ACORDO ORTOGRÁFICO SOFRE NOVA REVISÃO

Se depender dos responsáveis que zelam pela sua integridade, a língua portuguesa ainda ficará um bom tempo no divã em que foi colocada. O mais recente capítulo desse drama aconteceu no início dessa semana, quando a Associação Brasileira dos Ortografistas Brasileiros (ABOB ) conseguiu entrar no STF com um pedido de liminar que provocou a suspensão imediata do novo acordo ortográfico. "As mudanças não traduzem a realidade do povo brasileiro." afirmou Geremias Chiavenatto, presidente da associação.
Além de invalidar as regras que já estavam em vigor, a ABOB instituiu uma série de alterações que revolucionarão a língua portuguesa de uma maneira sem precedentes na história moderna. No documento que detalha as mudanças - intitulado "Português do Povo Para o Povo" - são inúmeros os exemplos que rompem com a rígida formalidade que até então caracterizava a nossa ortografia. Como no caso do emprego da crase, que, com as novas regras, será facultativo, de acordo com a vontade de quem estiver escrevendo. "É o fim da paranóia com a crase. Daqui por diante, a pessoa só a colocará quando o coração mandar. Se for em todos os 'as' que ela encontrar pela frente, ótimo. Agora, se quiser abolir esse traço da sua vida, sem problemas!", explica um entusiasmado Chiavenatto. O mesmo raciocínio vale para o uso do hífen e da vírgula.
Palavras que antes eram consideradas erradas - tanto na grafia quanto na fala - passarão a ser oficialmente incorporadas no novo vocabulário. Portanto, a pessoa que escrever "asterístico" estará tão correta quanto aquela que fizer uso de "asterisco", por exemplo. Segundo o documento da ABOB, toda e qualquer palavra que de alguma forma já existe no vocabulário popular passará a constar como certa, numa espécie de anistia ortográfica. Dessa maneira, órgãos oficiais poderão resolver seus "pobrema" e "excessões" ao redigirem seus requerimentos, sem que isso comprometa suas "pretenções" gramaticais.
Mas o ponto mais controverso é o relacionado ao uso do "mim". Nesse sentido, Chiavenatto é enfático: "A partir de agora, 'mim' vai poder fazer tudo. Acabou essa ditadura do povo teoricamente letrado ficar corrigindo os outros nesse sentido. Convenhamos, 'mim' é algo que há anos vem sendo incorporado como sujeito nas milhões de frases que são ditas todos os dias por esse povo sofrido, batalhador e que merece respeito. Confesso que pra mim aceitar o uso do 'mim' foi difícil no começo. Mas, depois, a gente se acostuma. Sim, mim pode fazer o que bem quiser da vida, de cabeça erguida."
O documento com todas as mudanças já está disponível no site da ABOB. Nesse, o leitor perceberá um detalhamento que não poupou nem o popularíssimo e polêmico "cu", que, segundo as novas regras, passará a ser finalmente escrito com o acento agudo - "cú". A população terá o prazo de um ano para se adaptar ao novo formato da língua portuguesa, que entrará oficialmente em vigor no dia 29 de fevereiro de 2010. Até lá, espera-se que "todos percam a vergonha e passem a abraçar essa língua maravilhosa, flexível e dinâmica que é o português genuinamente brasileiro, sem frescurites elitistas que só oprimem o cidadão comum.", concluiu o presidente da ABOB, visivelmente emocionado.
Fonte: Folha da Manhã Ensolarada
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Comentários:
Re: Eu também gostei da idéià de pode usar a cràse onde eu bem quiser. Àssim, me liberto dessa coisà de paràr para refletir toda horà: "Aqui vài cràse ou não?". Abençoados sejam os sàbios dà ÀBOB!
O partiÇípio do verbo abrir pode Çer agora tanto aberto quanto abrido. Uma lindeza poder oLvir e ler "a porta tá abrida" ou "eu tinha abrido o chuveiro" Çem ter que corriJir ninguém. Não vale À pena gastar meu latiN. =P
Menas regras pra MIM reviZar, adorei! =D
Re: Ah, que lindo. Pelo visto, vc já leu o documento da ABOB, né? Isso que é revizora! Agora, me dê licença, que tô apertado e priciso urgentemente orinar! (nossa, me deu um djavan aqui... estranho...)
Mas agora, falando mais seriamente, o que mais me preocupa nessa história de acordo ortográfico é terem solucionado problemas que não existiam antes do tal acordo entrar em vigor. Tudo bem que agora finalmente o português terá ortografia unificada mundialmente, mas será que era mesmo essa a ortografia que conjuntamente desejavam portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos e outros? Há coisas que gerarão problema, como o fim de uma porrada de acentos diferenciais, bem como a possibilidade de alguém falar "ideia" como falaria "baleia" justamente por ter perdido o acento.
Há também a questão de alguns prefixos terem ficado sem explicação plausível sobre se serão hifenizados ou não. Fala-se que "co-herdeiro" passará a ser "coerdeiro". O pior de tudo é terem posto em vigor o tal acordo sem que houvesse simultaneamente a divulgação do Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa. E, claro, por causa disso, ficamos sem saber um monte de coisas. Por causa disso, ao menos para o revisor, ninguém poderá querer usar aquela face de bode expiatório pago que o ofício infelizmente envolve em alguns lugares.
A outra coisa é que não se lembraram que o Brasil reúne a maioria absoluta dos falantes de português no mundo a ponto de se somarmos a população de todos os outros países lusófonos, nem de longe chegar ou superar a daqui. Creio que o país deve ser mais ouvido nesse ponto.
Há coisas que gostei, como a volta de K, W e Y. Assim, poderemos usar sem problemas vocábulos de origem africana, como "keta" (que é como chamam "canção" em Moçambique), bem como dançar kuduro sem preocupações. Já quem se chama Walter poderá ficar sossegado de não se sentir desmoralizado quando pedir que o jornal use a forma aportuguesada de termos que porventura tenham no original a letra W.
Ainda assim, o idioma deve uma reforma mais profunda, mas que nem de longe signifique esculacho. Há erros que vejo as pessoas de hoje cometerem e que não via, por exemplo, quando de minha adolescência (que nem é tão distante assim). Eis que vi um monte de babaquara usar "mais" em vez de "mas". Isso para não falar da praga do "naum", que tornou um inferno a vida de quem tem o nome hebraico do profeta que fica entre Miquéias (ou será que agora é Miqueias?) e Habacuc. Se houve burrogenia onde não havia, algo está errado e nem de longe as instituições de ensino são culpadas, mesmo que sejam daquelas que tenham aprovação automática, entre outras "modernidades".
Re: André, vou indicar vc como consultor da ABOB.
Re: Faz todo o sentido, concordo. Pois, quem tem cu, não deveria ter medo de colocar nele o assento e o acento.
Re: maça! dimaiz!
Prova de que esse novo acordo ortográfico também enche-me os pacová.
Lindo.
Re: Ah, vc ESTAVA acreditando? Continue acreditando, caso o seu coração mandar.
Re: Exatamente! Resumiu bem.
No passado minhas ideias eram mais acentuadas
Já não são agudas minhas heroicas empreitadas
As pessoas não mais leem de chapéu
Mas ainda se veem os sinais no céu
As arguições de outrora eram mais tônicas
Agora as plateias emudecem, ficam afônicas
A ausência de circunflexo me causa enjoo
A asa foi arrancada e cortada em pleno voo
Eu perdi o traçado da autoestrada
Mas ainda há risco no peixe-espada
Não há quem não trema em consequência
A língua camoniana nunca foi exata ciência
A paranoia me penetra pelos pelos
A escrita carece de frequentes zelos
A escola para para que se averigue e se ajuste
A regra é clara, e que a patuleia não se assuste
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