Arquivos para: Dezembro 2008
QUALQUER TV

A televisão que estava no meu quarto quebrou. A imagem dela começou a ficar com um tom azulado que deixava todo e qualquer programa similar a um episódio dos Smurfs. Na assistência técnica autorizada, deram um orçamento que, com mais cem reais, me possibilitaria comprar uma nova daquele modelo. Não convencido, a levei para o japonês aqui perto de casa, que conserta de torradeiras a monitores LCD. Com ele, o mesmo diagnóstico, o mesmo preço para o conserto. Resignado, trouxe de volta para casa aquele tubo aleijado. Ainda não sei o que fazer com esse mais novo ferro-velho. Talvez eu o dê para os meus quatro sobrinhos:
- Meu presente de Natal para vocês. Toma, um martelo pra cada um. Tão vendo aquela TV ali? Podem descer o sarrafo! Um, dois, três e... já!!! Valendo! - seria divertido ver a molecada agindo como aqueles vândalos do apocalipse que aparecem na trilogia Mad Max. Bem, considerando-se o estado da mobília da casa deles, não é algo muito difícil de se imaginar.
No lugar da quebrada, coloquei uma mais antiga, bem menor que a anterior, que estava encostada no quarto ao lado. E quer saber de uma coisa? Não senti diferença alguma. No começo, cogitei de comprar uma novinha em folha, dessas achatadas - de plasma, LCD, PQP, sei lá o quê. Mas, ainda bem que fiz aquela clássica pergunta pra mim: "eu serei uma pessoa mais feliz com isso?" A vozinha da razão, essa que me escapou tantas vezes nos últimos tempos, resolveu dar o ar graça, respondendo um singelo "não."
É certo que o meu instinto consumista iria soltar rojões ao sair da loja de eletrônicos com aquela caixa contendo a tal TV achatada. "Uau, agora faço parte da turma que possui televisão moderna!" - esse deve ser, atualmente, um dos lemas mais populares da classe média, amiguinha do crediário casas baiânico. No entanto, desconfio que eu sentiria um vazio danado ao perceber que a programação da tela continuaria a mesma, tanto dos canais abertos quanto dos fechados. Seria o mesmo tédio de sempre. Sei que a alegria do consumista dura até o primeiro bocejo diante do que um dia foi cobiçado.
E além do mais, pouco importa a qualidade da tela se o conteúdo ali consegue fisgar a nossa atenção. É isso que venho percebendo com a televisãozinha dos anos 90 que está no meu quarto. Com isso, lembrei das vezes que eu assistia desenhos em preto e branco, na companhia do meu irmão e da minha irmã: nós três ali, hipnotizados pelo espancamento sistemático que o Popeye era submetido pelo Brutus, salvo apenas pelo espinafre meio acinzentado que chegava até os nossos olhos. Hoje em dia, a molecada da classe média convencional precisa ver qualquer um dos 50 canais de desenho disponíveis numa TV LCD de 90 polegadas e Home Theather. Caso contrário, perdem a fome, tadinhos.
Ah, feliz natal pra você, que, sinceramente, espero que não seja diante de um especial da Xuxa na super TV da sua família.
AJUSTE DE IMAGEM
Ela queria se libertar daquilo. Pronto, era isso. Libertação pura e simples:
- Posso lhe pedir um favor? De coração?
- Ih... lá vem bucha.
- Posso ou não?
- Pode sim, claro.
- Tem como você deixar de me elogiar?
- Não entendi.
- Não fale mais que sou linda, inteligente e sexy. Pode ser?
- Continuo não entendendo. Então, agora é pra eu dizer o contrário? Que você é feia, burra e baranga?
- Não é isso. Eu apenas não quero mais ouvir você me elogiando. Simples assim. Fique neutro.
- Impossível. Eu continuarei achando você tudo aquilo que sempre falei.
- Tá, ótimo. Mas guarde suas opiniões com você, ok?
- Você não gosta de receber elogios?
- Gosto sim, às vezes. Mas você exagera na dose, pelamordedeus! Eu preciso me sentir um pouco mais humana, sabe? Não sou tudo isso que você diz, empolgado. Não mesmo.
- E se pra mim for?
- Ah, problema seu. Cada louco com a sua mania. Se você quiser continuar com a sua ilusãozinha besta de me endeusar, vá em frente. Mas faça isso em silêncio, por favor.
- Tudo bem, combinado. Mas eu posso falar bem de você para outras pessoas? Pelo menos isso?
- Olha, eu não me sentiria bem com isso. Falando bem de mim pelas costas... Não, de modo algum! De coração, eu pediria para que você evitasse isso também. Pode ser?
- Pôxa vida, então é silêncio absoluto!
- Mais ou menos isso...
- Posso pensar bem de você, pelo menos?
- Vai perder o seu tempo. Pensamentos em vão. Olha, eu tenho defeitos, sabe?
- Claro que tem, ora essa! Eu jamais considerei você perfeita.
- Ah, que bom. Estamos chegando a um consenso, finalmente! Diga aí alguma coisa que me deixa imperfeita para você.
- Difícil, hein?
- Eu sabia, era papo-furado essa idéia de imperfeição.
- Já sei. Faça o seguinte, solte um pum. Agora! Pode ser?
- Pum????
- Isso, o bom e velho peido. Se possível, desses bem escandalosos. E não venha me dizer que você não faz essas coisas.
- Eu faço, sim. Mas jamais na frente de alguém. Imagina! E por que eu deveria abrir essa exceção pra você?
- Não ficou óbvia a minha proposta? A lembrança disso funcionaria como uma espécie de trava toda vez que eu ousasse pensar positivamente a seu respeito. E aí, topa?
- Jamais. Endoidou? Tem limite pra tudo, né?
- Ok, azar o seu, então. Vai continuar aí, linda, inteligente e sexy. Perfeitinha.
- Olha... e se eu arrotasse?
- Só pioraria a sua situação. Eu acho sexy mulheres que arrotam.
- Credo.
- Conforme-se. Você é linda, inteligente e sexy. Ponto final.
- ...
- ...
- Aiai... - ela suspirou, desanimada.
- Aiai... - ele suspirou, encantado.
O XODÓ DA TIA GARIBALDA

Ela era o xodó da tia Garibalda. Sobrinha mais nova, dessas temporãs, era sempre tratada como uma criancinha indefesa pela tia babona. E não foi diferente no último aniversário:
- Mileninha! Olha só o presentão que eu tenho aqui pra você. - a velhinha sacudia o embrulho com a estampa da Hello Kitty.
- Ah, tia... Não precisava. - ela reagiu, sorrindo constrangida, já imaginando o que poderia ser.
Sim, como nos outros anos, era uma boneca. Dessa vez, uma Barbie modelo micareta, vestida com um abadá.
- Linda, né? As suas amiguinhas vão morrer de inveja, Mileninha!
- Ah, vão sim, tia. Nenhuma delas tem uma dessas. - ela respondeu, com aquele ar irônico que a tia nunca foi capaz de perceber, tadinha.
- Olha, no dia das crianças eu te dou o triozinho elétrico da Barbie, que é a coisa mais linda do mundo. Tudo bem pra você, meu anjinho?
- Ah, tia... Imagina. Não se preocupe com isso.
- Me preocupo, sim! Ora essa. Todo ano, no Natal, dia das crianças, aniversário, o que for, a minha Mileninha não pode ficar sem o presentinho dela!
- Mas...
- E eu não quero ver você chorando de novo, só porque não ganhou a boneca que quis. Lembra?
- Mas, tia, isso foi há um tempão já, no meu aniversário de cinco anos.
- E daí, Mileninha?
- E daí que hoje eu estou fazendo 29 anos, tia!
- Ih... uma menina ainda! Mal saiu das fraldas!
- A senhora tá falando sério?
- Aiai, essas mocinhas de hoje, viu? Tão com essa mania de questionar tudo. Tudo! Culpa da televisão. Na época da ditadura, criança era criança mesmo. Tempos bons aqueles...
- Criança? Eu vou me casar no começo do ano que vem, tia... A senhora sabe disso...
- Ê, juventude precoce!
- Sou diretora de marketing de uma multinacional francesa...
- Trabalho infantil, muito triste isso...
- Tia, tia... - ela desistiu de argumentar, já conformada com a sua condição de eterna criança.
- Mileninha, já sei. Você não gostou da Barbie Micareteira, né? Pode falar, que a titia não vai ficar chateada. Tudo bem, eu posso trocá-la pela Barbie Pagodeira. Melhor assim pra você?
- Imagina, tia! Eu AMEI o presente! AMEI! Mal posso esperar a hora para estreá-lo com minhas amiguinhas! - paciência, o jeito era entrar na sintonia da velhinha.
- Lindinha! - se empolgou a tia, apertando as bochechas quase balzaquianas da sobrinha-bebê. - Como você é uma boa menina, olha só o que eu também vou dar pra você: um pirulitão beeem gostoso! Toma!
No dia das crianças, a tia Garibalda resolveu não dar o triozinho elétrico da Barbie. A Mileninha estava certa: ela não era mais uma criancinha. Duro de aceitar, mas o tempo tinha passado. Por isso mesmo, resolveu presentear a sobrinha caçula com uma assinatura da revista Capricho.
Uma mocinha já! Quem diria, hein?
Olá! Já que provavelmente você não vai fuçar nos arquivos deste blog, que tal pelo menos conferir os 3 posts abaixo?
CÉU AZUL E AR DE MICROONDAS

Se eu pudesse ser o roteirista pleno de minha própria vida, o meu horário de dormir, todos os dias, iria do início das manhãs até o fim das tardes. Tudo isso para fugir da luz do sol compreendida nesse intervalo de tempo. Principalmente no verão. Não que eu seja uma espécie de esquisitão que sofre de fotofobia e prefira ficar em casa meditando no escuro sobre qualquer coisa da alma. Acontece que a luz do sol nas horas mais intensas me incomoda, bastante. Mesmo na sombra, o ar de microondas consegue me deixar com saudades dos dias frios. Ou pelo menos das horas de clima mais ameno.
Sim, não gostar de dias quentes pode ser um absurdo em um país que está habituado a jogar confetes sobre o sol mais escancarado. Logo de manhã, temos sinais de que o clima promete, com aquele céuzão azul? Opa, então, se for um dia de descanso, a ordem é ir para um lugar em que possamos ficar na mira dos raios ultravioletas, como se fossemos oferendas para o deus Sol, confere? Não se iludam: a pele bronzeada é apenas uma reação da epiderme a uma queimadura. Por isso, é uma bobagem das grandes associarem esse estado com saúde. Dermatologicamente falando, a moça branquela é bem mais saudável do que a outra que mantém a cútis no estilão pastel-de-feira.
Tenho lá minhas razões para fugir do sol mais intenso. Deixei de exercer a profissão na qual me formei por causa de um tumor - benigno, vá lá, mas tumor - que tive na pele, perto do nariz, originado por causa de exposição excessiva ao sol. A principal razão de eu ter optado pela medicina veterinária foi a possibilidade de trabalhar no campo, o dia inteiro vagando pelos pastos ao redor da bicharada. No entanto, percebi que essa rotina seria uma provocação direta para a minha pele de espanhol branquelo. O tumorzinho foi um aviso. Recado assimilado, voltei para a cidade grande, no conforto das salas fechadas, devidamente climatizadas pelo simpático ar-condicionado. Era oito ou oitenta: se fosse para ser veterinário, que fosse no campo. Não deu.
Alguém poderia me sugerir algo simples para evitar esse meu divórcio com o sol: o uso contínuo de filtro solar. O dia inteiro, todos os dias? Tô fora. Ok, eu sei que o recomendável é se lambuzar com esse troço todos os dias do ano, seja lá aonde estivermos. Qualquer dermatologista diz isso, ainda mais nesses tempos de superaquecimento global. Mesmo assim, relapso confesso, eu ainda acho que estou um bocado mais protegido agora, vivendo boa parte de meus dias envolto por tetos e paredes. Mesmo sem filtro solar. A radiação continua chegando a mim, é fato, mas de uma forma bem menos intensa de quando eu trabalhava com os meus amigos avestruzes, por exemplo.
Bem, já sabem, se me chamarem pra pegar um solzinho naquele dia de céu azul, depende. Se for para ver o sol nascer ou o dia morrer no crepúsculo, tô dentro. Caso contrário, dispenso o ar de microondas.
Olá! Já que provavelmente você não vai fuçar nos arquivos deste blog, que tal pelo menos conferir os 3 posts abaixo?
- O Crachá-Espetáculo
- Pra Ler no Banheiro
- Pra Onde Foi o Meu Dinheiro?

