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BATMAN FEIRA DA FRUTA - AINDA O MELHOR
Muito se fala a respeito do novo Batman, com a grande maioria das resenhas abordando o filme como se fosse a última obra-prima da humanidade. No entanto, no meio da chuva de confetes, peço licença para dizer que trata-se de um filme apenas "ok". E aproveito ainda para analisar uma outra obra, baseada no mesmo personagem, subestimada pelo público em geral, equivocadamente classificada como "trash". Estou falando do excelente "Batman - Feira da Fruta", essa sim uma obra-prima que, nos seus vinte e poucos minutos de duração, observada mais de perto, nos revela mais sobre as questões humanas do que todos os filmes de um Bergman, por exemplo.
É de se estranhar que ninguém tenha percebido as inúmeras mensagens que "Batman - Feira da Fruta" apresenta, como se a humanidade tivesse perdido o pouco de sensibilidade que ainda restara nesses tempos brutos que vivemos. Pouco ou quase nada se discutiu a respeito do simbolismo fálico que acompanha toda a obra, peça-chave para o entendimento do restante: a ameaça constante sobre o pênis do herói. Acuado pela obsessão do vilão Coringa em arrancar o simbolo máximo de sua virilidade ("Vô arrancá o pinto do Bátema!"), o homem-morcego acaba vivendo o paradoxo de Stevers-Liewness, cujo conceito oscila entre a necessidade de se preservar da cintura pra baixo e os deveres morais no que se refere à proteção dos mais fracos. Como um personagem trágico, assombrado pelos mesmos fantasmas que trazem o perfil de uma Lorena Bobbit, Batman precisa restabelecer a ordem que ameaça capitular diante de seus olhos, tanto no âmbito físico, quanto no espiritual.
Apesar desses dilemas, ele consegue ainda preservar valores que, sem a devida vigilância, iriam se extingüir nas mãos de uma pessoa com menos autoridade moral. Cabe a ele, por exemplo, zelar pela educação de seu pupilo, Robin, como um mestre que não deixa o discípulo seguir o caminho da degradação ("Modere o seu linguajar, Robin!", diz um paternal Batman, cada vez que ouve um palavrão do seu parceiro.). Nessa constante tensão, digna dos dilemas das obras do consagrado autor franco-alemão Hans Gerbwig, surge o desejo sexual entre o protetor e o protegido, onde o ativo inverte o perfil do passivo e vice-versa. Com o ato prestes a ser consumado, Batman toma para si a responsabilidade de manter a ordem higiênico-sanitária que permeia a relação, ao perguntar para um estranho se o mesmo possui camisinhas, pois fará amor com Robin mais tarde, no fim da noite. Mais reverberativo na consciência do pós-modernismo gótico, impossível.
Outros temas chegam a nós nessa obra, na forma de socos certeiros no estômago de nossos preconceitos. Um dos mais contundentes é a questão da sexualidade na terceira idade, personificada aqui pela tia do herói, uma senhora cuja libido não ficaria atrás da de uma Madame Bovary no cio. Ou então, a de uma Lolita que atravessou os anos com a sexualidade intacta. Todos querem possuí-la. E ela serve a todos, sem distinção, incluindo aí o desvairado Coringa, que fica extasiado ao saber que compartilhará as intimidades de alcova com ela ("Vô comê a tia do Bátema!!! Uhuuuu!!!!", comemora o vilão, feito um Mefisto fanfarrão.) A mensagem aqui é clara: todos podem exercer a sua sexualidade, sem restrições de idade, origem ou caráter. Alfred Kinsey aprovaria a proposta aqui, orgulhosamente.
Enfim, mais linhas seriam necessárias para explicar definitivamente a obra-prima "Batman - Feira da Fruta". Quem sabe alguém se disponha a isso, em um livro com mais de 500 páginas. Esse texto no máximo, procurou alertar para a injustiça com a qual a história vem sendo tratada pelo público em geral, ofuscada no momento por um filme menor, que é o novo Batman nos cinemas. Em "Batman - Cavaleiro das Trevas", vemos um desfile tedioso de clichês que parecem saídos da mente do redator menos inspirado do Zorra Total: vilão implacável versus mocinho mascarado em crise. Novidade zero. Já em "Batman - Feira da Fruta", as alegorias preenchem cada segundo da saga, levantando questionamentos sob óticas que jamais suspeitamos. Genial. E viva o "baile dos enxutos"!
FARFALHÕES AFIBULADOS
Ele avisou que, naquele papel, estava todo o sentimento que sentia por ela. "É um poema. Escrito à mão mesmo, à moda antiga, pra que a verdade de meu coração seja mais evidente.", avisou, delicadamente. Com uma mal disfarçada discrição, tentando sufocar a ansiedade de enfim ler o primeiro poema que alguém dedicara a ela, respirou fundo antes de pousar seus olhos sobre aquelas palavras. Mas, um momento. Que garranchos eram aqueles? Indecifráveis. Ah, sim. Lembrou de imediato que o seu novo namorado era um médico. Assim, aquilo, que deveria ser um soneto, poderia perfeitamente passar por uma receita médica, não fosse a ausência do carimbo com a assinatura.
"Lindo, lindo! Amei!", disse ela, cobrindo-o de beijos, mesmo não reconhecendo letra alguma daquilo que tentara ler. No fim das contas, vale a intenção, concluiu. "Sério? Gostou? Puxa…", ele reagiu animado, com o sorriso de quem havia concluído com sucesso uma cirurgia delicadíssima. Minutos depois, antes de seguir para mais um plantão, ele prometeu que aquele seria apenas o primeiro de uma série de poemas. E escritos à mão, é claro. "Aiai…", ela engoliu aquela promessa, como se fosse uma ameaça, apesar de deixá-la naturalmente envaidecida.
Parecia que o sucesso daquele primeiro poema havia acordado o lado lírico dele. Agora, todos os dias, escrevia algo pra sua musa, que dava um imenso sorriso toda vez que lia aquelas palavras, mesmo não entendendo coisa alguma daquilo. Garranchos e mais garranchos. Vez ou outra, com muito esforço, conseguia enxergar um "amor" ali. Um "musa" acolá. Ou não? Será? Quem não a conhecesse, ao ver aquela pasta onde guardava os poemas dele, iria imaginar que ela seria uma pessoa muito doente, cheia de receitas médicas.
Semanas depois, cansada de presentear sorrisos e beijos apenas por causa da intenção alheia, ela resolveu acabar com o mistério: o que afinal traziam aqueles garranchos? Seriam eles dignos de um Drummond? Um Neruda? Vinícius de Moraes? Foi ao lugar mais adequado para decifrar tudo aquilo: o balcão da farmácia. Um senhor simpático e paciente a atendeu, concordando em ler alguns dos trechos ali. Com o coração palpitante, como se um baú de tesouros estivesse sendo enfim aberto, ela ouviu com máxima atenção os primeiros versos:
"Farfalhões afibulados me infestam do fastio afã / No fundo, afago o fogo que me fere o falho filho." "Quem me dera musas que de ti resplandecessem ourives / Catadupas em cornucópios circunspectos de aspectos na alcatéia amorfa." "A barca de teu ventre singra o aço de miríades inférteis / Decerto, deuses cospem lírios nefastos no giz de suas retinas."
Hein?
Mais tarde, ao receber o poema daquela noite, ela sorriu, como sempre. Afinal, ele era um bom médico.
MULHER MELANCIA? AQUI NÃO!
- Rapaz, sabe uma coisa que eu jamais faria no meu blog? Seria falar na Mulher Melancia.
- Ué, porque não? Tô te estranhando… não gosta mais da coisa? Não curte a Mulher Melancia?
- Até que gosto da Mulher Melancia. Visualmente falando, sabe? Acontece que não concordo muito com essa exposição exagerada. Falam dela como se fosse a fêmea definitiva de nossos tempos… É Mulher Melancia pra lá, Mulher Melancia pra cá… enche o saco!
- Ah, eu não me importo. Por mim, podem falar da Mulher Melancia o dia inteiro, desde que acompanhado de fotos ou vídeo, que não me importo. Nem um pouco. Que venha a Mulher Melancia! Se eu tivesse um blog, como você, eu ficaria de calos nos dedos, de tanto escrever sobre a Mulher Melancia.
- Você seria mais um que faria propaganda de graça pra Mulher Melancia. Cada vez que alguém publica o termo "Mulher Melancia" num blog, o Google já abocanha, contabilizando uma fonte a mais dentre as milhares que já existem para os que buscam por "Mulher Melancia". E você sabe, quanto mais resultados um termo tem no Google, mais popular fica o responsável pelo mesmo. E é isso que vem acontecendo com a Mulher Melancia.
- Que é popular por justo merecimento. A Mulher Melancia merece! E tem outra, já que existe tanta busca no Google pela Mulher Melancia, não seria bom que você escrevesse um texto com bastante "Mulher Melancia" só pra que aumente as chances de seu blog ser encontrado nas buscas? A Mulher Melancia não seria útil nesse sentido, pelo menos?
- Então, meu amigo. Aí é que está a questão em relação à Mulher Melancia. Se eu agisse desse modo, colocando um monte de "Mulher Melancia" até o ponto final, eu estaria ofendendo a inteligência dos leitores que acompanham o meu blog. Leitores esses que, definitivamente, como eu, não agüentam mais ouvir falar da Mulher Melancia. Prefiro continuar com meu estilo, sem apelar para as Mulheres Melancias da vida. Integridade, meu caro, que Mulher Melancia alguma vai arranhar.
- Ok, eu já entendi então, nada de Mulher Melancia no seu blog. Nem que isso signifique mais gente encontrando seus textos pelo Google. Nem que a própria Mulher Melancia, numa ego search, encontre você.
- Exatamente, Mulher Melancia, só nos blogs dos desesperados por visitação. Não escreverei uma linha sequer sobre ela, a Mulher Melancia.
- Uma pena, pois você poderia falar tanta coisa interessante envolvendo a Mulher Melancia.
- O quê de tão interessante eu poderia falar sobre a Mulher Melancia???
- Essa nossa conversa, por exemplo. Eu achei interessante e tem a Mulher Melancia como tema principal.
- Ah, eu falaria sobre o teor do nosso assunto, mas jamais mencionaria o nome da Mulher Melancia. Chega de dar moral no google pra essas celebridades de segunda linha, feito a Mulher Melancia. Pra despistar, ao invés de "Mulher Melancia", eu colocaria outra coisa, sabe?
- Outra coisa no lugar da Mulher Melancia? O quê, por exemplo?
- Ah, sei lá. A Mulher Moranguinho?