Eu, o coador e as natas chefonas

Se você foi criança nos anos 80 é bem capaz que se lembre das natas. Não estou falando sobre aquela película fininha que se forma na superfície dos leites de hoje. Isso não é nata, imagine. Nata mesmo são aqueles grumos branquelos similares a icebergs no meio do Nescau fervido. Bem diferente do que acontece atualmente com os leites de caixa, que parecem ter um dispositivo anti-nata. Antigamente, com os leites de saquinho – B para a classe média e o C aguado para os mais pobres, lembram? – era um festival de nata. E eu odiava isso.
Depois da bola de futebol, o coador era o acessório que eu mais fui apegado na minha infância. Era sempre um alívio barrar aqueles grumos, salvando o meu pingado de um aspecto marmóreo. Eu tinha nojo daquilo. Frescurite pura, podem dizer, concordo plenamente. O meu pai, bem diferente de mim, fazia questão de engolir com gosto aquela nataiada toda, como se fosse mussarela derretida. Era uma cena de embrulhar o estômago. Bem, pelo menos o meu.
Mas, sei lá porque, existiam crianças que não tinham o mesmo problema que o meu. E eram muitas, o que me dava uma sensação de isolamento. Logo, era sempre tenso tomar café da manhã em algum lugar que não fosse a minha casa. Eu caminhava preocupado para a mesa, com as paranóias de sempre:
Será que o leite daqui tem nata?
Se tiver nata, será que tem coador?
Se tiver coador, será que o pessoal daqui tem o hábito de usá-lo no leite?
Se não tiverem esse hábito, será que conseguirei driblar a vergonha e pedir um coador?
Tímido incorrigível, eu jamais abria a boca pra pedir algo, ainda mais um coador. Assim, na grande maioria das vezes, sobrava eu diante de uma xícara de leite lotada de nata. Da maneira mais discreta possível, eu ia mexendo a colherzinha na esperança de pelo menos fisgar as natas chefonas. Explico. Natas chefonas eram as grandonas, facinhas de reconhecer no redemoinho causado pela colher. Assim, depois de me certificar que todas as chefonas estavam no pires, eu finalmente começava a dar uns goles no Nescau, com bastante precaução. Mesmo assim, não foram poucas as ocasiões em que uma chefona me enganou direitinho, indo parar na minha boca. Era daí pro guardanapo, obviamente. Tempos difíceis.
Viviam pegando no meu pé por essa característica bem peculiar minha, vulgarmente chamada de “frescura”. Fui o incompreendido da mesa do café. Um marginalizado pela sociedade amiga da nata. Faziam piadinhas comigo, imaginando eu já adulto, barbado, colocando o coador na bagagem, como se fosse a chupeta do bebezão que jamais iria crescer. Sim, pegavam pesado. Muito preconceito, minha gente.
Mas a vergonha teve o seu fim, graças a um velhinho que estava hospedado no mesmo hotel que eu, numa dessas viagens que eu fazia com a minha família. Nos cafés da manhã, adivinhem o que ele sempre trazia em uma das mãos? Isso mesmo, um belo coador. Pronto, era o que eu precisava ver. Se aquele senhor ainda usava coador, o que dizer de mim, moleque de dez anos? Coisa normal, ora essa. Realizado, não me cansava de falar sobre o velhinho anti-nata. Libertador. Iniciou-se ali um sentimento que eu poderia chamar de Coador Pride. Abaixo a nata!
O movimento teve vida curta. Culpa desses leites de caixa, que se popularizaram poucos anos depois. Hoje em dia, o leite quente apresenta apenas uma natinha de nada, facilmente removida pela colher. Uma capa inofensiva, raquítica, coitadinha. Mas que ainda não engulo de modo algum.
Fresco, eu?
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Comentários:
Eu só nunca trouxe coador no bolso.
Até hj, aos 26 anos, não bebo e sempre tiro com coador ou com colher....
Eu queria ter escrito essa.
Eu odiava nata. E era uma vergonha do caralho pedir pra coar.
abraço
- a, mexe que ela some. não tem gosto de nada. ¬¬'
Queria me ver com cara entojada era achar nata no meu nescau...
E outra coisa que odeio e ainda não me livrei é aquela casca durinha no funda da gelatina.
Chata, eu?
zica-do-pantano.blogspot.com
Contato:Caique.14_familia@hotmail.com
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