OLHARES E OLHARES
Ao perceber que eu a encarava, ela deixou escapar um sorrisinho e olhou pra baixo, como se estivesse agradecendo envergonhada pelo meu interesse. Estávamos na mesma calçada, andando um na direção do outro. Pouco antes de passar por aquela mulher, dei uma última encarada, discreta, mas o suficiente para perceber que o sorriso aumentara e que ela procurava o meu olhar. Continuei caminhando, sem olhar para trás.
Pois é, eu devo ter massageado o ego dela, pensei. Que coisa. Talvez ela fique pelo resto do dia com aquela sensação de que comoveu um estranho. Que ganhou um fã inesperado, tímido e discreto, sem coragem para abordá-la no meio da rua. Se bobear, deve achar que sou um frouxo, covarde, que jamais viverá um grande amor por não ser impulsivo. Ah, homens!
E tomara que a percepção dela tenha repousado nesse nível mesmo. Afinal, seria muito chato se ela soubesse do verdadeiro sentido de meus olhares que, na verdade, eram de perplexidade diante daquela figura: que mulher feia, tadinha! Não vou relatar aqui os pormenores anatômicos que chamaram a minha atenção. Façamos o seguinte, de forma que você possa acompanhar melhor o meu relato: lembre-se agora da mulher mais feia que você já viu na sua vida. Sim, pode ser uma celebridade. Conseguiu? Não? Faça um esforcinho, você consegue. Te dou mais dez segundos. E agora? Então, a sensação que tive foi a mesma que você está vivendo agora. Triste, não? Tadinha.
Sim, olhares enganam. Quem garante que isso nunca aconteceu com você, caro leitor? Ah, com você também, cara leitora. Tá, eu sei, comigo também, decerto. Sabe aquela pessoa na rua que não tirou os olhos de você num determinado momento? Sim, pode ter sido contemplação diante de algo que a agradou. Ou então, assombramento por conta de algum defeito de fábrica - ou de uso - que a pessoa enxergou em você. Mundo impiedoso e complicadinho? Nem tanto, depende de sua auto-estima, ora essa. No fim das contas, sempre vai existir aquele famoso alguém que discordará dos olhares que só percebem o feio na gente.
E, da feiosa que encontrei na rua, tomara que o mesmo aconteça com ela. Tadinha.
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Comentários:
Ou então aquele olhar que vc lança para a espinha da pessoa, para a alface no dente, e pior é quando você está conversando com a mesma e não sabe para onde olhar, salvo a gigante erupção cutânea… terrível
ahahahahahahaa
Tuca, vc já fez sua boa ação de hoje! Poxa, podia ser uma campanha, tipo: "Olhadela. Faça uma feia (o) feliz!". Eu participaria…
Bjo!
Ah! E que bom que vc tá escrevendo c/ mais frequência!
Realmente esse lance dos olhares oriundos de gente não tão agradável é fogo. Em 2004 ocorreu-me algo assim em meu aniversário, que fui comemorar com os amigos em um bar.
Batia um animado papo com o pessoal que estava em minha mesa. Conversava animadamente, contava piadas, entre outras de costume. Até que notei que uma garota do bloco de mesas adiante insistentemente olhava para minha pessoa física. E era aquele olhar que chega até a te deixar constrangido, de tão profundo que é. Resolvi corresponder por um tempo aos olhares da manceba em questão para ver o que sairia daquilo.
Saiu… um cigarro do maço que ela portava em sua bolsa. E quem me conhece sabe que repudio cigarro e que meu encanto por uma mulher quebra-se imediatamente após descobrir que fuma. Poderia estar lá uma miss Universo ou capa de revista masculina de alto nível (e, claro, do tipo que precisasse de pouco Photoshop) que, se sacasse um cigarro (seja Marlboro ou Marleyboro), imediatamente passaria a se chamar Godofreda para mim.
Sobre outros olhares que notei dirigidos à minha pessoa, muitos foram no Pará. Aliás, foi a única vez em que me senti o diferente em uma multidão (normalmente, sinto-me o diferente em pequenos espaços). E não seria para menos, dadas as diferenças fenotípicas em relação à média dos habitantes locais.
No princípio, ficamos espantados com a beleza ou a feiúra ao extremo. Mas com o passar do tempo tudo fica mais "normal".
Beijos e sucesso!!!
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