Arquivos para: Setembro 2008

ROMANCE TOTAL FLEX

- Não entendi uma coisa… Essa moça que você acabou de cumprimentar…
- O que tem ela?
- Não era sua namorada?
- Sim. Ainda é.
- Estranho. Pela frieza do cumprimento entre vocês, deve ter briga aí…
- Que nada, tudo vai muito bem entre a gente. Uma maravilha!
- Ora essa, então vai lá pro lado dela, rapaz! Pega na mão dela, dá uns beijinhos, essas coisas…
- De jeito nenhum, tá maluco?
- Mas afinal, vocês estão namorando ou não???
- Bem, mais ou menos…
- Como assim? Vocês só estão ficando agora? Dando uns beijos, umas saídas de vez em quando? Não ficam mais juntos em público?
- Nem em público, nem no privado. A gente nem se toca mais. E nem nos falamos mais também.
- E com tudo isso, como você vem me dizer que está tudo bem entre vocês?
- E está. Nunca estivemos tão apaixonados. Depois que decidimos levar nosso relacionamento pra uma outra esfera, finalmente acertamos os ponteiros.
- Que outra esfera?
- Do messenger! Tem que ver. Lá, somos as típicas almas-gêmeas. Coisa de romance psicografado pela Zíbia Gasparetto!!!
- Deixa eu ver se entendi. O relacionamento de vocês virou virtual agora?
- Isso. Exatamente. Virtualmente falando, sou um homem realizado no campo sentimental.
- Mas você não sente falta dela, ao vivo e em cores?
- Nem um pouco. Definitivamente, não rolava química entre a gente cara-a-cara. Tudo era um fiasco. Aquelas conversas cheias de longas pausas, as transas que nunca chegaram a empolgar de fato, as nossas manias que irritavam um ao outro. Enfim, era um desconforto só.
- Mas, por outro lado, tinha o messenger…
- Sim, aí a coisa mudava de figura. Virávamos um casal estilo Romeu e Julieta, mas sem famílias inimigas e idéias suicidas. Horas e horas de conversas sobre tudo. Par perfeito.
- Agora, eu acho que entendi. Vocês terminaram em partes. Acabaram com o real e conservaram o virtual… Por isso que você não fica incomodado de vê-la como agora, beijando aquele cara?
- Ah, deixa pra lá. Essa aí é a outra. É a real: chata e sem-graça.
- Mas e se ela passar o messenger dela pra ele?
- Ela não faria isso, em respeito aos nossos 3 filhos virtuais: Bruno, Lígia e Serginho. Uma família perfeita, tem que ver!
- Ah, tá… Até filhos vocês já têm…
- Meu amigo, sou o homem mais feliz do mundo, virtualmente falando!!! E, falando em felicidade, olha só que gostosinha aquela moreninha ali, do outro lado do salão… Tá me encarando direto… É conhecida sua?
- Sim, é a Silvinha, amigona da minha irmã. Quer que eu te apresente pra ela???
- Não, mas… você me passaria o messenger dela???


Permalink29.09.08, 08:00:08, by Tuca Hernandes Email , Relacionamentos, Comunicação 4 comentários

OLHARES E OLHARES

Ao perceber que eu a encarava, ela deixou escapar um sorrisinho e olhou pra baixo, como se estivesse agradecendo envergonhada pelo meu interesse. Estávamos na mesma calçada, andando um na direção do outro. Pouco antes de passar por aquela mulher, dei uma última encarada, discreta, mas o suficiente para perceber que o sorriso aumentara e que ela procurava o meu olhar. Continuei caminhando, sem olhar para trás.

Pois é, eu devo ter massageado o ego dela, pensei. Que coisa. Talvez ela fique pelo resto do dia com aquela sensação de que comoveu um estranho. Que ganhou um fã inesperado, tímido e discreto, sem coragem para abordá-la no meio da rua. Se bobear, deve achar que sou um frouxo, covarde, que jamais viverá um grande amor por não ser impulsivo. Ah, homens!

E tomara que a percepção dela tenha repousado nesse nível mesmo. Afinal, seria muito chato se ela soubesse do verdadeiro sentido de meus olhares que, na verdade, eram de perplexidade diante daquela figura: que mulher feia, tadinha! Não vou relatar aqui os pormenores anatômicos que chamaram a minha atenção. Façamos o seguinte, de forma que você possa acompanhar melhor o meu relato: lembre-se agora da mulher mais feia que você já viu na sua vida. Sim, pode ser uma celebridade. Conseguiu? Não? Faça um esforcinho, você consegue. Te dou mais dez segundos. E agora? Então, a sensação que tive foi a mesma que você está vivendo agora. Triste, não? Tadinha.

Sim, olhares enganam. Quem garante que isso nunca aconteceu com você, caro leitor? Ah, com você também, cara leitora. Tá, eu sei, comigo também, decerto. Sabe aquela pessoa na rua que não tirou os olhos de você num determinado momento? Sim, pode ter sido contemplação diante de algo que a agradou. Ou então, assombramento por conta de algum defeito de fábrica - ou de uso - que a pessoa enxergou em você. Mundo impiedoso e complicadinho? Nem tanto, depende de sua auto-estima, ora essa. No fim das contas, sempre vai existir aquele famoso alguém que discordará dos olhares que só percebem o feio na gente.

E, da feiosa que encontrei na rua, tomara que o mesmo aconteça com ela. Tadinha.


Permalink24.09.08, 08:00:17, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Cotidiano 5 comentários

PARA ALÍVIO IMEDIATO, TOME DORNAL

Do grupo que tinha blogs profissionais - aqueles em que boa parte dos posts possui um perfil de anúncio para determinados produtos -, ele era considerado o mais radical de todos. Pagando bem, topava elogiar qualquer coisa. Um amigo do mesmo meio, um pouco mais seletivo nesse sentido, achou que daquela vez ele tinha passado dos limites:

- Olha, eu defendo que nós devemos ter liberdade para publicarmos o que bem quisermos em nossos blogs. Mas, vem cá, você não acha que exagerou um bocado no seu último post?
- Aquele sobre o analgésico "Dornal"?
- Sim. Foi a coisa mais bizarra que já vi na internet.
- Eu não vi nada de mais. Foi apenas mais um post patrocinado como tantos outros que já publiquei, ué.
- Como assim, nada de mais??? Desde quando pode ser considerado normal um vídeo feito aquele, em que você aparece tomando o analgésico, passo-a-passo, com todos aqueles closes? Baita queimação de filme, rapaz!
- Olha, se eu recomendo um produto que estou anunciando, ninguém melhor do que eu mesmo pra testá-lo, na frente do meu público, concorda?
- Sim, concordo. Mas, acontece que o produto em questão era um… SUPOSITÓRIO!
- Exatamente. "Analgésico Dornal - Surpreenda a enxaqueca por trás!" Qual o problema? Trata-se de um remédio como qualquer outro, aprovado pelo Ministério da Saúde.
- Pô, mas precisava de vídeo de demonstração para sensibilizar seus leitores?
- Claro que sim. O anunciante me orientou para que eu fizesse o post no sentido de combater esse preconceito que existe em relação aos supositórios. E, modéstia a parte, cumpri muito bem o meu papel. Sabe que o vídeo já é um dos mais acessados do Youtube? Então, sucesso total, meu amigo.
- E a sua imagem, como fica? Tudo bem de você ficar conhecido como o "cara do supositório"? Isso não te incomoda???
- Rapaz, me incomoda não falarem de mim, isso sim. Não existe essa bobagem de exposição positiva ou negativa. Existe, isso sim, o poder que o meu nome tem nas buscas do Google. Que, diga-se de passagem, deu uma bela aumentada depois da campanha do "Dornal". E tem outra coisa.
- O quê?
- Mesmo assim, eu só faço posts de produtos com os quais me identifico.
- Ah, sei. Então você confessa que você gostou da experiência com o supositório.
- Bem, resolveu o meu problema. Quando fiz aquele vídeo, eu realmente estava com uma enxaqueca danada. E sabe que ela sumiu? Sendo assim, produto aprovado, post publicado, campanha paga!
- E você o tomaria de novo?
- Bem, pagando, estamos aí.
- Mesmo sem enxaqueca?
- Meu amigo, se for preciso, eu até bato a cabeça na parede. Profissionalismo, meu caro. Profissionalismo!


Permalink22.09.08, 08:00:10, by Tuca Hernandes Email , Comunicação, Blogs 2 comentários

CHUPÕES

Ela ainda não havia superado o rompimento com o Dé. Prova disso foi o pedido feito para um perplexo Pedrinho:

- Me dá um chupão? Aqui, ó. Bem forte! - ela apontava para o próprio pescoço, afastando o cabelo do caminho.
- Tá doida, é? E todo aquele papo sobre amizade?
- É só um chupão, pô! Pra deixar marca, vai! Amanhã, no casamento do Bruno, quero mostrar pro Dé que eu tenho ficado com alguém. Vou provar que eu ainda tô viva.
- E você vem escolher justo eu pra isso?
- Acontece que você é o meu melhor amigo, Pedrinho… Confio em você. Eu sei que o seu chupão seria inofensivo sabe?
- Um chupão técnico?
- Sim, exatamente. Sem terceiras intenções. Deixa de enrolar, vai! Então, faz bem aqui, ó. Mas forte, hein?

Tecnicamente, foi um chupão bem eficiente, tamanho o vergão que ela exibiu no dia seguinte, na festa de casamento do amigo. O Dé, que era olhos somente para a namorada atual, mal reparou nela. Coitada. Na volta, o Pedrinho quase perguntou se ela não queria um retoque naquela marca. Um chupãozinho de leve, sabe? Técnico, é claro.

*******************

A noite anterior fora boa. Ótima, pra dizer a verdade. A primeira namorada, maravilha, parecia corresponder cada vez mais aos avanços dele. No entanto, ao invés de sorrisos, ela o recebeu com um ar confuso na tarde do dia seguinte:

- Olha aqui, ó! - ela desceu a gola alta, evidenciando uma série de marcas avermelhadas.
- Minha nossa, o que é isso? Alergia? - ele se assustou, já considerando que aquilo pudesse ser contagioso.
- Não, né? Isso aqui é o resultado de ontem, lá no sofá da sua casa, lembra?
- Putz… Se eu soubesse que você fosse ficar assim… Na hora, parecia que você estava gostando…
- Mas eu adorei! O problema é que nem eu sabia que resultaria nisso. E agora?- ela subiu a gola, afoita, suando naquele calor de quase 30 graus.
- Olha, me desculpe… pôxa vida…
- O meu pai, se vir isso, me mata! E mata você também! Você não conhece ele! Meus irmãos também. Sabe o que é ser filha única e mais nova, com três irmãos homens?
- Já sei, vamos fugir!
- Você tá louco? Fugir por causa de uns chupões?
- Ué, porque não? Vamos pra um lugar onde possamos dar chupões um no outro, sem preocupações. Eu e você. Você e eu. Topa?

Meses depois, a polícia os encontrou na cidadezinha de Bodoque do Noroeste, a milhares de quilômetros da casa dos pais. Ela concordou em voltar pra casa mediante uma única condição: que a sua família, em hipótese alguma, pedisse pra abaixar a gola de sua camisa.


Permalink16.09.08, 11:35:43, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Relacionamentos, Sexo 8 comentários

AS DUAS CONVERSAS

Noite em São Paulo. Sentado do meu lado, na van lotada, o rapaz parecia conversar choramingando no celular. De voz triste e com expressões de lamento, ele tentava estabelecer algum nível de entendimento com aquela que parecia ser a sua namorada. Pelo jeito, do outro lado da linha, a moça continuava irredutível a qualquer argumento dele. Assim o lamento do coitado ia ampliando-se a cada palavra gasta e ouvida. Negações pra lá, deixa-dissismos pra cá, não tinha jeito, batalha perdida. Dava dó. A noite dele prometia ser difícil, pensei. Quando ele desligou o celular, naquele clima de alguém que perdeu o pênalti decisivo da Copa, cabisbaixo, imaginei que lágrimas cairiam em mim, tamanho o peso daquele "tchau", pronunciado tremulamente.

No entanto, de imediato, antes que alguma lágrima pudesse pensar em cair, ele ligou pra um outro número:

- Alô, Pedrão? E aê, véi! Belê? Ah, muleeeeque! Sambão, hoje? Opa! A noite promete, rapá! E então, quem vai? É? Putz… A Carlinha não? Caraca! Pô, justo a mais gostosa. Ah, então o negócio é ficar de marcação nas perva mesmo! Pois é, são feia pra carai, mas sabe como é… hehehe

Quando desci no meu ponto, pude ver que ele ainda ria, ria… Felicíssimo. Como se tivesse acertado aquele último pênalti da Copa. Praticidade sentimental é isso aí.


Permalink02.09.08, 23:16:37, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Cotidiano, Relacionamentos 3 comentários

ALÔ, MARCELO?

Meu nome é Marcelo. Grande coisa, ué, você deve estar resmungando agora. Enfim, dias desses, por conta do meu emprego, tive que ligar pra um tal de Marcelo também:

- Alô, Marcelo? - voz de um homem. Como esse cara poderia saber o meu nome? Será que já aguardavam pela minha ligação naquele horário? Estranho isso.
- Sim, quem fala? - respondi, feliz por ter que dispensar apresentações.
- Marcelo? - pô, eu já falei que sou eu! Tá gagá, meu filho?
- Sim.
- Quem fala?
- …
- …
- Então, eu gostaria de falar com o Marcelo.
- Então, Marcelo? - tive vontade de responder algo como "Não, é o Bozo. Papai Papudo está?"
- …
- Você quer falar com quem?
- Com o Marcelo, diga pra ele que é o Marcelo, também.
- Ah, você é Marcelo, também.
- Marcelo? É você?
- Sim? Marcelo?
- Ok, entendi, você é o Marcelo.
- Sim? Marcelo? Exatamente. O que deseja, Marcelo?

Pessoas que respondem ao chamado do nome como se tivessem perguntando pelo mesmo. Mania besta. Definitivamente, sou contra. Quem? Eu, Marcelo? Sim.


Permalink01.09.08, 02:32:09, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Meu Umbigo 4 comentários


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