SONHOS ARTIFICIAIS

Eu estava na casa de uma tia, localizada em uma região feia e com cheiro de esgoto. Era dia de feijoada, que foi servida fria na garagem, no meio daqueles carros empoeirados. Enquanto eu mastigava com dificuldade aquele troço quase sem tempero, percebi que alguém do outro lado do muro queria conversar com a minha tia. Era a Ana Maria Braga. Ela, vizinha da minha tia? A apresentadora, mesmo com o salário global, ainda fazia questão de morar naquele fim de mundo. Curioso. Eis então que...
Bem, eu acordei. Sonho? Pesadelo? Sei lá. Só sei que... acordei.
Perplexo, fui fazer o meu café. Qual seria o propósito daquele sonho besta? Casa da minha tia... feijoada fria na garagem... Ana Maria Braga como vizinha... No caminho para o trabalho, concluí que não havia mensagem alguma ali. Se houvesse um roteirista dos meus sonhos, ele seria despedido naquela manhã, por justa causa. Justíssima. Tanta coisa para se criar e acabo vivenciando aqueles delírios de maconheiro preguiçoso? Triste do homem que acorda bocejando de seus sonhos, com saudades de algo mais original, coisa que o faria caminhar sorrindo nas ruas. Tudo bem, talvez você diga que é melhor ter uma boa realidade do que mil sonhos bons. Concordo. Mas, convenhamos, acordar com o efeito analgésico de um sonho bom não é nada mal.
Feliz da geração que puder escolher os seus próprios sonhos, sem essa coisa de depender do acaso. Poderia ser através de pílulas. "Hum, com quem eu sonharei hoje? Essa lua cheia tá pedindo uma... Eva Green! É isso, vou tomar as pílulas dela." Para os mais materialistas, alternativas não faltariam: "Bem, no sonho de hoje, vai cair bem eu dirigindo uma Ferrari em Paris. É isso aí. Ontem, Jaguar em New York. Hoje, Ferrari. Perfeito." Claro que, como sempre, excessos não seriam tolerados pelo organismo. Ou você acha que não aconteceriam overdoses fatais? Muitos iriam querer ter a Eva Green ao lado, no banco da Ferrari, indo de encontro a uma Natalie Portman ninfomaníaca, que os esperaria na suíte presidencial do melhor hotel de Paris, com os Beatles fazendo um som no quarto. Eis o ser humano, sempre querendo um pouquinho mais, mesmo dormindo.
Mesmo que houvesse a consciência da dose certa, relacionamentos poderiam acabar por causa de sonecas em excesso. "O Clodoaldo, meu marido? Aquele ali só dorme. Só quer saber de pescar no Rio Amazonas, toda noite!" "A Margarida? Decepção! Depois que ela descobriu as pílulas do Brad Pitt, nunca mais deu atenção para os filhos, netos, bisnetos. Nada!"
Mas o mais triste mesmo seria o cara vítima de pílula falsa. Coitado. Ele vai dormir todo animado, certo de que terá uma noite de sexo classe A com a Megan Fox e acaba acordando transtornado, querendo se esquecer daquele travesti careca que o perseguiu durante o pesadelo inteiro, por horas, berrando "Fora, Sarney!!!". Malditos camelôs!
Pensando bem, é melhor que os bons sonhos continuem vindo do modo tradicional, sem avisos. Sendo assim, boa noite para você. Ou melhor, boa sorte.
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Comentários:
Re: Opa, essa seria campeã.
Re: Em relação ao monopólio, vc tem razão. Por isso mesmo que o Ministério do Sonho poderia criar umas pílulas genéricas. Para os homens, poderia ter, por exemplo a pílula "ruiva linda que gosta de fazer cafuné de lingerie." Já para as mulheres, o "moreno boa pinta que traz o café da manhã na cama." E por aí vai...
Re: Ah, filosofadas são quase que o equivalente dos sonhos dos acordados. É válido.![]()
Re: Opa, Beatles, sempre. Impossível de enjoar. Intrigante, não?
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