O URUBU BÊBADO E AS CHUVAS DE PNEUS CARECAS
O Bruno tinha uma mania de falar tudo na base de indiretas. As conversas com ele exigiam um exercício de adivinhação:
- É... se eu fosse feito de açúcar, seria bem arriscado sair mais tarde hoje.
- Como assim, Bruno?
- Ah, esse céu... As sementes que estão na terra devem estar gostando do que vem por aí. Bom pra elas.
- O céu. Sei. Você tá falando das nuvens carregadas?
- Isso, os vendedores de guarda-chuva terão uma tarde boa.
- Olha, não seria mais fácil você dizer algo como "é, parece que vai chover, não?".
Por incrível que pareça, tinha gente que gostava dele. O Júlio era uma dessas pessoas, talvez pelo fato de sempre ter sido fã de jogos com enigmas. Segundo ele, os diálogos com o amigo estimulavam os neurônios, pois cada resposta forçava o desenvolvimento de uma interpretação. Perfeito.
- Júlio, que tal a gente brincar de ser reprovado no teste do bafômetro?
- Opa, cervejinha? Demorou!
- Isso, naquele canto que rima com pororoca.
- Fechado, no Boteco do Joca!
E os dois iam se entendendo, até o dia em que o Bruno fez um comentário que incomodou o amigo:
- Rapaz, não é por nada não, mas tenho reparado que tem urubu bêbado ciscando no seu quintal. - as sobrancelhas arqueadas tornavam mais grave ainda o anúncio.
- Sério???
- Sério. E, ó, se eu fosse você, trataria de fazer uma plástica nas minhas orelhas, pois pode chover pneu careca à qualquer momento, entende?
- Não brinca! Cara, obrigado por me avisar! Vou ficar de olho.
- Opa, disponha!
Ele passou dias preocupado com o aviso do amigo. Não pelo conteúdo da mensagem em si, mas pelo fato de não ter entendido coisa alguma dela. Daquela vez, ele não fazia a mínima idéia do que o amigo tentara dizer. De qualquer forma, tinha certeza que devia ser algo bem grave, conforme denunciara a expressão dele. Na hora do aviso, ficara tão assustado com aquele semblante que não teve coragem de pedir mais explicações. Travou. Bem, quanto a isso, melhor continuar ignorante, concluiu.
Todo encontro passou a ser uma tortura:
- Julião, tomou alguma atitude quanto aquilo? Tenho reparado que o urubu continua lá, lindão no seu quintal, cada vez mais de pileque...
- Pode deixar, que eu tô de olho. Esse urubu não perde por esperar...
- É melhor agir logo, que você já tá com uma cara de quem ficou naquele temporal de pneu careca. A orelha então... xiiii... vai precisar de uma plástica maior do que eu imaginava.
- Cara, eu já disse. Tudo sob controle, mesmo!
- Quem avisa amigo é, hein?
Com o tempo, passou a evitar o amigo, que não parava de alertá-lo para o perigo que o circundava. Não, era melhor viver enquanto podia, despreocupado com as surpresas do destino. Tinha uma família perfeita, com a esposa ideal e os filhos saudáveis e espertos. No emprego, tudo ia bem, demais até. Nem queria imaginar o quê de ruim poderia estar acontecendo paralelamente ao mundo perfeito dele. Urubus bêbados, chuvas de pneus carecas, a plástica na orelha? Nada seria capaz de atrapalhá-lo, seja lá qual fosse o significado de tudo isso.
No entanto, depois de alguns meses, tudo começou a desandar, sem explicação. A esposa o abandonou, os filhos não quiseram mais saber dele e o emprego se foi. Desamparado, foi chorar as mágoas no ombro do amigo das antigas, que não parava de falar:
- Olha aí, tá vendo? Eu avisei. Não fez nada! Agora fica aí com esse orelhão feio, com a testa toda marcada por pneus carecas, enquanto que o urubu tá em coma alcoólico lá no seu quintal. Em coma alcóolico, Julião! Como você deixou que as coisas chegassem nesse ponto, rapaz??? Eu te avisei, pôrra!!
E ele, teimoso, continuava não querendo entender coisa alguma. Tudo que ele sabia era que sentia um medo danado do tal urubu estirado lá no quintal dele, em coma alcóolico. Em coma alcóolico!!! Tem idéia da gravidade disso? Pois é...
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