UM SUJEITO PÂNDEGO, TRAQUINAS E SERELEPE

O feriado na praia seria tranquilo para ele se não tivesse que conviver também com aquele amigo do cunhado. Na manhã do último dia, pensou em não cumprimentá-lo. Mas, como era muito educado, resolveu seguir o protocolo:
- Bom dia...
- Bundinha? De quem? De quem? hahahaha
- Nossa, como você é engraçado, hein? Um gênio da comédia!
- Calma, mau humor faz mal pra saúde, senhor Bundinha... hahahah
- Sabe o que faz mal pra saúde? Ouvir essas piadas imbecis que você vive contando. Isso sim!
- Piada? Eu? Eu não lembro de ter piado.
- Hein?
- Piu, piu, piu... Ah, agora sim! hahahaha
- Meu Deus... Cara, deixa eu te dar um conselho...
- Ah, você quer me dar um conselho? Tem mais alguma coisa que você queira dar pra mim? hahaha
- Então, você, com essas brincadeirinhas, pega mal...
- Eu pego mal mesmo. Aliás, eu não pego nada. E você? Pega bem? Hum... Pega aqui então!!! hahahaha
- Continuando, você não é um cara engraçado. É constrangedor ver você se queimando por causa desses comentários idiotas.
- Hum... quer dizer que você fica constrangido em me ver se queimando, né?
- Lá vem...
- É, deve ser traumático ver os outros se queimando depois de ter queimado tanto... a rosca!!! hahahaha
- Olha aí. Não teve graça alguma. Só você está rindo. Ninguém mais. Cara, é um problema ter que conversar com você. Antes de falar qualquer coisa, a pessoa precisa avaliar se não vai soltar nada que possa ter duplo sentido. Muito chato isso!
- É, deve ser difícil decidir se solta ou não. Ainda mais pra você, que adora segurar, né? hahahaha
- Tá, eu desisto...
- Desistiu do quê? De segurar ou soltar? Se decide aí, meu! hahaha
- Olha, por sua causa, eu não comi vegetal algum por aqui. Vejo uma cenoura e já imagino você fazendo uma observação idiota sobre ela. "Cenoura? Curte uma cenoura então? Hum... sei..." E a mesma coisa com pepino, mandioca, abobrinha, banana...
- Pô, cara. Fiquei feliz agora. Você não come mais vegetais por minha causa? Ótimo! Vai por mim, é mais interessante comer outras coisas. Mulher, por exemplo. hahahaha
- Benzadeus...
- Pô, deve ser complicado tentar transar com um alface, um abacaxi... hahaha
- Isso, é complicado tentar transar com um abacaxi. Tá certo...
- Aliás, abacaxi ou abaixa aqui??? hahahaha
- Socorro...
- Isso me fez lembrar de uma sobremesa deliciosa que comi dias atrás. Era um pavê de abacaxi. No começo eu não sabia se era pavê...
- PERAÍ! PODE PARAR! VOCÊ NÃO VAI CONTAR A PORRA DA PIADA DO PAVÊ, CACETE! NÃO VAI!!! TUDO TEM LIMITE! PAVÊ OU PACOMÊ PRA CIMA DE MIM NÃO!
- Calma, calma! Não é nada disso.
- AH, BOM!!!
- Deixa eu completar. No começo eu não sabia se era pavê ou... PAMORDÊ!!! HAHAHAHA
Foi preciso quase cinco pessoas para segurá-lo. Caso contrário, num ato de desespero, ele teria conseguido furar os próprios tímpanos com os dedos. Dava dó de ver. Opa, dava? Hum... sei, sei...
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Exercitando a mente
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Comentários:
O pior é que existe gente assim. Ou 'quase' assim, o que não chega a ser um consolo (hmm, consolo...? ¬¬
É constrangedor...
Re: Pelo consolo, vc pegou o espírito da coisa. Pegou, é? Hum....
Me dá síndrome do pânico quando encontro gente assim. E me dá mais desespero ainda quando vejo outras pessoas rindo junto. É como se eu visse um platéia dando gargalhadas sinceras para uma cena do Zorra Total.
Gostei Tuca!
beijo!
Re: Gostou do texto e não do estilo do cara, né?
Re: Sábia atitude!
No sentido literal...rsrsrs
No mais,beijos e boa semana!
Re: Pedantes ou comediantes?
Abs.
Re: Quando a bobagem se tornar rotina, aí fica difícil mesmo. Não há bom humor que aguente.
Re: Normalmente, esses caras são gente boa. O problema é que, para querer agradar, acabam fazendo piadinhas com tudo. Pena que só eles riem.
Re: Quanta injustiça com o rapaz... Comparando-se com o tipo de cara que retratei aqui, o Trotta é praticamente um roteirista do Seinfeld!
Até por analogia, eu e outros colegas começamos a considerar que caberia adicional de insalubridade por cada piadinha sem graça emitida.
Uma vez, eu e outro colega, só contabilizando as tais piadinhas sem graça (chegamos até a fazer uma escala de insalubridade), chegamos ao cálculo de que a cada dia nos era devido R$ 12, que multiplicado por 30 daria R$ 360 de adicional. Em média, cada piada sem graça rendia R$ 1,50. E esse acabou virando o parâmetro para cada chiste infame.
Mas, de fato, se há algo que não suporto desde meus tempos de criança é esse tipo de gente que fica com piadinha o tempo todo ou não leva a sério aquilo que dizemos. É uma diferença muito grande para alguém que de fato é bem-humorado.
Em alguns momentos, cheguei a perder a paciência com quem piadiza em quantidade em vez de qualidade. Se explodi, não me lembro, mas já cheguei a me levantar de um lugar em que chistes infames proliferavam e ir embora sem falar qualquer coisa e com o pessoal me perguntando aonde eu ia. E fui.
O principal problema desse tipo de gente é que você fala qualquer pessoa e eles acabam entendendo o que quiser. É algo tipo Beavis and Butt-head, em que eles entendiam "master section" como "masturbation" e outras assemelhadas. Portanto, sequer dá para se travar qualquer diálogo mais profundo, pois sempre irão irão guinar o assunto para alguma piadinha sem graça.
Seria interessante saber se isso é um valor cultural ou mesmo algo que já vai para o lance puramente genético. Gene ou meme, eis a questão.
Re: Dependendo da pessoa, faz bem ficar calado ao lado dela. Qualquer palavra pode virar ponto de partida para o stand up comedy alheio nível A Praça é Nossa. É muito chato sentir-se escada para a piada ruim do outro. Sentir-se um Dedé diante do Didi mais sem graça do mundo. O ambiente pode influenciar também. Tive um amigo que era ótima companhia quando sozinho. O problema era quando ele resolvia falar bobagens no meio de um povo que tinha riso fácil. Daí para se empolgar era um passo muito curto. E tome infâmia!
Há o lance de você acabar se policiando em relação àquilo que fala. Imagine então falar de coisas como experimentos científicos envolvendo animais com padronagens malhadas e cujas fêmeas preferem os machos com bolinhas grandes. Claro, você não pode falar que as fêmeas preferem os machos com bolinhas grandes aos de bolinhas pequenas que logo pensarão em sexo, mas em um contexto humano da coisa.
Acabam por te forçar a um formalismo daqueles no falar, bem como pensar 10²³ vezes em sobre como falará algo. Aqui, no caso, seria necessário dizer "manchas redondas maiores", evitando falar termos como "diâmetro" ou "raio" para que não emendem alguma coisa.
Há também o detalhe dos tais traumas que persistem. Como disseram aqui, mesmo longe da pessoa em questão, você acaba por ficar marcado pelas besteiras que ela diz. Se ouve qualquer coisa, logo começa a raciocinar da maneira torta que eles raciocinam, mesmo que não queira fazer isso. De repente, uma pessoa que não é de fazer piadinhas e que odeia piadinha desse tipo acaba falando algo que você acaba por raciocinar do tal jeito torto. Pode ser que nem fale nada, mas emitirá sinais não-verbais para os outros interlocutores. E isso poderá involuntariamente gerar salseiros por você causados.
E, claro, sempre lembrar da localização de uma série de postos de combustível para ter resposta na ponta da língua para cortar o ensejo original de perguntas como "tem posto atrás?", bem como outras assemelhadas. Uma vez já desarmei alguém falando que havia um posto de combustível em outro quarteirão. Coisas da vida.
Re: Nossa, essa do posto rivaliza bastante com a do pavê.
Re: Posso estar sendo machista, mas quando mulher resolve agir assim, como a rainha do duplo sentido, fica mais feio ainda.
Re: Com o chefe, esses figuras se se tornam tão sérios quanto mestre de cerimônias de velório. Mas eu adoraria vê-los demitidos por justa causa, devido uma gracinha com o patrão. "E aí, chefe? Gosta de um joguinho, né? Tem dado em casa? É o senhor que dá... as cartas? Hum... sei..."
Re: Bem colégio mesmo isso. Rodinha? Já botaram isso na rodinha? Hum... sei...
Abraço!
Re: Pô, eu até defendi vc no comentário do Eric...
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