Branco

Lembros dos primeiros. Um aqui, outro acolá. Bem espaçados um do outro. Branquinhos. Era fácil reconhecê-los, fios mais grossos que os demais. Pequenas lembranças de que o tic tac do relógio biológico estava cumprindo as orientações do meu código genético. Ok, eu compreendo, mas eu não queria dar pinta disso. Então, pegava a pinça de cílios, encurralava um a um daqueles fios e pin! Já era. Comigo não. E aí eu saía na rua com o cabelo no tom de sempre, sem intromissões esbranquiçadas.

No entanto, o tal código genético, feito um subordinado antipático que só está cumprindo ordens superiores, não quis saber do que eu achava de tudo aquilo. Nem aí. Meses se passaram e a pinça voltou a remover apenas cílios mesmo. Batalha perdida, admiti. O espaçamento entre os fios brancos diminuiu um bocado. Alguns surgiam lado a lado, como duplas que juntavam forças para garantir o domínio do novo território. Não era preciso mais ficar pertinho do espelho pra constatar o óbvio: eu estava ficando grisalho. Caminho sem volta.

Considerei pintar meus cabelos. Por alguns dias eu ficava no corredor dos cosméticos, namorando aquelas promessas de me rejuvenescer. Qual seria o meu tom? Não bastava castanho apenas. Era preciso me decidir pelo acastanhado claro, escuro ou o meio termo. Provavelmente eu teria que tingir minhas sobrancelhas também. Questão de harmonizar o visual. Sempre fui homem sem exageros quanto a vaidade, jamais deixando o pacote básico do bom senso visual. Sim, sobrancelhas também. Que saco, hein?

O meu flerte com as pinturas acabou numa simples conversa com o tiozinho que cortava o meu cabelo. "Pintar? Ih, rapaz. Pior coisa. Danifica a estrutura dos fios. Química demais. Fica uma merda. Deixe assim mesmo." Bem, quem sou eu pra contestar um cara que vive de tocar no cabelo dos outros? Acatei. Tchau, Wellaton. Olá, código genético. Tic tac.

Hoje, trinta e sete anos nas costas e na cabeleira, simpatizo bastante com a invasão grisalha. Por enquanto, só é bem perceptível quando visto de perto. Os invasores estão ali, bem salpicados, em harmonia com os castanhos condenados. Tá certo, isso soou meio estranho, admito. Resumindo, estou curtindo.

E cá entre nós, sempre aparentei ter uma idade bem menor do que a estampada no RG. Com os cabelos brancos, quem sabe diminua aquela necessidade eventual de provar que sou um cara experiente. "Então, não sou estagiário. Sou o chefe mesmo, sabe?" Pensando bem, se eu estivesse ficando calvo, seria uma boa também, hein? Hum... não. Vai que eu tenha uma recaída e comece a cogitar... perucas. E dessas acaju, igualando o tom na lateral e sobrancelhas. Eu, hein?


Permalink15.10.11, 15:45:34, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Cotidiano, Egotrip, Meu Umbigo, Memórias 2 comentários



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Comentários:


Comentário de: Maria Augusta · http://bitnow.com.br/

Quando mais brancos, mais a gente pensa que está ficando velha. E o pior é que é verdade ;(

PermalinkPermalink 24.11.11 @ 19:15



Comentário de: Maria Edjane

Pois é...não temos escapatória. Mas acho um charme os cabelos brancos naturais...tem velhinho que pinta de preto e fica muito estranho.
Essa semana mesmo vi um, e parecia que tava com uma tampa na cabeça... :)

PermalinkPermalink 16.12.11 @ 16:56



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