A Surtada e o Empacotador

Uma cena grotesca. O cenário, um supermercado. Início de uma noite de segunda-feira. Dois personagens: a mulher estupidamente estressada e o empacotador com ar de coitadinho. Na plateia, eu e mais uma dezena. Inconformada, a dondoca levantou a voz, alertando que perdera a paciência. “Mas é muita incompetência!!! Chega! Como você me deixa o pacote de refrigerante por último? COMO? E aí, vai colocar essa porcaria em cima dos legumes? VAI MESMO???”, ela berrava pro empacotador. Intimidado, ele não conseguia emitir uma palavra sequer. Humilhado em público, restava abaixar a cabeça e reorganizar as compras da cliente. “É cada uma, viu?”, resmungava a mulher, enquanto bufava e olhava com um ar superior para o rapaz, que consertava aquele grave erro. Agora sim, o fardo de Coca Light estava no lugar certo, no fundo do carrinho.

Mentalmente, me vi dando um sermão na surtada, desses de deixar a pessoa chorando compulsivamente de tanto arrependimento, implorando perdão de joelhos. No entanto, como a vida teima em ser real, nada de heróico aconteceu. Segui o meu caminho direto pra rua, compras na mão. Decerto que ela não percebeu o meu olhar de desaprovação, tão eficiente quanto regime a base de feijoada e Coca Light. Desconfio também que o empacotador jamais imaginará que um desconhecido como eu foi silenciosamente solidário a ele. A vida continuou, cada qual no seu mundinho, alheio um ao outro.

É bem capaz que, com a cabeça mais fria, a mulher reconheça que exagerou na dose. Ou então, que continue achando plenamente justificável aquela postura. “Vejam só, o imbecil deixou as cocas light por último! Pode??? Em que mundo estamos? POR ÚLTIMO!!!!” Sei lá. Seja lá como for, aquilo tudo me provocou muita dó instantes depois. Do rapaz? Que nada. Dó daquela mulher, que não consegue se controlar diante uma situação banal, a ponto de dar escândalo em público. TPM? Problemas graves na vida pessoal? Parafuso solto de nascença? Enfim, essa aí tá ferrada, atormentada pelos pequenos estresses da vida. Em uma cidade como São Paulo então, vixe maria!

Quanto ao empacotador, bem... é a vida, meu caro.

*******

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Permalink07.02.11, 23:53:19, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Cotidiano 4 comentários



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Comentários:


Comentário de: tio .faso · http://marcamaria.com

Rapaz, é porque você não me viu no mercado. Eu brigo (e já mandei gente tomar no fiofá;) sem dó e nem piedade.

Descobri que algumas vezes um PQP é uma força libertadora.

Um super abraço,

tio .faso

Re: Opa, pelo que vc já me relatou, é bem capaz que vc tivesse sido o super herói que faltou por lá. :P

Abs!

PermalinkPermalink 08.02.11 @ 00:12



Comentário de: thailon

eai eu tava assistindo um video que fala sobre ganhar dinheiro com o blog e eu vi cel blog e quero perqunta ai vc se vc pode divulgue meu blog que eu divulgue o cel blog no meu twitter e muito mais

PermalinkPermalink 31.03.11 @ 12:11



Comentário de: Dama do Apocalipse

Rsrsrs... Engraçado este seu texto. Fui garçonete durante toda a graduação e é incrível como as pessoas aproveitam qualquer situação de serviço como se fosse de subalternidade. Realmente são pessoas muito problemáticas. Hoje em dia não dependo do emprego de garçonete, mas vou trabalhar lá de vez em quando. Para mim virou uma terapia, pois como agora posso ser despedida, qualquer ato daquele tipo não é tolerado. Se possível seja sim o herói, pois quem precisa não tem o luxo de poder dizer a verdade. Sim, dizer a verdade é um luxo. Ah, onde eu trabalhei a dieta mais eficiente era a de Petit Gateau com coca zero, às vezes quando pedem coca zero eu pergunto se o cliente tem diabetes, só pra ele parar um pouco pra pensar. rs Obrigada pelo texto.

PermalinkPermalink 30.06.11 @ 22:59



Comentário de: Maria Edjane

Gostei do texto...tem gente que nem merece um bom dia...nunca vi tanta falta de educação.

PermalinkPermalink 16.12.11 @ 17:01



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