FARFALHÕES AFIBULADOS
Ele avisou que, naquele papel, estava todo o sentimento que sentia por ela. "É um poema. Escrito à mão mesmo, à moda antiga, pra que a verdade de meu coração seja mais evidente.", avisou, delicadamente. Com uma mal disfarçada discrição, tentando sufocar a ansiedade de enfim ler o primeiro poema que alguém dedicara a ela, respirou fundo antes de pousar seus olhos sobre aquelas palavras. Mas, um momento. Que garranchos eram aqueles? Indecifráveis. Ah, sim. Lembrou de imediato que o seu novo namorado era um médico. Assim, aquilo, que deveria ser um soneto, poderia perfeitamente passar por uma receita médica, não fosse a ausência do carimbo com a assinatura.
"Lindo, lindo! Amei!", disse ela, cobrindo-o de beijos, mesmo não reconhecendo letra alguma daquilo que tentara ler. No fim das contas, vale a intenção, concluiu. "Sério? Gostou? Puxa…", ele reagiu animado, com o sorriso de quem havia concluído com sucesso uma cirurgia delicadíssima. Minutos depois, antes de seguir para mais um plantão, ele prometeu que aquele seria apenas o primeiro de uma série de poemas. E escritos à mão, é claro. "Aiai…", ela engoliu aquela promessa, como se fosse uma ameaça, apesar de deixá-la naturalmente envaidecida.
Parecia que o sucesso daquele primeiro poema havia acordado o lado lírico dele. Agora, todos os dias, escrevia algo pra sua musa, que dava um imenso sorriso toda vez que lia aquelas palavras, mesmo não entendendo coisa alguma daquilo. Garranchos e mais garranchos. Vez ou outra, com muito esforço, conseguia enxergar um "amor" ali. Um "musa" acolá. Ou não? Será? Quem não a conhecesse, ao ver aquela pasta onde guardava os poemas dele, iria imaginar que ela seria uma pessoa muito doente, cheia de receitas médicas.
Semanas depois, cansada de presentear sorrisos e beijos apenas por causa da intenção alheia, ela resolveu acabar com o mistério: o que afinal traziam aqueles garranchos? Seriam eles dignos de um Drummond? Um Neruda? Vinícius de Moraes? Foi ao lugar mais adequado para decifrar tudo aquilo: o balcão da farmácia. Um senhor simpático e paciente a atendeu, concordando em ler alguns dos trechos ali. Com o coração palpitante, como se um baú de tesouros estivesse sendo enfim aberto, ela ouviu com máxima atenção os primeiros versos:
"Farfalhões afibulados me infestam do fastio afã / No fundo, afago o fogo que me fere o falho filho." "Quem me dera musas que de ti resplandecessem ourives / Catadupas em cornucópios circunspectos de aspectos na alcatéia amorfa." "A barca de teu ventre singra o aço de miríades inférteis / Decerto, deuses cospem lírios nefastos no giz de suas retinas."
Hein?
Mais tarde, ao receber o poema daquela noite, ela sorriu, como sempre. Afinal, ele era um bom médico.
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Comentários:
Você nunca me mandou um poema. Muito menos um assim, tão… tão… sem pé nem cabeça. rs
(*magoei*)
E sua letra é linda e legível, mesmo sendo de um veterinário. Ainda bem, já pensou eu tendo de ir em balcões de Pet Shops pra traduzir suas cartas?? ![]()
Amei seu post. A primeira estrofe do poema é perfeita pra se falar com uma farofa Amor na boca. ![]()
(L)
Re: revendo algus textos meus escritos à mão, coisa de uns bons anos atrás, percebo que eu tinha uma letra até que simpática (ou diferente, com alguns rococós, sei lá
. Era uma fase em que eu escrevia poemas, onde, sem impressora, tinha que me virar com a caneta e o papel mesmo. Fase essa que terminou faz um bom tempo, bem antes desse blog existir, quando percebi que meus versos eram, digamos assim… sem pé nem cabeça, coisa de quem tomou LSD e não saiu do surto…
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Hoje em dia, eu acho a minha letra tosquinha, irregular, de tão pouco que recorro ao papel em punho. Eu até já escrevi algo sobre isso, anos atrás.
Farofa na boca com a primeira estrofe? Hum.. vou testar.
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ehehehhe, escreve um poema pra moça poxa!
Isso de mundo moderno acabou com os poemas escritos a mão. eu mesma só email! ![]()
Re: Ah, o mundo pode ser moderno, mas o amor pode ser o mesmo. Ou não?
Jesuis, qual foi a maior complicação?
Sei lá, pela estória, eu seria mais comovida por um médico fazer poema. Esse parece ser o mais delirante.
Depois, com uma pitada de loucuras, haja vista, a coisa incomum, paralela, divertida e muito interessante, tentaria conversar literatura propriamente dita. Como será que ele sairia, hein?
Fiquei curiosa, até!
Re: Guimarães Rosa, por exemplo, era médico. Quanto aos bastidores da história, e do que poderia ter acontecido, deixo a cargo da imaginação de quem lê. Sinta-se à vontade pra dar o destino que quiser então…
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Faz muito tempo que não leio algo tão divertido, parabéns… já adicionei essa página nos favoritos!
Re: opa, volte quando puder.
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ADOREI seu blog. Com certeza vai para os meus favoritos! Um humor muito refinado nesse seu texto! Adorei!
beijos, passarei por aqui sempre
Re: Oi, Jessica. Legal que vc gostou daqui. No momento, o blog anda fraquinho de atualizações. Mas, em breve (vamos ver!) eu voltarei ao velho ritmo. Bj
Fiapo de jaca vicia, doutor?
Não consigo parar de fuçar seus posts! Muuuuito bom!
Abs!
Re: Uau, finalmente alguém teve a paciência pra revirar os arquivos aqui. Continue assim, que minha fase atual, de quase nenhum posts, agradece. No mais, volte sempre, nem que seja pra revisitar coisas minhas de dois anos atrás!
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Tirei cópia e colei lá no repouso médico. Depois os colegas vão fazer comentários!!!
Mas, lendo os comentários, algo me chamou atenção (sim, eu leio até os comentário!): "Sei lá, pela estória, eu seria mais comovida por um médico fazer poema. Esse parece ser o mais delirante."
DELIRANTE???!!!! Onde está o delírio de um médico fazer poemas?
Somos por acaso membros de uma raça alienígena que não tem sentimentos, nem um pouco de candura?? Pelamordedeus... Juro que não entendi essa. Liga não: só tomando as dores da classe.
Mas voltando ao texto, seria possível que o funcionário da farmácia não tenha entendido nada e apenas interpretado à sua maneira a letra do pobre médico metido à poeta? Sendo verdadeiro, corre-se o risco de termos as receitas médicas sendo interpretadas nesta mesma lógica? Que acha?
Será delírio meu, também? hehehehe
Re: Muitos ainda pensam que a profissão inibe outros talentos que não são característicos à ela. No meu caso, várias vezes ouvi algo desse estilo: "Nossa, um veterinário que escreve!" Confundem faculdade com centros de lavagem cerebral, de onde a pessoa sai bitolada com os assuntos da profissão e nada mais. Mesmo não exercendo mais a veterinária, muitos ainda se surpreendem com o meu lado redator. Coisas de nossa sociedade, que ainda acredita no diploma como o único fator determinante de nosso perfil.
Bem pode ser que o farmacêutico fosse um péssimo poeta e quis encaixar a obra dele ali. Taí, é uma possibilidade. rs Bem, sobre o seu delírio, tomara que ele não exista na vida real... Pelo menos quanto aos farmacêuticos que já me atenderam.
E continue acompanhando os comentários. Grande parte da graça aqui está neles.
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