HOMEWORKING
Maravilha, mais um carro acabara de estacionar perto dele. Ao trabalho então:
- Patrão, chefia! Posso dar uma olhadinha no carro aí?
- Hein, como assim?
- É chefe… uma olhadinha. Quando o senhor voltar, me dá uns três real de agradecimento, belezinha?
- Mas de jeito nenhum, imagina! Pirou, é?
- Ô patrão, uns dois real então, vai…
- NÃO! Nem um centavo!!!
- Ih… Beleza então. Ó, não garanto nada, beleza? Se aparecer um amassado na lataria, o rádio sumir, essas coisas, pobrema do senhor então…
- Ah, você está me ameaçando?
- Ih… chefia, longe de mim, imagina… só tô avisando. Sabe como é…
- Sei, sei…
- Então, uma olhadinha, tranqüilo?
- Eu disse NÃO!!! NÃO!!! Que absurdo, que absurdo… A que ponto chegamos… Quanto abuso!!!
- Ih, calma, tio…
- Como, calma? Eu acabo de estacionar o meu carro na MINHA vaga de garagem, NO PRÉDIO ONDE MORO, e me vem um flanelinha encher o meu saco, até aqui??? Até aqui???
- Ih, mais um nervosinho… É o quarto que encontro hoje. Ô dia…
- Aliás, quem deixou você entrar aqui??? Já sei, deixaram o portão da garagem aberto.
- Nem. Eu moro aqui, chefia.
- Na garagem?
- Não, no prédio. Prazer, Renato Sanchez, apartamento 95, filho da Dona Eulália e do Seu Geremias. Então, posso dar uma olhadinha no possante aí?
- NÃO, cacete!!!
- Ih…
- Você não tem o que fazer, não, moleque?
- Tenho, ué. Guardar carros, na maior honestidade, firmeza total.
- E porque você não faz isso na rua?
- Olha, doutor, eu até que tentei, mas tá difícil de encontrar vaga como flanelinha lá fora. Muita gente, sabe?
- É… tenho percebido isso. Tá demais.
- Então, enquanto não surge um ponto vago, vou ficando por aqui mesmo, trampando em casa.
- Em casa?
- É, homeworking, tá ligado?
- Sei… Mas saiba que, de mim, você não vai conseguir um único centavo! Imagina, já pago uma fortuna com o condomínio.
- Beleza então… não quer que eu dê uma olhadinha, mesmo?
- Eu já disse que NÃO!!!
- Então tá… É fogo morar num país onde a juventude não tem o valor do seu trabalho reconhecido, viu?
- Que trabalho???
- Deixa pra lá, chefia. Já entendi. Vamo fazer o seguinte: eu tomo conta do carro do senhor mesmo assim, de coração. Comigo aqui, ninguém encosta nele. Firmeza então?
- Não precisa, cacete…
- Olha, amanhã, se o senhor quiser, pode deixar uns troquinhos em reconhecimento da minha boa vontade, tá ligado?
- Vai sonhando, vai. Agora dá licença, que chegou o meu elevador.
- Fica tranqüilo, doutor, que nóis é trabalhador, sangue bom. Vai na paz!
- Tá, tá… tchau.
Tudo bem, sem ressentimentos, concluiu mais tarde o neo-flanelinha, deixando o caco de vidro no bolso. Dessa vez, como prova de sua gentileza, ao invés da lataria do carro, só iria arranhar a porta do apartamento do muquirana. Mas de leve, tá ligado?
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Comentários:
Será que chegaremos nesse ponto?!
Benzadeus!
Re: ah, estamos bem pertinho disso.
Me diz que isso é só ficção! Por favor!!!
Socorro viu!
Re: ah, desencana, é só dar dois reais pro bacana, que beleza, mano.
apesar do título do blog, o texto foi gostoso.
história bacana, man
abraço
Re: opa, boa digestão então! Valeu!
Nooossa tá louco
!Vou ter que atacar de flanelinha tsmbém por que tá difícil arrumar emprego viu…hehehehehehe
Re: ah, se bobear, dependendo da rua, deve rolar até análise de currículo pra uma eventual admissão. Não tenha muitas esperanças…
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Cara!!! Isso que é Brasil !!! Tah loko….
Re: é, tá loko!
Tá certo. Mó firmeza o baguio. Tem que trampa na hontestidade, tá ligado. Novo nicho, tá ligado?
Só!
T§
Re: issaí, tamo na atividade, truta. Abraço nas muié daí, chegado! Valentina, firmeza total, mano.
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