AMOR LTDA

O fato dele chegar tarde em casa todos os dias não era a única pulga que a atormentava atrás da orelha. Além disso, depois de literalmente engolir o jantar, ele ia direto para o notebook, de onde ficava teclando durante horas. Assim, dormia pouco e acordava bem cedo. Ela ficava intrigada ao vê-lo sair de casa bem disposto, apesar das poucas horas de sono. Parecia motivado, rumo a um encontro que o animava. "Aí tem", as pulgas atrás da orelha gritavam em coro, cada vez mais. Cansada de mal conversar com o marido, cada vez mais sentindo-se uma figurante na vida dele, viu que era hora de ter AQUELA conversa:

- Luiz Mário, a gente precisa conversar…
- Tá, tá… Mas hoje não vai dar, tenho que responder a uns e-mails do trabalho, que vão me tomar um tempo considerável. Amanhã a gente se fala, pode ser? Amanhã, não. Deixa eu ver… terça que vem, ok? - ele respondeu, ainda mastigando um resto de comida e já encaminhando-se para o notebook.
- Não, não pode ser. Tem que ser hoje!
- Hoje não vai dar, Maria Amélia, eu já falei… os e-mails…
- Sei, os e-mails… sei… Ela gosta das suas mensagens, né?
- Ela quem, Maria Amélia? -
- A sua amante, Luiz Mário. - pronto, chega de ficar calada, ela concluiu.
- Você tá maluca???
- Ah, eu tô maluca? Você não fala comigo há meses. Não comparece mais na cama. Chega tarde todos os dias. E só abre um sorriso quando sai dessa porta pra fora. Você nem se preocupa em disfarçar o seu caso e vem me dizer que estou maluca? Ah, faça-me o favor! Não sou besta, não! Chega!
- Bem, já que você tocou no assunto, é melhor eu abrir o jogo então… - ele disse, levantando-se da cadeira, desligando o notebook. Conversa séria pela frente. Tensa.
- Finalmente! Então, quem é ela? É do trabalho? Da rua?
- Bem, não é exatamente "ela" por quem ando apaixonado… - nisso, a face dela ficou branca. Com as pernas bambas. Teve que se apoiar no braço do sofá.
- Minha nossa! Tá, você é gay!!! Como eu fui burra! Burra! Tava na cara! O seu jeito de cruzar as pernas, o seu modo de pegar no garfo, o…
- Calma, calma! Não é nada disso, Maria Amélia!
- Ué, se não é "ela", só pode ser "ele", Luiz Mário. Se bem que existe algo intermediário… É um travesti?
- Não é uma pessoa… Bem, como eu vou explicar?
- Aiai, é um animal? Zoofilia, Luiz Mário? Faça-me o favor!!! - ela protestou, escandalizada, pegando no colo o poodle deles.
- Olha, não é um ser, entende?
- É um objeto, isso. Li dias desses uma matéria de pessoas que gostam de fazer sexo com objetos. Teve até o caso daquele ator que deu entrada no hospital com uma cenoura entalada lá atrás e…
- Não envolve sexo com nada e com ninguém, entende? É algo sublime… Que vai além da carne, sabe?
- Não, não sei.
- Como vou explicar, é difícil…
- Tente, ora essa.
- Ok, eu estou apaixonado… pelo meu trabalho. Pronto, é isso, Maria Amélia.
- Hein?
- Eu ia pensar numa maneira mais adequada de te explicar isso.
- Trabalho, Luiz Mário? Como assim?
- Eu amo o meu trabalho, de paixão. Não quero saber de mais nada.
- Nem de mim?
- De ninguém. Não quero mais perder o meu tempo com coisas irrelevantes.
- Como o nosso casamento?
- Sim.

Seguiu-se um longo discurso dele a respeito dos pontos mais interessantes de seu trabalho. Comovido, disse, entre lágrimas, que hoje mesmo tinha entregado uma planilha perfeita, que mostrava a evolução da gestão financeira do segunto trimestre, concluindo que o momento era de apostar no investment grade das filiais asiáticas da empresa. No mais, os olhos brilhavam, fascinados a cada menção de estratégia bem-sucedida que ajudara a construir nos últimos meses. "Apaixonante, não?"

- Tá, e agora, o que fazemos? - ela perguntou, ainda desconcertada.
- Você fica aqui, levando a sua vida. E eu, no escritório.
- Você vai dormir lá?
- Ué, porque não? É lá que vejo a minha vida fazer sentido. É lá que tenho vivido os momentos mais felizes da minha existência. - ele admitiu, enquanto lançava um olhar terno para o seu notebook.
- Eu quero o divórcio! Chega!
- Tudo bem. - concordou, impassível.
- Olha, pra mim, você não existe mais. Se quiser, pode ir agora mesmo pro escritório. - ela disse, com um ar de desprezo.
- Hum… Não seria má idéia… Eu já tenho a chave de lá…
- Então vai, Luiz Mário! VAI!
- Putz… hoje não vai dar.
- O que foi?
- Os e-mails, lembra? É muita coisa. Vou perder muito tempo daqui até a empresa. Bem, com licença.

E lá foi ele para o notebook, com aquele olhar de colegial fascinado pelo primeiro amor.


Permalink29.06.08, 21:56:47, by Tuca Hernandes Email , Relacionamentos, Trabalho 4 comentários



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Comentários:


Comentário de: Kandy · http://ideiasnajanela.blogspot.com

Puxa, como eu queria estar no lugar desse cara, pelo menos pra poder dizer que estou apaixonada pelo meu trabalho. Sou uma apaixonada pela minha profissão, sim, mas, ultimamente, tenho me sentido ao contrário do protagonista do seu texto: minha vontade é mesmo ficar em casa!



Re: Oi, Kandy. Eu conheço esse dilema: de amar o ofício, mas não o lugar onde o mesmo é realizado. Ou a forma como o mesmo deve ser executado. Dureza, não? <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_sad.gif" alt=":(" />




PermalinkPermalink 29.06.08 @ 23:17



Comentário de: Ricardo

Li com carinho a estória e fiquei esperando o desfecho, q todos conhecemos, amor não correspondido, ou pelo menos não levado tão a sério, pois, empresas e empresários não tem sentimentos e se o protagonista q aceitou o divórcio como a coisa mais natural do mundo, como será que ele ficaria ou ficará quando for despedido?
Ficção, dá até para rir um pouco, mas é tão parecido com a vida real que fica relamente faltando o final feliz…

Re: olha, quanto aos extras do post (na parte de cenas deletadas), o cara, depois de ser despedido, acaba tendo uma iluminação, tornando-se um ativista que luta pelos direitos humanos das comunidades ribeirinhas do Rio Tapajós. O cara gostará tanto de sua nova atividade que acabará… se apaixonando por ela. E etc e tal


PermalinkPermalink 02.07.08 @ 15:49



Comentário de: Gabriela · http://talt--gabi.deviantart.com

Muuuuuuuuuuito bom! Cara, é de sua autoria? Adorei, tem um quê de Veríssimo…


Re: Sim, minha autoria. Veríssimo? Pô… E eu aqui, tentando seguir o estilo do mestre supremo Paulo Coelho… Se gostou, volte sempre! <img src="/blogs/rsc/smilies/graybigrazz.gif" alt=":P" />


PermalinkPermalink 02.07.08 @ 20:21



Comentário de: Ane

Olha, vou ter que mandar esse teu post pro meu namorado ler. É só uma medida profilática. Ele anda tão focado no trabalho, que não custa nada mostrar a ele onde isso pode dar, rsrsrs. Ótimo texto!
Abs!

Re: bem, se ele tiver tempo pra ler um texto que não seja relacionado ao trabalho dele, maravilha!


PermalinkPermalink 24.07.08 @ 22:23



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