CADA QUAL COM SEU CARNAVAL

Salvador. Em uma hora de micareta, um amigo já tinha beijado quinze, outro, vinte, e assim por diante. E ele nada, contabilidade zero. Alegou razões de higiene pra não sair compartilhando tanta saliva por aí. Mas o maior motivo mesmo pra boca não ter buscado beijos foi a ausência daquela que tinha a única saliva que valeria a pena provar nesse mundo. E que naquele momento estava numa fazenda no interior de Minas, beijando quem também odiava carnaval, como ela. Mas imaginando, enquanto os lábios dançavam, Chico Buarque no aparelho de som, que aquela boca bem que poderia ser de um outro alguém, que agora estava em Salvador, certamente beijando todas na micareta.
Seguindo a tradição dos domingos de carnaval, a turma de sempre saiu desfilando pelas ruas daquela cidade, todos vestidos de mulher. E como todo evento que se preze, não poderiam faltar as fotos. Nesse ano, ao fazerem pose pra uma delas, ficaram mais tempo aguardando pelo clique definitivo, pois o fotógrafo encarregado se atrapalhara com a máquina. “Um momento... já vai sair, vão sorrindo aí!”. Enquanto isso, compondo o quadro de farra da pose, o Betão continuava no colo do Nelsinho, sorrisos cada vez mais forçados pela demora. Mas um momento, o que era aquilo? Por acaso o Nelsinho estaria levando um drops no bolso? Mas ele não tinha bolso, estava só de cueca por debaixo daquela minissaia fajuta... E aquele negócio crescendo, crescendo... Mas ele não havia confessado ontem, pros amigos mais chegados, que nem o Viagra vinha resolvendo o caso dele???
Quando saíram as fotos, não havia como não reparar na cara de angústia do Betão, ali no colo do Nelsinho, felicíssimo. Sabe-se lá porque.
Pela primeira vez em muitos anos, ninguém viria com aquelas brincadeirinhas sobre ele ser candidato a Rei Momo. Foi o carnaval mais aguardado de toda a sua vida. Já haviam passado pouco mais de seis meses após a sua cirurgia de redução de estômago. Comparando-se com a silhueta do carnaval anterior, ele estava um palito, quase um refugiado etíope. Ao fim da noite de terça-feira, na saída do baile mais tradicional da cidade, estava feliz mas ao mesmo tempo com aquele sentimento estranho, meio incomodado. Ninguém reparara nele. Deixara de ser especial naquela festa, o centro das atenções. Agora era apenas mais um qualquer na multidão. Melhor assim.
Desastre de carnaval. Cinqüenta camisinhas, intactas, na quarta-feira de cinzas. O mesmo número que ele comprara na sexta-feira anterior, pouco antes de embarcar pra praia. Todos haviam dito que seria uma orgia total, mulherada no cio em busca de homens livres e desimpedidos, como ele. Cinqüenta camisinhas, intactas. E, pra piorar, ele era bem religioso, desses que seguem a quaresma à risca, quarenta dias sem os tais prazeres da carne. No caso dele, será que o padre não daria uma licença especial? Cinqüenta camisinhas, intactas!!!
Ps: E, já que estamos falando de carnaval, leia também: "ARCEBISPO PERNAMBUCANO CRIA ALTERNATIVA À PÍLULA DO DIA SEGUINTE".
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Comentários:
De fato, vai ser meio estranho esse trigésimo Carnaval de minha vida. Todos (ou quase todos) que conheço viajarão. Eu ficarei em São Paulo. Não desfilarei em escola de samba, como fiz há quatro anos. Fico meio chateado com a velha história de as baladas fecharem, apesar de um monte de gente ficar por aqui. Se bem que já vi que há algumas de samba-rock abertas. Como sei dançar isso, nem preciso dizer que tentarei deslocar minha pessoa física rumo a elas.
Mas vai ser estranho, sem sombra de dúvidas. Talvez sirva para descansar bem do tanto que estou trabalhando. Hoje então estou meio estranho. Todos cantarolando marchinhas e eu cantarolando "Ain't no Sunshine" em timbre mais ou menos próximo àquele do pequeno Michael Jackson. Mudo de faixa em minha mente e continuo a cantarolar no mesmo tom daquele menino-prodígio, mas desta vez ao som de "Never Can Say Goodbye".
Se bem que ainda estou cantarolando coisas dançantes ou que deixem o pessoal sorrindo. Se eu cantarolar "Tempo Perdido", aí sim é caso de ver o que está acontecendo.
Mas de qualquer forma, este será um Carnaval estranho.
Tão real o desencontro do primeiro texto, chega a dar raiva.
Espero que seja totalmente excelente como foi esse ano!!!
Beijos.
Pri.
Re: O meu carnaval 2009 foi fraquinho. O ano que vem igual? Eu, hein?
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