QUEM É VIVO SEMPRE DESAPARECE

Numa fase da minha infância, eu tive o costume de imitar o Belchior para chamar a atenção. Se eu começava a cantar com aquele timbre bizarro? Não. Eu o imitava no sentido presencial mesmo. Ou seja, sumia. Ficava dias sem dar as caras no térreo do prédio onde eu morava. Eu imaginava que, desse modo, a molecada iria questionar o meu sumiço, ficando com tanta saudade que a minha popularidade iria atingir níveis invejáveis para um menino de dez anos. "Oh, você voltou! Êba!!!!"

Mas, ao contrário do cantor, Fantástico algum mencionava o meu desaparecimento. Os dias passavam e nada da campainha tocar. Ninguém sentia a minha falta. Bem feito para mim, pois moleque que faz essas frescurinhas tem mais é que ficar no ostracismo mesmo. Aprendi a lição - um bocado decepcionado com meus supostos amigos, admito - e, desde então, percebi que, pelo menos na minha vida, saudade é algo que não se provoca, se conquista sem intenção. Pois é, essas carências de criança costumam ser engraçadas.

Desde que não seja por motivos antipáticos, como depressão, sequestro, assassinato e outras tantas infelicidades, invejo as pessoas que conseguem sumir e ficar numa boa. Bem, desde que consigam avisar, de tempos em tempos, que está tudo bem, pois desaparecer sorrindo enquanto outros choram sem saber se o sumido está vivo ou não é sacanagem demais. Egoísmo brabo. E, cá entre nós, talvez eu não tenha lá tanta moral para falar isso, pois vivo recebendo telefonemas da minha mãe, chateada pelo meu silêncio de dias sem entrar em contato com ela. Mas, ok, estou no meu canto, no telefone e CEP de sempre, ela sabe. Não peguei a estrada sem destino conhecido.

Quem some, digamos assim, de maneira responsável mundo afora, deve estar, no fundo, em busca de histórias para contar na volta. Afinal, é muito mais interessante relatar coisas da estrada do que fatos como a última proposta do cliente, cujo foco é o aumento substancial no market share do próximo trimestre. Convenhamos, o coração costuma bater mais legal diante de mapas e rotas ao invés de planilhas e contratos. Por isso, não é a toa que muitos voltam tão inspirados a ponto de escrever um livro, por mais que o motivo do sumiço tenha sido de autoconhecimento, desapego de vícios da sociedade materialista, essas coisas.

Se o objetivo do Belchior for esse, de um dia voltar cheio de idéias boas para compor canções, ótimo. Se ele resolver não cantá-las, repassando para quem tem voz bacana, a exemplo do que ele já fez com pessoas feito a Elis Regina, melhor ainda. Caso contrário, bem, deixemos ele caminhar por aí, feliz e alienado, pacificamente desaparecido.


Permalink27.08.09, 00:27:50, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Cotidiano, Música, Meu Umbigo 7 comentários



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Comentários:


Comentário de: Rodrigo van Kampen · http://peixefresco.net

O engraçado é que tem coisas absurdas que você faz, vive e convive que você só percebe quando some por um tempo.

Eu gosto de sumir de ônibus (mesmo que seja só até Bauru por 2 dias XD), mas dá tempo de pensar bastante na vida!

Re: No meio do sumiço, diminuem os ruídos das obrigações. Aí, conseguimos tirar certos vícios de nossas observações, o que aumenta a capacidade de perceber melhor as coisas ao redor. É, por aí...

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 11:27



Comentário de: mariana

é isso aí, saudade não se provoca, mas se conquista sem intenção...

Eu também sou a favor de deixarem o cara em paz. Se ele quiser voltar (e se redimir do egoísmo que está cometendo com quem gosta dele), ele volta.

Re: É a velha história: se a pessoa está bem assim, não prejudicando ninguém, deixa pra lá, não?

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 12:30



Comentário de: André

Há momentos em que sumir é bom, principalmente quando significa sumir do contato de algum grupo social do qual você faz ou fazia parte e subitamente dá por conta de uma ingratidão sem tamanho do mesmo. Se notarem seu sumiço, é sinal de algo. Mas se não notarem, é porque nunca você foi significativo ao referido grupo, por mais que as aparências dissessem que não.
Tudo bem que em parte, o sumiço de Belchior pode ter um quê de marketing. Vi no Orkut um álbum de fotos em que havia uma foto mais ou menos recente do cara. Porém, há coisas que chamam a atenção nessa história, como os dois carros que ele deixou em estacionamentos, bem como o sumiço dele em relação aos próprios familiares e o flat em que morava. Ao mesmo tempo, há a história de ele ter sido visto abertamente em ocasiões públicas mais ou menos recentes. Há fotos dele em aeroportos do País, bem como participações em shows.

Se bem que também se fala que seu sumiço é por causa de dívidas. A ex-esposa do cara solicita que ele pague as pensões alimentícias de setembro a novembro de 2008, que somam mais de R$ 25 mil. Ele também está com pendências na Receita Federal e por ter deixado o carro no estacionamento do aeroporto de Congonhas, há R$ 18 mil de dívidas.
Porém, se ele deixou o carro no aeroporto de Congonhas, não acho que dê para dizer que houve algum medo de avião na história.

Em todo caso, aviso que ele não está com o Michael Jackson. Ao menos pelas minhas andanças pelas bandas de Pinheiros e Vila Madalena não o vi. E olha que o perfil de vida cultural daquela região permitiria sossegadamente que ele sumisse na multidão, até por conta do perfil artístico dele, que, apesar de anterior à vocação dos referidos bairros, encaixa-se tão bem a ele que permitiria que ele passasse um tanto desapercebido por lá, tipo o Edgar Scandurra e seus passeios com os cachorros.

PS: já que falamos em Michael Jackson, aviso que fui a um baile nostalgia na Casa de Portugal no começo deste mês, baile esse em tributo ao Rei do Pop. Porém, só vi mesmo covers do cara. Em todo caso, surpreendente foi a história de surgir mais uma suspeita de filho do cara, com direito a um "Michael Joseph Jackson" oriundo de Indiana na certidão de nascimento desse que solicita exame de DNA, cujo nome é Prince Michael Jet Jackson. Temos três crianças oficiais, há a suspeita de o norueguês Omer Bhatti ser filho do cara e agora, temos esse. Só falta agora descobrirmos que existe um filho brasileiro...

Re: Rapaz, não espalhe para ninguém o que vou lhe contar: eu posso jurar que vi, num desses botecos de Pinheiros, perto da minha casa, o Belchior tomando um rabo de galo ao lado do Michael Jackson. Os dois pareciam felizes, que nem pinto no lixo. E que assim continuem!

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 16:15



Comentário de: angelvp · http://www.mascavo.wordpress.com

Há a possibilidade dele voltar sem nada, com uma mão na frente e outra atrás,e nos encontrar babando por inéditas canções feitas no mistério do exílio.

Ou então podem ter dado cabo dele.

Acho melhor não botarmos muita força nas expectativas, porque entre ele voltar de mãos abanando e ele não voltar nunca mais, prefiro a primeira opção.

De qualquer jeito, desejo o melhor para ele, onde quer que ele esteja.

Re: Ele está vivo. Prova disso são as ocasiões em que ele foi visto recentemente, nesse ano ainda. Digamos que o cara só está indisponível para a imprensa e os eventuais assédios do público. Enfim, está isolado em algum canto por aí.


PermalinkPermalink 27.08.09 @ 22:18



Comentário de: ana maria

Segundo a mídia parece que ele estava com muitos problemas financeiros. Se voltar, pelo menos o ibope tá bom, relançar alguns albuns, shows, aproveitar a maré.
Senão, melhor virar eremita e ficar zen...

Re: Por mim, ele pode ficar eremita e zen à vontade.

PermalinkPermalink 28.08.09 @ 12:25



Comentário de: André

E não é que "descobriram" onde o Belchior estava (ponho entre aspas por suspeitar que haja um certo golpe publicitário na coisa)? Ele está no Uruguai, longe do alcance da justiça brasileira e seus pedidos de esclarecimento a respeito de dívidas e outras coisas.
Talvez a melhor forma de desaparecer sem deixar de ter uma fonte de renda e sem deixar de trabalhar é fazer o que muitos fazem: querer tocar aquilo que sempre quiseram tocar e cair no ostracismo, bem como não ficarem tão legais quanto outrora. É o que fez, por exemplo o Rick Astley. O cara que vendeou 40 milhões de cópias hoje tem um show privado tão barato que se eu ganhar na Mega Sena, meu primeiro aniversário pós-prêmio vai ter um show dele, pois custa apenas US$ 75 mil. E por que aconteceu isso com um cara que ganhava milhões e catou muita mulherada? Porque ele recusou a ficar naquilo que fazia sucesso e se encaixava bem na voz dele para cantar umas mais paradonas. Muitas outras bandas e artistas famosos despontaram para o anonimato ao agirem assim. Não deixaram de fazer shows, mas acabaram por conseguir o desaparecimento que tanto almejavam, ainda que talvez tenham se arrependido a posteriori.

Re: Ser sincero consigo mesmo é a causa mais comum de sumiços por aí, mesmo que involuntários. Na arte então, nem se fala. Só os gênios sobrevivem nessa intenção. O resto, depois de um tempo, torna-se cover de si mesmo, cobrando 10% do cachê padrão de antes.

PermalinkPermalink 31.08.09 @ 01:32




Escrevi pra um amigo, escrevi no blog e repito aqui, pois acredito que caiba bem: "difícil é viver algo novo sem mudar nada de lugar". É fácil sumir, fugir e voltar com boas histórias, renovado, cheio de idéias e despertando mil saudades. É na verdade o mínimo, o esperado. Difícil mesmo, senão árduo, é sentir e fazer isso tudo enquanto se vive uma vida inteira no mesmo lugar...

Re: o maior desafio é conseguir ser feliz em nosso próprio quintal, sentindo-se tão realizado quanto o viajante que conhece o mundo inteiro. Para alguns, isso é chamado de conformismo. Para outros, apenas uma questão de personalidade. Cá entre nós, costumo simpatizar mais com quem tem alergia ao quintal. Questão de identificação, sei lá...

PermalinkPermalink 31.08.09 @ 23:53



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