O Fogão Limpo
Aconteceu algo extraordinário no início desta semana: limpei o meu fogão. Sei que o fato não tem importância alguma pra você. É só um fogão limpo, ora essa! Ok, compreendo perfeitamente a sua indiferença. Bem, em partes. Não me diga que você nunca se comoveu com isso.
Não? Pôxa.
Ah, tá. A sua faxineira faz isso sempre. Ou então, você mesmo se encarrega disso toda vez que dá aquele trato diário na cozinha. De fato, fica difícil ver alguma graça. Fato corriqueiro.
Mas não pra mim.
Faço parte daquele time que mora sozinho e não tem condições de pagar alguém pra fazer a faxina. Não gosto de viver num chiqueiro, razão pela qual preciso respirar fundo vez ou outra pra limpar a casa. Esfrega daqui, dali, e pronto, superfícies limpas o suficiente pro meu apartamento não ser interditado por acúmulo de poeira e gás metano.
Mas no meio disso tudo existe o tal do fogão. Tem algo nele que me impede de ir mais a fundo. Coitado, ele se torna a vergonha do lar, meio grudento, com aqueles vestígios de óleo. Poderia ser pior: eu pelo menos passo nele um desses papéis absorventes de cozinha. "Pra tirar o grosso".
Aí, o tempo vai passando e o que não foi removido fica ali. Só depende de mim. E aí, vamos dar um trato ou não nesse negócio? Então, sabe como é, acabei de lavar uma montanha de louça. Tenha dó. Fica pra amanhã.
E o dia seguinte nunca vem. Ainda não inventaram o fogão descartável? Usou, jogou fora. Não? Ok, amanhã, sem falta, cuidarei disso. Eu disse a mesma coisa ontem? Ah, tenha dó, passei pano no piso do apartamento inteiro, limpei o banheiro e, me desculpe, esse fogão ficará pra amanhã. Ah, não. Amanhã é sábado. Ok, segunda-feira então!
E não é que, excepcionalmente, contrariando os deuses da procrastinação, eu limpei mesmo o meu fogão nesta última segunda? E limpei com L maiúsculo. Detergente, solução desengordurante e o escambau. Peça por peça, por cima, dos lados. Não descansei enquanto não ficasse igualzinho aquele exposto na loja, virgem de panelas.
Na manhã seguinte, eu não cansava de admirá-lo. Lindão. Brilhando. "Então é assim que fica? Interessante". Parecia que eu havia comprado um outro fogão. O anterior devia estar em algum ferro-velho, certeza. Impressionante. Lembrei daquele quadro no programa da Xuxa, em que uma feiosa era escolhida na plateia e recebia uma maquiagem caprichada. Entrava como tribufu e saía como a sósia da Angelina Jolie.
Senti um baita orgulho do feito. Se houvesse um canal de TV dedicado ao meu ego, decerto que aquilo seria algo digno de plantão que interrompe a programação normal. "E atenção, recebemos a informação que, neste exato momento, Tuca Hernandes acabou de limpar o fogão dele. Esse é um dia histórico na... vida dele."
Mas, voltando pro Planeta Terra - e ao primeiro parágrafo - o que isso importa pra você? Nada, nem pras pessoas que participam da minha vida pessoal. Essa é a solidão dos pequenos grandes feitos do cotidiano. Fica com a gente a repercussão. Ninguém vibrará feito você. "Ok, você acabou de encontrar uma nota de cinco reais no bolso. E daí?". Mas dá uma vontade danada de compartilhar com o mundo essas banalidades, isso dá. Opa, acabei de fazer isso.
Em tempo, o fogão tá meio sujinho de novo. Saco...
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