Ele me assegurou que não iria tentar nada contra mim. Queria apenas fazer revelações que tinham a ver com o Michael Jackson. Para tanto, preferiu a mim ao invés de falar com alguém da imprensa, pelo tempo que lia o meu blog. "Pode acreditar, você é como um amigo para mim, é sério." Movido pela curiosidade, eu disse que iria encontrá-lo, mas com uma condição: que alguém de minha confiança fosse junto comigo. Apesar de contrariado, ele concordou. Chamei o Oliveira, vizinho e amigo meu que era investigador da polícia civil. De folga e devendo alguns favores pra mim, ele topou me acompanhar, resmungando um pouco por causa das últimas novidades que ele iria perder sobre o Michael Jackson. Paciência.
Com o endereço em mãos, fomos andando para o local do encontro, que ficava a algumas quadras do nosso prédio. O próprio Marcos nos recepcionou no apartamento dele, que ficava em um desses típicos prédios para famílias da classe média. Ele era um mulato meio gordo e simpático, dessas pessoas que vivem rindo. Para quebrar o gelo, o homem começou o papo comentando sobre alguns posts meus. "Rapaz, aquele que você fez sobre o Zé Pamonha... Que doideira, hein? Gostei bastante! E o das dicas pra mulherada arranjar namorado? Curti também!" Após minutos de conversas sobre posts e outras amenidades, ele me perguntou se era possível conversar a sós comigo, no quarto que servia como escritório. Olhei para o Oliveira, que imediatamente fez um sinal de positivo, enquanto afastava de leve a jaqueta, deixando a arma na cintura em evidência, indicando que, sim, tudo bem. Ele ficaria ali na sala, assistindo o canal de notícias. Qualquer coisa, já sabe.
Aquele homem tinha um leve sotaque, cuja origem não consegui reconhecer, de tão sutil que era. Por certamente perceber a minha curiosidade sobre isso, ele iniciou o nosso papo particular dizendo que era americano. "Mas e o nome?", perguntei. "Marcos? Bem, aqui no Brasil, resolvi me tornar Marcos Gerson. Entendeu aonde quero chegar?" Não, não tinha entendido. Ele continuou. "Foi o nome que julguei ter mais a ver com o que eu tinha lá nos Estados Unidos. Entendeu agora?" Eu ainda continuava a não entender. Ele suspirou fundo e disse, com um ar solene: "Marcos Gerson, Michael Jackson... Prazer, Michael Jackson." Como assim? "Não vejo nada de mais em alguém ter o mesmo o nome do astro que acabou de morrer", comentei. Rindo alto, ele finalmente foi direto ao que interessava: "Meu amigo, eu sou o Michael Jackson. Aquele mesmo, que começou a carreira no Jackson Five. That's me, man!" Não era possível, e aquele cara que agora devia estar num necrotério de Los Angeles? Com um gesto que pedia um pouco de paciência minha, ele começou a explicar toda a história.
"Era agosto de 1983, quando o Thriller ainda liderava as paradas de quase todo o mundo. Numa bela tarde, enquanto uma multidão de fãs surtadas chacoalhava a minha limusine, eu comecei a achar tudo aquilo um enorme pé no saco. Essas paradas estavam me sufocando, do you know what I mean, man? Naquele momento, me dei conta que eu já vinha pirando há algum tempo já. Acredita que, naquele ano, eu fiz cirurgia plástica no nariz só pra que ele ficasse idêntico ao da Diana Ross? Fininho, sabe? Nessa época, eu já vinha considerando a possibilidade de jogar óleo quente nos meus olhos, só pra ficar cego que nem o Stevie Wonder. Cheguei muito perto de fazer isso, acredita? Além dessas doideiras, tinha o bando de sanguessugas que ficava puxando o meu saco o tempo todo. Você não faz idéia como eu odiava tudo isso, man! Eu não estava nada bem. Tinha chegado no meu limite. Foi aí que resolvi cair fora dessa palhaçada de show business, pra sempre. Chega! Game over!"
Mas... e quanto ao Michael que morreu hoje?
"Eu gostava muito de Beatles e me lembrei daquela lenda de que o Paul McCartney tinha morrido em 1966. Que, no lugar dele, colocaram um impostor perfeito, que era praticamente uma espécie de irmão-gêmeo do cara, tanto no físico quanto no talento. Taí, vou fazer isso também, pensei. Como eu estava vivo, resolvi que fugiria para um lugar isolado, deixando um sósia no meu lugar. Alguém que realmente acreditasse que fosse o Michael Jackson. Meses depois, já no começo de 1984, conseguiram encontrar esse sósia, um rapaz idêntico a mim e que estava num hospício do Mississipi, dizendo para todos que ele era eu. E o figura cantava e dançava feito eu, impressionante. Figuraça! O melhor cover que poderia existir. Perfeito, pensei. O cara tem todas as habilidades e já pensa que sou eu, então vai esse mesmo. Daí, caí fora de vez, não sem antes fazer uma plástica que deixou o meu nariz do jeito que era, mais achatado. Peguei uma grana, coloquei pra render num banco da Suíça e deixei o figura lá me representando para sempre. Fui viver numa ilha do Pacífico, junto com uns nativos bem primitivos que não tinham a menor idéia de quem eu era. Maravilha. Cinco anos depois, ao ver umas fotos atuais do outro Michael Jackson, numa revista que apareceu na praia, percebi que eu já poderia voltar para a civilização. O rosto e o corpo daquele cara já não tinha mais nada a ver com o meu. Daí, decidi vir morar aqui, em São Paulo. Vida nova, man! Marcos Gerson! Pra provar que eu sou o Michael original, dê uma olhada nas coisas que estão nesta caixa..."
Ele ficou durante quase uma hora me mostrando vários documentos, como passagens de avião, fotos da família Jackson, agendas, filmagens particulares dele na privacidade de sua mansão, essas coisas. Comecei a olhar para ele com mais atenção. De fato, apesar de meio gordinho, aquele homem tinha feições que lembravam bastante as daquele rapaz do início da década de 80, responsável por uma série de sucessos que marcariam gerações. Era ele mesmo, concluí. Michael Jackson não estava morto. Levava uma vida de cidadão classe média em São Paulo, no bairro de Pinheiros, sobrevivendo com a grana que pegara anos antes. Divorciado duas vezes, ele saía atualmente com uma morena que, segundo ele, "tem uma bunda que faria o Obama renunciar à presidência". Não teve filhos por não suportar crianças, razão pela qual se submeteu a uma vasectomia, pouco antes de abandonar os EUA. E quanto à série de esquisitices e escândalos que o Michael morto havia protagonizado? O que o Michael vivo achava disso tudo?
"Rapaz, aquele ali forçou a barra. Pirou mais do que eu poderia imaginar. Aquelas mudanças no rosto, man, achei assustadoras. Tudo bem que me ajudaram a ficar mais anônimo ainda por aqui. Mas, putz... O figura exagerou na dose, foi demais. Quanto ao comportamento dele com a criançada, sei lá se ele fez tudo aquilo mesmo. Quer saber a minha opinião? Eu acho que não. O doidinho era gente boa, todo inocentão, sabe? Delicado e confuso, tadinho. Fiquei triste pelo que aconteceu com ele. Esse fim, man... Muito triste. Por isso que eu precisava desabafar com alguém, entendeu? No fim das contas, se não fosse por mim, o branquelinho não teria vivido nada disso. O rapaz sofreu muito. Muito mesmo. Tô péssimo com tudo isso, man!"
O Michael Jackson começou a chorar na minha frente, atormentado por uma culpa que o vinha atingindo há tempos, toda vez que tinha conhecimento de mais uma notícia sobre a decadência do Michael que ficara nos EUA. Portanto, era mais do que compreensível aquele choro, considerei. O consolei dizendo que a vida é assim mesmo, impossível de se prever o que virá pela frente e que, naquele momento, o mais certo seria agir como o cara que negava a paternidade do filho da Billie Jean. Aquele problema não era dele e ponto final. Aos poucos, ele foi se recompondo, tanto que, em questão de minutos, o assunto era novamente um de meus posts. "Você quase me pegou com aquela história da Geléia de Banana Santa Gertrudes. Tomei um susto, rapaz! Você, fazendo esse tipo de coisa? hahahaha"
Ao nos despedirmos, combinamos de marcar alguns chopps para os dias seguintes. Percebendo que o Michael ainda continuava um pouco chateado com os acontecimentos daquela noite, coloquei as mãos nos ombros dele, olhei nos olhos, e disse, emocionado: "Marcão, bola pra frente, cara! Você criou o passo Moonwalk! Você é o cara, Marcão! Não se esqueça disso. Você é o CARA!"
No elevador, o Oliveira perguntou o que tinha sido aquilo. "Bobagem, cara... Bobagem, liga não. Deixa pra lá", respondi, encerrando o assunto ali mesmo. E fomos embora, vez ou outra arriscando uns passos moonwalk na calçada, enquanto continuávamos assoviando o refrão de Billie Jean. Grande Marcão!
FILHO DA PUTA!

Ressacas sempre o afetaram de forma leve. No máximo, uma dorzinha de cabeça, dessas que passam antes do meio-dia. Fosse uma pessoa normal, ele estaria imprestável naquela manhã, horas depois de ter tomado todas no happy hour da firma. Mas não, acordara incomodado apenas com a total falta de lembrança sobre a noite anterior. A última imagem que a memória gravou foi a dança com os mendigos no meio da calçada. E o povo da firma ali, gargalhando daquele balé bizarro. Depois disso, nada. Nem flashes. Nada. Bem, pelo menos despertara em casa, sozinho, sinal de que não devia ter feito nada de tão comprometedor assim. Menos mal. E assim ele foi para o trabalho, já preparado para ouvir os comentários engraçadinhos de seus colegas. Coisas do dia seguinte. Normal.
Ao chegar na empresa, estranhou quando a recepcionista ignorou a saudação dele. Justo ela, que todos os dias abria um sorriso enorme ao vê-lo. Bem, pode ser que ela tenha algum problema em casa, concluiu. Mais tarde, ele iria perguntar se estava tudo bem, se precisava de algo etc. Mas, que coisa, de todos que ele encontrou no caminho até a mesa dele, a mesma frieza. Nem o Alcebíades, que sempre tinha uma piadinha para quebrar o gelo das manhãs, fez questão de olhar na cara dele. Um bocado incomodado com aquele clima, resolveu chamar o melhor amigo para um cafezinho na copa:
- Pô, Silveirinha! O que aconteceu com o povo aqui? Tá todo mundo me desprezando. Até você! O que foi?
- Sabe o que mais me deixa impressionado, Alceu? A sua cara de pau em me perguntar isso.
- Isso o quê???
- Pôrra, Alceu! Depois do que você fez ontem, lá no happy hour da firma, nem era pra você voltar a pisar aqui. É muito cinismo da sua parte!
- Mas o que eu fiz? Eu bebi tanto que apaguei. Não lembro de nada.
- Ah, grande homem você é! Agora, ficou sem memória. Maravilha, hein? Apronta um negócio gravíssimo e vem com essa desculpa. Francamente, Alceu!
- O que eu fiz??? Foi algo com você?
- Alceu, você sabe que não. Você sabe exatamente o quê e com quem você aprontou... Agora, me dê licença que eu preciso trabalhar.
- Mas...
- E me faça um favor, nunca mais venha falar comigo, seu escroto! Te cubro de porrada se você chegar perto de mim, ok? Eu tô falando sério!
Transtornado, ele mal conseguiu tomar o resto do cafezinho, intrigado sobre o quê ele teria feito na noite anterior. Maldita bebedeira! O fizera vilão de algo que não conseguia se recordar. Um branco total. Foi para a mesa de trabalho constrangido, sentindo os olhares de reprovação de todos ali. Definitivamente, era persona non grata. Depois do comportamento do Silveirinha, desistiu de perguntar para os outros sobre o quê acontecera. Paciência. Mal começou a trabalhar, percebeu que o Fininho, um estagiário magrelo da contabilidade, vinha na sua direção. O rapaz, sempre tímido e caladão, boa parte por sofrer uma gagueira grave, queria dizer algo pra ele. Esforçando-se um bocado, conseguiu emitir aquelas palavras com uma clareza até então inexistente na vida dele:
- Seu.. FILHO DA PUTA!!!!!
Seguraram o braço do Fininho a tempo, evitando que ele desse um soco no Alceu, não sem boa parte do escritório protestar: "Deixa o menino bater nesse escroto. Ele merece!" E não adiantou perguntar novamente a razão de tudo aquilo, pois a resposta, em uníssono, continuava a mesma, quase um mantra maldito: "Você sabe!!!" E não, não fora nada com o Fininho. O rapaz apenas resolvera tomar as dores da situação, como se fosse um porta-voz de todos ali.
Minutos depois, o responsável pelo RH chamou o Alceu para uma conversa urgente na sala dele. Nem o convidou para se sentar:
- Bem, Alceu, como você percebeu, a sua presença aqui se tornou insustentável... Depois de ontem...
- Mas o que eu fiz???
- Você sabe. Você sabe!!!
- Não, não sei. Eu tomei um porre que fez esquecer de tudo.
- Ah, sei... Quer dizer então que o senhor se esqueceu da... da...
- Da...?
- Olha, eu não vou repetir. É lamentável demais. Será uma noite que vai deixar traumas em todo mundo aqui, sabia? Contratamos até um psicólogo para que nos ajude a superar o que você fez.
- Eu não lembro... juro...
- Bem, você está sendo demitido por justa causa. Mais do que justa!!! E você sabe o porquê. Não me venha com essa desculpa de que não se lembra de nada. Agora, suma daqui, senão eu mesmo vou acabar com a sua raça. SAI!!!
Da rua, ele ainda teve que ouvir o Fininho berrar da janela, sem traço algum de gagueira:
- FILHO DA PUTAAAAAA!!!
Meses se passaram e ninguém mais queria contratá-lo. Se tornou um maldito. Na área dele, ficou famoso como o "cara que fez aquilo". Imperdoável. E é óbvio que o infeliz sabia o que fizera, razão pela qual ninguém queria revelar a história pra ele, até porque fora algo muito pesado, que causava uma indignação revoltante só de relatar.
Desempregado, desacreditado e com a reputação sepultada em qualquer profissão que ele quisesse se dedicar, não restou outra alternativa senão a de tentar a sorte em um outro país. Dias depois de conseguir atravessar ilegalmente a fronteira mexicana, ele conseguiu o primeiro emprego no espaço de quase dois anos, como lavador de pratos em um restaurante de uma cidadezinha americana. No final do ano, o dono do local resolveu fazer uma festa de confraternização com os funcionários. Os mais exaltados insistiam para que o Alceu tomasse pelo menos um pouco de cerveja, que ele recusava quase chorando, justificando apenas que aquilo daria problemas para todos ali.
Mas, depois de concluir que a vida era curta, ele resolveu tomar todas, como se não houvesse mais amanhã. E quase não houve mesmo, caso alguém o tivesse alcançado na manhã seguinte, enquanto ele fugia do povo daquela cidade, correndo em direção ao Canadá.
- SON OF A BITCH!!!
O ZÉ PAMONHA QUER UM PONTO FINAL

Eu estava tranquilo, tomando o meu cafezinho no lugar de sempre, imaginando o próximo texto que eu escreveria, quando um cara meio estranho me abordou:
- Olá, tudo bem? - ele tinha um rosto sem personalidade, em que todos os traços eram indefinidos. Difícil de descrever.
- Oi... - respondi desconfiado, um pouco incomodado com aquela invasão na minha tranquilidade.
- Então, desistiu de mim, é?
Era isso então. No mínimo, o figura devia ter me confundido com um alguém com quem ele tivera um envolvimento amoroso. Porque uma modelo ninfomaníaca nunca me confundira daquela maneira? Vida ingrata. Procurei esclarecer o mal entendido:
- Olha, meu chapa... Pra início de conversa, eu nunca vi você na minha vida. Depois, o meu negócio sempre foi mulher, ok? E se isso for uma pegadinha, se deu mal, porque eu sou o cara mais desconfiado do mundo e...
- Calma, não tô falando disso... - estranho, aquele cara começou a me parecer familiar, o que me incomodou um bocado, pelas circunstâncias.
- E do quê você está falando então?
- Lembra que, semanas atrás, você começou a escrever um texto sobre um cara que se deu mal ao cantar uma mulher, só porque ela preferia continuar com o noivo dela, que era um anão albino?
- Ué, como você sabe disso? Eu não comentei com ninguém sobre essa história. Ou comentei?
- Sei lá se você comentou. A questão é: porque você não continuou desenvolvendo a história?
- O que você tem a ver com isso, afinal?
- Rapaz, eu sou o cara do texto, o que se deu mal.
- Hein???
- É isso mesmo. Eu saí da sua imaginação, mas não tive a sorte de ter um ponto final, como os seus outros personagens.
- Não pode ser... Então você é o... o... Zé Pamonha?
- Opa, lembrou o meu nome! Sinal de que a história não foi esquecida. Aliás, não tem como trocar esse nome? Não gostei. Que tal "Renatão Presença"?
- Ah, me desculpe, jamais que um cara como você se chamaria "Renatão Presença".
- Ué, porquê?
- Pela simples razão de que a mulher da sua vida preferiu um anão albino e fanho à você!
- Ele era fanho também? Não me lembro disso...
- Eu ia colocar mais isso também, caso eu retomasse a história.
- Sacanagem, hein?
- Fique tranquilo. Não rola mais esse risco.
- Ufa! Como eu fico no final então?
- Não terá final. Não vou retomar a história. É ruim demais, não ia chegar a lugar algum. Fiz um favor para os meus leitores. Bem, pelo menos para aqueles que sempre me perdoaram pelos piores textos.
- Então é isso? Ficarei vagando por aí, para sempre nessa condição de rascunho? Olha a minha cara, não tem nada definido. Nada!
- Foi mal, Zé. Mas eu não vou retomar esse texto. Aliás, foi bom você me lembrar dele. Vou apagá-lo de vez do meu computador.
- Espere aí, vamos negociar!
- Zé, existem coisas das quais eu preciso me libertar, entenda isso. Essa minha fixação por anões e mulheres impiedosas precisa desaparecer da minha obra. Não quero ser desses autores que passam o resto da vida revisitando obsessões. Muito chato isso.
- Me reaproveite em algum outro texto, por favor!
- Eu já estou reaproveitando, rapaz! Não percebeu ainda?
- Sério?
- Sim, estamos em um texto. Em um diálogo. Tá vendo esses travessões, no início de cada frase sua?
- Olha, é mesmo... As reticências também... Ei, olha só, três pontos de exclamação!!!
- Tá bom assim pra você?
- Tá ótimo! Vocês, autores, pregam cada peça na gente, hein? Incrível como vocês manipulam o enredo e...
- Zé, melhor pararmos por aqui. O texto está ficando longo demais. Lembre-se, você é personagem de um post. Não de um romance.
- Entendi... Agora, resta o...
- Isso, ele mesmo. O ponto final.
O URUBU BÊBADO E AS CHUVAS DE PNEUS CARECAS
O Bruno tinha uma mania de falar tudo na base de indiretas. As conversas com ele exigiam um exercício de adivinhação:
- É... se eu fosse feito de açúcar, seria bem arriscado sair mais tarde hoje.
- Como assim, Bruno?
- Ah, esse céu... As sementes que estão na terra devem estar gostando do que vem por aí. Bom pra elas.
- O céu. Sei. Você tá falando das nuvens carregadas?
- Isso, os vendedores de guarda-chuva terão uma tarde boa.
- Olha, não seria mais fácil você dizer algo como "é, parece que vai chover, não?".
Por incrível que pareça, tinha gente que gostava dele. O Júlio era uma dessas pessoas, talvez pelo fato de sempre ter sido fã de jogos com enigmas. Segundo ele, os diálogos com o amigo estimulavam os neurônios, pois cada resposta forçava o desenvolvimento de uma interpretação. Perfeito.
- Júlio, que tal a gente brincar de ser reprovado no teste do bafômetro?
- Opa, cervejinha? Demorou!
- Isso, naquele canto que rima com pororoca.
- Fechado, no Boteco do Joca!
E os dois iam se entendendo, até o dia em que o Bruno fez um comentário que incomodou o amigo:
- Rapaz, não é por nada não, mas tenho reparado que tem urubu bêbado ciscando no seu quintal. - as sobrancelhas arqueadas tornavam mais grave ainda o anúncio.
- Sério???
- Sério. E, ó, se eu fosse você, trataria de fazer uma plástica nas minhas orelhas, pois pode chover pneu careca à qualquer momento, entende?
- Não brinca! Cara, obrigado por me avisar! Vou ficar de olho.
- Opa, disponha!
Ele passou dias preocupado com o aviso do amigo. Não pelo conteúdo da mensagem em si, mas pelo fato de não ter entendido coisa alguma dela. Daquela vez, ele não fazia a mínima idéia do que o amigo tentara dizer. De qualquer forma, tinha certeza que devia ser algo bem grave, conforme denunciara a expressão dele. Na hora do aviso, ficara tão assustado com aquele semblante que não teve coragem de pedir mais explicações. Travou. Bem, quanto a isso, melhor continuar ignorante, concluiu.
Todo encontro passou a ser uma tortura:
- Julião, tomou alguma atitude quanto aquilo? Tenho reparado que o urubu continua lá, lindão no seu quintal, cada vez mais de pileque...
- Pode deixar, que eu tô de olho. Esse urubu não perde por esperar...
- É melhor agir logo, que você já tá com uma cara de quem ficou naquele temporal de pneu careca. A orelha então... xiiii... vai precisar de uma plástica maior do que eu imaginava.
- Cara, eu já disse. Tudo sob controle, mesmo!
- Quem avisa amigo é, hein?
Com o tempo, passou a evitar o amigo, que não parava de alertá-lo para o perigo que o circundava. Não, era melhor viver enquanto podia, despreocupado com as surpresas do destino. Tinha uma família perfeita, com a esposa ideal e os filhos saudáveis e espertos. No emprego, tudo ia bem, demais até. Nem queria imaginar o quê de ruim poderia estar acontecendo paralelamente ao mundo perfeito dele. Urubus bêbados, chuvas de pneus carecas, a plástica na orelha? Nada seria capaz de atrapalhá-lo, seja lá qual fosse o significado de tudo isso.
No entanto, depois de alguns meses, tudo começou a desandar, sem explicação. A esposa o abandonou, os filhos não quiseram mais saber dele e o emprego se foi. Desamparado, foi chorar as mágoas no ombro do amigo das antigas, que não parava de falar:
- Olha aí, tá vendo? Eu avisei. Não fez nada! Agora fica aí com esse orelhão feio, com a testa toda marcada por pneus carecas, enquanto que o urubu tá em coma alcoólico lá no seu quintal. Em coma alcóolico, Julião! Como você deixou que as coisas chegassem nesse ponto, rapaz??? Eu te avisei, pôrra!!
E ele, teimoso, continuava não querendo entender coisa alguma. Tudo que ele sabia era que sentia um medo danado do tal urubu estirado lá no quintal dele, em coma alcóolico. Em coma alcóolico!!! Tem idéia da gravidade disso? Pois é...
Olá! Já que provavelmente você não vai fuçar nos arquivos deste blog, que tal pelo menos conferir os 3 posts abaixo?
- Tudo Pelo Futuro
- Eu, o Náufrago
- Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!
Resumo 2007 - Que tal (ler)?
- “Os surdos, os escritores e a internet”, texto do Alex Castro, do blog Liberal, Libertário, Libertino?
- “Os leitores são uns idiotas“, no blog do Paulo Polzonoff?
- “Sobre os Perigos da Leitura“, texto do escritor e educador Rubem Alves?
- (ou reler) o hilário post “Como me fudi no show dos Los Hermanos“, no blog do Adolar Gangorra?
- “Santos Brasileiros“, texto do Mr. Manson, autor do Cocadaboa?
- “Small Talk“, texto do Pedro Ivo, autor do blog “Loser“?
- “Por Que Detesto Estatísticas“, texto de Kandy Saraiva, autora do blog “Idéias na Janela“?
- “Porque o Linux Não Deslancha“, texto de Adamastor da Silva, no blog “Jornalista de Merda“?
- “Antes ela do que eu“, texto do sempre inspirado Nelson Moraes, autor do blog “Ao Mirante, Nelson“?
- “Quando a brincadeira fica séria demais“, texto de Rafael Galvão? Vale a pena conferir a discussão nos comentários também…
- “10 motivos para ler livros clássicos“, post do Alessandro Martins?
- “Download de MP3 Vs Compra de CD“, post do Ian Black, autor do blog “Enloucrescendo“?
- “Da dor e outras dificuldades“, post da Lulu, autora do blog “Diário da Lulu“? (dica encontrada lá no Hedonismos, blog do Doni)
- “A inveja é uma coisa feia“, texto da Alessandra Souza, do “Isto Não É um Blog“?
- “Padaria Brasil“, texto escrito pelo Branco Leone?
- “Uma cart…ahn, um bilhete…um post-it de reclamação“, post da Menina Eva, autora do blog “Coisas de Manauara“?
- um desconcertante post sobre livros de auto-ajuda, escrito pelo Alexandre Inagaki, autor do Pensar Enlouquece, Pense Nisso?
- o blog “Tô Cansadinho“, que tira uma bela onda do movimento “Cansei“?
- “Tô de Saco Cheio de Leitor Babaca“, texto de autoria de Henrique Szklo, um dos autores do Blônicas?
- “Reforma Estúpida“, texto onde Hélio Schwartsman, na seção Pensata, da Folha Online, critica a nova reforma ortográfica?
- “As Fotos Vazaram, e Agora?”, partes 1 e 2, posts do Doda, autor do blog Bloda?
- “Fui reprovado na dinâmica“, texto em que o Marmota aborda o universo pavoroso de algumas dinâmicas de grupo?
- “Os problemas econômicos do golpe do baú“, post do blog “O Primo“?
- “Vou te quebrar essa cara aí“, post escrito pelo Raphael, autor do blog “Odeio e Justifico“?

