A RAVE DOS QUE NÃO FORAM

Passei da fase de ficar criticando o gosto musical alheio. Bem, pelo menos publicamente. Por mim, se a pessoa quiser curtir uma maratona de bandas que misturem funk batidão, pagode melacueca, breganejo cornualho e axé pornográfico, tudo bem. Cada um sabe o ouvido que tem. A minha bronca é quando resolvem empurrar pra dentro de meus tímpanos esses estilos, sem o meu consentimento. Sabe aquela clássica cena de um grupinho que encosta na porta do boteco, abre o capô do carro e manda ver nos decibéis daquele hit parade dos infernos? Pois é. Se por um dia eu fosse um ditador com poderes ilimitados, além de aproveitar pra acabar com todos os saquinhos de queijo ralado do mundo, eu jogaria esse tipo de gente em uma sala onde só tocasse música clássica, no último volume. Vinte e quatro horas de tortura, sem intervalos.

(Antes que você conclua qualquer coisa, eu também não curto música clássica. Mas dei esse exemplo apenas pra criar uma espécie de contraste, entendeu? Não? Deixa pra lá, tudo bem, voltemos ao texto.)

Uma bela amostra desse povo estava alguns sábados atrás na vizinhança de minha namorada. O motivo pra reunião era a comemoração de um aniversário. Até aí, tudo bem. O problema é que vieram com uma aparelhagem de som digna de, presumo eu, animar um megashow no estádio do Maracanã. As caixas de som, todas voltadas para a rua. Dessa forma, era possível sentir os vidros da casa vibrando, às três da madrugada, ora por causa do batidão da Lacraia e Cia, ora devido a um putz-putz digno de agitar o vira-vira de sucos de um dos episódios da Malhação. Vale ressaltar, mais uma vez: às três da madrugada. Aquela barulheira numa danceteria, tudo bem. Agora, na vizinhança, sem o consentimento de quem não estava na festa, não. Incomodado com a cara-de-pau alheia, recorri a um procedimento básico: liguei pra polícia. Hehe

Pra minha perplexidade, recebi como resposta uma mensagem gravada: "No momento, o sistema da polícia está sobrecarregado. Favor…". Como assim? Se algum assaltante estiver tentando entrar na minha casa, paciência, que o sistema está sobrecarregado? No espaço de uma hora ou mais, tentei várias vezes, e sempre a mesma mensagem: "No momento, o sistema da polícia está sobrecarregado. Favor…". Favor, favor… favor o quê, cacete? Nem quis ouvir o resto. Parecia piada exigir paciência naquela situação. Vendo os vidros das janelas vibrarem ao som do batidão, concluí que eu queria mais do que nunca ir pra um lugar onde a polícia não estivesse falida. Suíça? A Patrícia, minha namorada, concordava comigo, mal humorada também.

Umas quatro e pouco da madrugada, resolvi ligar novamente pro 190, inconformado. A mesma mensagem, novamente. Dessa vez, decidi ouvir o resto: "No momento, o sistema da polícia está sobrecarregado. Favor cooperar com o atendente com informações precisas sobre o local em que você está, de forma que possamos ajudá-lo da melhor maneira possível." Logo em seguida, uns dois segundos após o fim da mensagem, veio o atendente em si, eficiente e solícito, exatamente da forma que eu imaginava que funcionasse na Suíça. Dez minutos depois, a rua silenciava, enfim. Não fosse a minha notória impaciência com mensagens de telefone, os hômi teriam acabado com aquela rave da Tati Quebra Barraco bem mais cedo. Toma!

Já quase amanhecendo, quando enfim eu começava a sonhar, toca o telefone. Assustado, vou atender. Era apenas uma moça da polícia querendo saber se o barulho da rua tinha parado e que, qualquer coisa, era só acioná-los novamente. Putz. Fim do sono, mais uma vez.

Na hora do almoço do dia seguinte, revoltados com os vizinhos folgados, que certamente deviam estar dormindo, eu e a Patrícia resolvemos dar o troco. Numa casa de fogos ali perto, cada um comprou a maior bomba que tinha. Calmamente, numa frieza de um agente da Al Qaeda, chegamos na frente do portão, acendemos os pavios e jogamos os morteiros naquela garagem que funcionara como danceteria improvisada na madrugada anterior. Enquanto os pavios iam diminuindo, corremos pra casa dela. O estrondo ensurdecedor arrancou aquela gargalhada gostosa de vingança da gente. Nos abraçamos, nos beijamos e concluímos que, sim, a vida pode ser bela.

Ps: Esse último parágrafo é de mentirinha, é claro. Não resisti, ora essa. O resto, é tudo verdade…


Permalink12.02.08, 22:20:16, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Música, Meu Umbigo 5 comentários



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Comentários:


Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com

Que coisa… dia desse tava tendo algo parecido aqui na vizinhança. Mas ao ligar para a polícia, eles disseram que só poderiam intervir se eu fosse junto com eles lá na balbúrdia, pois eles estavam fazendo barulho dentro da casa deles, e não na rua… Tive que aturar o barulho, porque não quis me arriscar a dar a cara lá não!



E por que vc quer acabar com os saquinho de queijo ralado? Adoro!


PermalinkPermalink 13.02.08 @ 15:24



Comentário de: Claudia Lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

Ai, puxa… sério que é mentira? Ah… já ia parabenizar vocês dois!


Ps - saudade de sua namorada… cê sabe que "amo ela", num sabe?


PermalinkPermalink 13.02.08 @ 17:46



Comentário de: Bia Cardoso · http://groselha.wordpress.com

hahahaha… ao ler o último parágrafo já imaginei uma versão ultra moderna de Bonnie e Clyde, jovens terroristas.


PermalinkPermalink 13.02.08 @ 19:55



Comentário de: Danielle

Ah! Eu não acredito que vocês não fizeram isso!!!


PermalinkPermalink 17.02.08 @ 17:33



Comentário de: Claudina

Me lembrou aquela propaganda maravilhosa do Doritos, com o carinho abrindo o porta-malas tunado e levando as mãos para o céu numa típica saudação de "eu sou o cara"...
http://clubedapropaganda.net/doritos-tunado/
hahahahahahhahahhaa

Da próxima vez, faz a gentileza de soltar os morteiros DE VERDADE!

Re: Agora não precisa mais, pois não durmo mais por lá. rs

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 22:51



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