Categoria: Comportamento
MAIS UMA ALUNA É HOSTILIZADA EM UNIVERSIDADE

Tudo indica que a sociedade ganhou mais uma mártir do preconceito universitário. Trata-se de Carla Regina Certens, estudante do terceiro ano de Direito da Unigrana, que na última sexta-feira foi hostilizada pelos seus colegas de forma mais agressiva ainda que a loira da Uniban. "Tudo aconteceu muito rápido", disse uma assustada Carla. "Foi só eu deixar cair alguns livros no caminho para a sala de aula para que várias pessoas começassem a berrar, apontando o dedo pra mim: 'OLHA AÍ, ESSA TOSCA VEIO AQUI PRA ESTUDAR! É CDF!!! PEGA A CDF!!!' Cinco minutos depois, toda a universidade estava correndo atrás de mim, me xingando sem parar."
A estudante conseguiu se refugiar na biblioteca da instituição, que teve as portas trancadas pelos seguranças. Do lado de fora, o coro dos universitários crescia cada vez mais, chegando a níveis ensurdecedores, tamanho o descontrole que tomou conta de todos ali:
- ARRÁ, URRU!!! Ô CDF, EU VOU COMER O SEU C...
- A ESTUDIOSA VAI MORRER... OLÊÊÊÊ, OLÊÊÊÊ, OLÁ!!!
"Sabe aquelas cenas de filmes de terror, em que uma multidão de zumbis cerca uma casa e tenta de todo modo invadir o local pra comer o cérebro de quem está lá? Foi mais ou menos isso que aconteceu.", relatou um estudante que não quis se identificar. Se não tivesse sido resgatada pela Tropa de Choque da PM, o destino mais provável de Carla teria sido a fogueira que alguns colegas mais exaltados acenderam ao lado da cantina.
Já em casa, ainda se recuperando do susto inicial, a estudante comentou sobre os motivos que a levaram a ser hostilizada de forma tão intensa. "Eu sempre gostei de estudar. Faço faculdade porque eu quero aprender. E isso incomoda o povo ali. Faz tempo que eu venho sentindo uma agressividade no ar em relação a mim. Basta eu tirar dúvidas com o professor, na sala de aula, para que eu receba olhares de ódio. Naquela noite, o pessoal surtou ao ver que eu tinha gastado meu dinheiro com livros ao invés de roupas ou baladas. Aí, deu no que deu...", lamentou Carla, desconcertada, ainda tremendo de medo.
Parece que ninguém se arrependeu da perseguição. "Bem feito!", disse Ana Carolina Baladenhis, estudante do quarto ano de Filosofia da Unigrana, umas das que integraram o coro de xingamentos. "Meu, que mina ridícula! RIDÍCULA! Fica aí se mostrando direto com aqueles livros, pra lá e pra cá. Ela não tem semancol, não? Tipo assim, aonde ela pensa que está???", desabafou Ana Carolina, enquanto tomava alguns goles de cerveja no boteco ao lado da universidade, momentos antes de ir para a XII Festa da Pegação Geral da Unigrana.
"Bem, convenhamos, ela provocou.", comentou Nelson Lucro, reitor da instituição. "Todos aqui sabem que existe um decoro a ser seguido. Muitas pessoas podem ficar ofendidas quando alguém começa a exibir certos comportamentos que não são condizentes com os padrões de excelência da no$$a universidade. Se a senhorita Carla quiser estudar, ler livros, essas coisas, que o faça entre quatro paredes, na casa dela, longe daqui.", afirmou Lucro. "Mesmo assim, lamentei pela reação violenta de nossos alunos. Eles precisam aprender que gente assim merece ser ignorada."
Procurado pela nossa reportagem, o macaco Zezé, colega de classe de Carla e um dos líderes do tumulto, mandou uma banana como resposta ao nosso pedido de entrevista.
FETICHES

- Isso, assim, Aninha... Aí, agora com um pouquinho mais de força, com jeito... Ah, que maravilha, tô ficando doidão! Coisa linda!
- Esfrega mais?
- Sim! Mas esfrega gostoso, meu bem. De ladinho mesmo. Vai, ESFREGA! ISSO, NÃO PARA!!!
- Tempo, tempo! Meu braço tá doendo já.
- Pôxa, você estava indo tão bem...
- Credo, esse tapete tá muito encardido. Tô esfregando essa escova nele há meia hora e... nada! Não é melhor você pagar alguém pra fazer isso?
- Jamais! Eu já não te disse que fico excitado ao ver você limpando a minha casa? Então...
- Sei não, tô começando a achar que isso é só uma desculpa pra você economizar com faxineira.
- Eu??? Aninha, não me fale uma barbaridade dessas, por favor! Você acha que eu seria capaz de fazer uma crueldade dessas com você? Você acha? Fiquei ofendido agora, sério.
- Ah, sei lá...
- Eu tenho culpa se descobri, justamente com você, que o meu maior fetiche é ver uma mulher linda e graciosa, bem do seu estilinho, fazendo a faxina na minha casa? Eu tenho culpa???
- Ah, Di... Acontece que é algo bem cansativo, sabe?
- Eu sei, meu xuxu. Sou solidário com você. Te entendo perfeitamente! Mas o que é melhor? Que o seu amorzinho aqui fique insatisfeito sexualmente ou que ele te veja com essa escova de limpeza na mão, como se fosse a coisinha mais... mais... deliciosa que existe na face da Terra???
- A segunda opção, Di... é claro.
- Então, já descansou o bracinho? Já? Tá melhorzinho, né? Vem cá, vem! Eu quero ver você no banheiro, agora! Ah, você limpando o meu banheiro é uma LOUCURA! Vai lá... vai! Linda!
Quando alguns amigos mais próximos o recriminavam por abusar da coitadinha, só porque ela estava apaixonada, ele se justificava, indignado: "Vocês têm ideia do absurdo que uma faxineira cobra por meio período? Têm??? Então..."
No começo, ele achara interessante aquele fetiche da namorada. Original. Com o tempo, acabou se cansando, ainda mais quando a conexão do local dava problemas:
- Tudo que eu peço é só uma tentativa. Garanto que você vai adorar! Diz que sim, por favor! - ele implorava, quase ajoelhado naquela suíte de motel. Pelo jeito, ela não ficou sensibilizada:
- Eu já disse. Sem messenger, não rola. Não entro no clima. Esquece!
- Toda preliminar precisa ser pelo messenger? TODA?
- Vou responder pela enésima vez: PRECISA! Você sabe disso. Eu aqui, no meu notebook, e você aí, no seu. Sempre foi assim.
- Vamos sem preliminar então. Já que estamos aqui...
- Nem pensar! Você está cansado de saber também que eu JAMAIS transo sem uma preliminar...
- ... que, por sua vez, você só consegue fazer pelo messenger...
- Exatamente!
- E como era quando não havia isso?
- Meu bem, o começo da minha vida sexual coincidiu com a entrada do messenger na vida de todo mundo. Mais uma coisa que eu já contei milhares de vezes pra você.
- Tá, eu sei, desculpa... É que... pôxa... Seria tão bom se não dependessemos disso, concorda?
- Não! Sou feliz assim, on line. E você é tão bom nisso... você tecla de um modo tão... tão... intenso! Amo!
- Ok, ok... E agora, o que fazemos? Já vimos que não rola conexão aqui. Definitivamente, estamos off line.
- Hum... paciência.
- Ok, paciência. No seu notebook ou no meu?
UM SUJEITO PÂNDEGO, TRAQUINAS E SERELEPE

O feriado na praia seria tranquilo para ele se não tivesse que conviver também com aquele amigo do cunhado. Na manhã do último dia, pensou em não cumprimentá-lo. Mas, como era muito educado, resolveu seguir o protocolo:
- Bom dia...
- Bundinha? De quem? De quem? hahahaha
- Nossa, como você é engraçado, hein? Um gênio da comédia!
- Calma, mau humor faz mal pra saúde, senhor Bundinha... hahahah
- Sabe o que faz mal pra saúde? Ouvir essas piadas imbecis que você vive contando. Isso sim!
- Piada? Eu? Eu não lembro de ter piado.
- Hein?
- Piu, piu, piu... Ah, agora sim! hahahaha
- Meu Deus... Cara, deixa eu te dar um conselho...
- Ah, você quer me dar um conselho? Tem mais alguma coisa que você queira dar pra mim? hahaha
- Então, você, com essas brincadeirinhas, pega mal...
- Eu pego mal mesmo. Aliás, eu não pego nada. E você? Pega bem? Hum... Pega aqui então!!! hahahaha
- Continuando, você não é um cara engraçado. É constrangedor ver você se queimando por causa desses comentários idiotas.
- Hum... quer dizer que você fica constrangido em me ver se queimando, né?
- Lá vem...
- É, deve ser traumático ver os outros se queimando depois de ter queimado tanto... a rosca!!! hahahaha
- Olha aí. Não teve graça alguma. Só você está rindo. Ninguém mais. Cara, é um problema ter que conversar com você. Antes de falar qualquer coisa, a pessoa precisa avaliar se não vai soltar nada que possa ter duplo sentido. Muito chato isso!
- É, deve ser difícil decidir se solta ou não. Ainda mais pra você, que adora segurar, né? hahahaha
- Tá, eu desisto...
- Desistiu do quê? De segurar ou soltar? Se decide aí, meu! hahaha
- Olha, por sua causa, eu não comi vegetal algum por aqui. Vejo uma cenoura e já imagino você fazendo uma observação idiota sobre ela. "Cenoura? Curte uma cenoura então? Hum... sei..." E a mesma coisa com pepino, mandioca, abobrinha, banana...
- Pô, cara. Fiquei feliz agora. Você não come mais vegetais por minha causa? Ótimo! Vai por mim, é mais interessante comer outras coisas. Mulher, por exemplo. hahahaha
- Benzadeus...
- Pô, deve ser complicado tentar transar com um alface, um abacaxi... hahaha
- Isso, é complicado tentar transar com um abacaxi. Tá certo...
- Aliás, abacaxi ou abaixa aqui??? hahahaha
- Socorro...
- Isso me fez lembrar de uma sobremesa deliciosa que comi dias atrás. Era um pavê de abacaxi. No começo eu não sabia se era pavê...
- PERAÍ! PODE PARAR! VOCÊ NÃO VAI CONTAR A PORRA DA PIADA DO PAVÊ, CACETE! NÃO VAI!!! TUDO TEM LIMITE! PAVÊ OU PACOMÊ PRA CIMA DE MIM NÃO!
- Calma, calma! Não é nada disso.
- AH, BOM!!!
- Deixa eu completar. No começo eu não sabia se era pavê ou... PAMORDÊ!!! HAHAHAHA
Foi preciso quase cinco pessoas para segurá-lo. Caso contrário, num ato de desespero, ele teria conseguido furar os próprios tímpanos com os dedos. Dava dó de ver. Opa, dava? Hum... sei, sei...
CQC E O ENCANTO DO DEDO MÉDIO

- Nossa, não acredito! O gostoso do Marco Luque mostrou o dedo do meio pra mim. Que delícia! - berrou a mocinha da platéia, histericamente encantada com o gesto do apresentador do CQC no intervalo do programa, em resposta aos apelos dela, todos no estilo "Marcoooo, seu gostoso! Lindo, maravilhoso! Te amo! Olha pra mim!!!"
Não enxerguei antipatia na reação dele. Foi um dedo erguido com estilo, lentamente, como se a outra mão estivesse girando uma alavanca imaginária. Tudo isso sorrindo, dando a entender que a mensagem foi a seguinte: "Ok, vocês me acham gostoso, coisa e tal. Ouço isso todos os dias. Bacana. Mas, quer saber? Aqui pra empolgação de vocês, ó..."
A moça adorou - deve ter ovulado num volume suficiente para gerar quíntuplos -, como se aqueles segundos de atenção fossem um convite para algo maior. As amigas dela acharam o máximo. O cara sabia que qualquer sinal dele seria encarado como charme. Quando o time está bem no campeonato, certas liberdades são perdoadas pela torcida. Isso é universal. Mas não deixa de ser curiosa essa relação entre fã e ídolo, em que um é tratado feito uma criança gracinha pelo outro: qualquer gesto é motivo para suspiros de encanto. Mesmo que esse gesto consista na exibição do dedo médio. "Ai, que lindo!!!!"
Naquele ambiente, um programa de humor habitualmente ácido com uma audiência jovem em sua maioria, até que fez sentido toda a situação. Seria esquisito se, por exemplo, o Papa resolvesse dar uma dessa no meio da missa de domingo, no Vaticano, em resposta aos apelos de alguns fiéis mais exaltados:
- Santo Padre, nos dê a sua benção! - e sorridente, lá iria o velhinho mostrar o dedo do meio para uma platéia escandalizada com o gesto, até então inédito em séculos de papado.
No lugar do Marco Luque, eu experimentaria várias formas de reação além do dedo médio. Só para ver até até onde iria o limite da aceitação. Coisas escatológicas como arroto e vômito forçado estão fora de cogitação, pois é certo que qualquer emissão de gases ou fluído corporal tende a ser vista com simpatia pelos fãs. O povo perdoa e aplaude. Isso é clássico. "O peido que ele deu no microfone foi sensacional! Encantador, como tudo que ele faz!"
Admito que não consegui imaginar situação alguma que causasse reprovação geral. Que fizesse a mulherada passar, em questão de milésimo de segundos, da ovulação para a TPM. Bem, talvez a sua imaginação esteja melhor que a minha. Se for esse o caso, que tal deixar a a sua sugestão aqui nos comentários? Fique à vontade. Só não vale mencionar coisas como pedofilia, zoofilia, pansexualismo, sacríficio de bichos fofinhos (como pintinhos, ursos pandas recém-nascidos, joaninhas etc) e outras coisas que o seu bom senso irá julgar bem. Confio em você.
(Estive no CQC na semana passada, graças ao Urso. Lá, depois do programa, pude filar umas coxinhas e esfirras no camarim dos apresentadores. Resumindo, pessoal gente fina.)
UMA OPORTUNIDADE ÚNICA PARA ALGUÉM ESPECIAL

“Você foi selecionado para conhecer um novo produto”, me disseram ao telefone, numa tarde qualquer, coisa de uns cinco anos atrás. Perguntei do que se tratava, como tinham conseguido meu telefone, essas coisas. Secamente, o homem disse que não poderia revelar mais detalhes, por questões estratégicas. Pessoas do meu perfil, segundo ele, seriam fundamentais para a avaliação desse produto especial, que ocorreria no próximo sábado. Para isso, ele me passou o endereço e o horário do evento, ressaltando que, no fim, eu ganharia um brinde. Opa, brinde? Confirmei minha presença no ato. Afinal, eu não teria nada pra fazer no próximo sábado de tarde mesmo. Lucro certo.
Me senti especial, imaginando que tipo de produto seria aquele, onde um seleto grupo atuaria como formador de opinião. Seria um novo carro, onde afortunados feito eu ficariam a tarde inteira fazendo test drives? No fim, pediriam a minha opinião. “Olha, sobre essa nova Ferrari… ela tem um desempenho aerodinâmico que está entre o bom e o ótimo. Bem, achei acima da média, mas poderia ser melhor.” Não, eu não sou muito fã de carros. Não seria pra isso, considerei. Gosto de chocolates, por exemplo. Então, quem sabe, eu avaliaria uma nova marca, especialmente designada pra pessoas de paladar refinado, já pensou? No fim, após a minha valiosa opinião, eu voltaria com sacolas personalizadas, cheias de chocolates. Quem sabe.
Especulei até coisas medonhas. Como a suspeita de que tudo isso não passaria de golpe de uma dessas quadrilhas internacionais de tráfico de órgãos. Cogitei a possibilidade de descobrir que a famosa estória de acordar numa banheira cheia de gelo, sem um dos rins, seria verdadeira mesmo.
Enfim, como minha curiosidade foi mais forte do que tudo, fui até o local, no dia e horário combinado. Era um sobrado, localizado em uma dessas regiões chiques de São Paulo, decorado com muito bom gosto em seu interior. Ao ver por lá outros afortunados como eu, fiquei bem mais tranqüilo. Após me identificar, fui gentilmente conduzido para um imenso jardim nos fundos, onde tinham várias mesas, quase todas ocupadas. Lá, fui recebido por uma loira simpática, que não parava de sorrir pra mim, preocupada em garantir que eu me sentisse VIP. “Aceita um refrigerante? Salgadinho? Whisky?”. Ao perceber que o guaraná era de lata, aceitei um. Bebida direto da garrafa, ainda não. Afinal, eu ainda não tinha descartado de vez a possibilidade de me doparem pra arrancarem um dos meus rins.
Seguiu-se quase uma hora de conversa amena, com a loira interessadíssima na minha vida. Ela não era bonita, tinha até um nariz meio torto que me desviou a atenção em vários momentos. Mas era de uma simpatia que me deixava à vontade, admito. Perguntava sempre sorrindo o que eu gostava de fazer, o que era a vida pra mim, essas coisas. Arregalava os olhos a cada coisa interessante que eu dizia ter feito. No fim, depois de tudo que eu falei, ela concluiu que eu era um cara que gostava de curtir a vida. Concordei. E, dentre tudo isso, viajar pra mim era fundamental, não é? Concordei, novamente. Cada vez mais, ela ia direcionando a conversa apenas para o tema “viagem”. Viagem, viagem e viagem. Matei a charada: estavam tentando me vender um desses títulos de viagem.
E era isso mesmo.
Bem, daí, resolvi entrar no jogo, fazendo o papel do cliente ideal, querendo ver até onde tentariam insistir. Era uma tarde de sábado de inverno, gelada, e aquilo seria bem mais interessante do que ficar em casa, à toa, pensei. Ali, pelo menos, eu encheria a pança de salgadinhos, guaraná e whisky - sim como não queriam meus rins, mas apenas alguns reais, resolvi relaxar, tomando uns drinquezinhos. Assim, bebericando com gosto, revelei todos os lugares do Brasil e do mundo que eu gostaria de conhecer, enquanto ela ia me ouvindo maravilhada, certa de que havia conquistado um cliente. Fui dando corda.
Num dado momento, ela me convidou pra assistir a projeção de um vídeo, no telão instalado em uma das salas. Aceitei a proposta. Nesse vídeo, passavam imagens e imagens de casais apaixonados e famílias na felicidade suprema de uma viagem, em locais de paisagens paradisíacas. E tome cenas clichês de confraternizações à beira-mar, beijos ao pôr-do-sol, no êxtase da classe média branquinha e de sorriso colgate. No meio da projeção, a loira, empolgada, comentou comigo: “Quanta coisa bonita, né? Vendo tudo isso, dá uma vontade danada de viajar, né? Aposto que você tá louquinho pra fazer as malas!”. Eu, já com um leve efeito do whisky na cabeça, me limitei a responder, como se eu fosse um desses personagens de comerciais da Polishop: “Nossa, é verdade…”
Ao voltarmos para o jardim, começou o ataque. Durante quase uma hora, ela tentou me convencer a comprar um título de viagem. Não adiantou eu dizer que estava guardando dinheiro pra um novo carro, onde cada centavo economizado era fundamental. Ela não se conformava que eu, um cara que adorava viajar e curtir a vida, tinha a ousadia de dispensar uma oportunidade daquelas. E tome cálculo disso, daquilo, mais descontos. Nada, eu continuava irredutível. “Olha, quem sabe no fim do ano, hein? Agora, infelizmente, não dá.” Imagina, aquela promoção maravilhosa só duraria naquele dia. Outra oportunidade como aquela, nunca mais. Nunca mais! Era pegar ou largar!
Entregando os pontos, ela me passou pra um rapaz que mais parecia um robô, de tão artificial que era a simpatia do mesmo. Pelo que percebi, ele era desses que tentavam, a todo custo, convencer os “clientes” mais difíceis, de forma agressiva. “Tá bom esse plano aqui pra você? Tá, né? Vamos fechar então!” E tome mais contas. Mais descontos. Mais vantagens. Mais ameaças de ultra-super-promoções desse tipo que jamais voltariam a oferecer pra mim. Só faltou o cara colocar um revólver na minha cabeça. E eu, nada, só bebericando o meu whisquinho. “O meu carro novo, entende?” Percebi que muitas pessoas nas mesas ao redor assinavam cheques. “Minha nossa”, pensei, “o vídeo funcionou com esses aí…”. Ao notar que a coisa não andaria comigo mesmo, o rapaz, resignado, foi buscar o meu brinde: uma estadia de três dias num hotel três estrelas de Recife - só isso, nada de passagem -, com prazo de validade de seis meses, que só eu teria direito a desfrutar. Fui embora já meio cambaleante do whisky, estufado de salgadinhos, com o cupom-brinde nas mãos. Me despedi da loira que me atendeu, ainda meio intrigado com aquele desvio no nariz dela. Ao contrário da simpatia do início, ela me respondeu com um “tchau” bem mal humorado.
Voltei sorrindo pra casa, certo que vivi uma tarde divertida, boca-livre das boas. Pena que eu não passei perto de Recife nos seis meses seguintes. Tudo bem.
Post publicado em 18/09/2007 no blog do Marmota. Fez parte da série "Colônia de Férias", na qual tive a honra (bonito, hein?) de ser um dos autores convidados.

