TUDO PELO FUTURO
Era impressionante a popularidade do Freitas em tudo quanto era festinha infantil. Nem o palhaço do buffet conseguia chamar tanta atenção assim. Ele era o herói da molecada, o tiozão perfeito. O Pacheco estava intrigado:
- Freitas, eu nunca vi um cara que gostasse tanto de crianças quanto você. Incrível.
- Pois é…
- Nas festas de aniversário dos filhos lá do pessoal do escritório, como a de hoje, só dá você, rapaz!
- Exagero seu, Pacheco…
- É verdade. Hoje, enquanto você não chegava, eu não parava de ouvir a criançada perguntando por aí: "Cadê o tio Freitas? Cadê? Ele já chegou?" Rapaz, você é um fenômeno! Um fenômeno!
Nisso, chega o Pedrinho, quatro anos, o caçula do gerente da contabilidade, Pedrão. Com uma careta, ele olha para o Freitas e dá um chute na canela dele, correndo logo em seguida, rumo ao pula-pula. O Freitas continua ali, impassível, exibindo um sorriso prejudicado por uma expressão de dor. O Pacheco não se conteve:
- Olha aí. O menino te chuta na canela e você faz essa cara de compreensivo!
- Ah, não foi nada. Coisas de criança…
- Como assim? Se fosse comigo, eu já teria dado um peteleco nesse moleque. Eu não sou tão compreensivo assim, como você. Paciência tem limite.
- Ah, deixa pra lá, Pacheco… O menino está se expressando, só isso…
- Sei… sei… só um cara como você, que adora crianças, pra pensar assim…
- Ué, você não gosta de crianças? - perguntou o Freitas, enquanto passava a mão na cabeça de uma loirinha lambuzada de bolo.
- Odeio. Só venho nessas festinhas por causa do pessoal do escritório. Só pra não ficar chato, sabe?
- Ufa, então posso me abrir com você.
- Como assim?
O Freitas fez um gesto, indicando que a conversa continuaria num canto mais reservado do buffet, onde poderiam ter mais privacidade. Com um suspiro, ele desabafou:
- Eu odeio crianças também.
- Como assim? Tá de brincadeira comigo? Você??? Ah, conta outra, vai… - ria o Pacheco, quase gargalhando.
- É sério. Às vezes, me pego imaginando que sou uma espécie de reencarnação de Herodes, tamanha a antipatia que sinto por essas criaturas…
- Mas… como assim? Eu sempre te vejo bem à vontade no meio da criançada, agitando, cantando de cor todas as musiquinhas da moda, dando os melhores presentes e…
- Ah, isso não quer dizer nada, Pacheco. É tudo encenação! Encenação! Tenho que pensar no meu futuro, meu caro…
- No seu futuro? Não estou entendendo…
- É isso aí. Vem cá, você já viu como os pais têm preparado essa criançada para a vida adulta? O Carlinhos ali, por exemplo, aquele loirinho, filho da Shirley do RH.
- O que tem ele?
- Ele mal completou sete anos e já sabe falar inglês, Pacheco! Fluentemente! Os pais dele o matricularam em tudo quanto é curso, de informática a culinária! Hoje em dia, o mundo tá cheio de crianças que nem o Carlinhos. Verdadeiros projetos de adultos vencedores!
- Tá, e daí?
- Como e daí, Pacheco? Esse moleque, aos vinte e pouco anos, quando sair da faculdade, já será um líder nato, desses que sabem de tudo, que falam mais de cinco línguas, essas coisas. E eu, serei apenas um senhor ultrapassado, sem condições de competir com essa molecada na vida profissional.
- Por isso que você trata todos eles bem?
- É claro, rapaz! Daqui uns anos, quando quiserem tomar o meu lugar no mercado de trabalho, ao invés de me despedirem, olharão pra mim e falarão algo no estilo "O tio Freitas é legal! Esse merece uma chance!".
- Será?
- Não tenho dúvidas! Eu quero causar uma boa impressão nessa molecada, desde cedo, de forma que eu fique positivamente no inconsciente delas, entende?
- Interessante… é uma espécie de networking. Networking infantil.
- Isso, eu faço é networking com a criançada, sem eles saberem. Tenho que me enturmar. Eu até comprei o Cd do "Pato Pereba", pra decorar todas as músicas dele. Ai, ai… Tenho que voltar pro meio desses malas. Tão me chamando pra participar da dança das cadeiras… - de súbito, o sorriso do tiozão legal voltou.
- Vai lá, rapaz… vai lá… networking infantil…
- É isso aí. Olha, tudo que te falei é segredo, hein? Bico calado, por favor… - nisso, duas meninas e três meninos já o puxavam, agarrados a ele como carrapatos.
- Pode deixar… Ah, Freitas, você me faria um favor?
- Fala…
- Tem como me emprestar o Cd do "Pato Pereba"?
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Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!
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kkkkkkkkkkkkkk…
pior que é verdade… eu mal arranho o inglês de escola…
Re: te cuida!
Vixi, sei lá se vale a pena… Muito sacrifício…
Re: tudo dependerá do target no job que vc escolher, sabe?
Caraca, aturar criança pensando no futuro profissional é uma grande sacada!!! Mas, putz, tô passando…
Re: pô, justo vc, que já adquiriu bastante experiência nesse departamento?
Putz!!! Que viagem a do tiozão!! Adoro esses textos, cara! Você é um prodígio em criar histórias assim… um Veríssimo, talvez! Parabéns o/
Se, um dia, virar um cartunista de sucesso, quer ser meu roteirista??? É sério! rsss
Abraços o/
Re: valeu! Bem, qualquer coisa, diga pro seu empresário entrar em contato com o meu, ok?
Gostei das suas tiras. Continue por aí!
huhuhhuhu
eu quase me mato pra consigui aprende no curso
esses muleque de hjoje em dia ja fala mais que uito marmanjo
=]
Re: ei, vc escreveu errado. Não é "muleque", mas sim "muleki"…
Além de não saber arrotar, sou péssima nessa coisa de networking, ou seja, uma imprestável.
Mas, no jeito que anda o mundo, essa sua crônica vai se concretizar, visionário Tuca…
Re: digamos que eu seria algo perto daquilo que eu imaginava vir a ser na minha idade se eu tivesse adquirido habilidade no desenvolvimento desse tal "networking"…
Tuca, cada vez que venho aqui me deparo com uma idéia fantástica, e escrita com primazia. Muito bom.
Re: Ricardo, vc é muito generoso. Obrigado!
Olá!!Seu blog está mto bom com ótimos temas!!!
continue assim!!Sucessos

