JOCA MALUCO


Meio mundo adorava o Joca Maluco. O restante, não o suportava. De qualquer forma, era difícil ignorar aquele rapaz que fazia de tudo pra chamar a atenção dos outros. Nas festas, havia aquela expectativa sobre qual seria a maluquice da vez, razão de conversas sem fim nos dias seguintes. "Você viu o que o Joca Maluco aprontou? Rapaz, dessa vez ele se superou". Parecia que ele vivia disputando consigo mesmo os limites da arte do exibicionismo. Incomparável.

Arrependimento não era um sentimento que fazia parte de sua vida. Mesmo quando suas gracinhas chegavam a machucá-lo. Como da vez em que ficou de sunga, no meio da praia, fazendo a coreografia da "Dança da Boquinha da Garrafa" apoiado numa perna só, como um saci. Num dado momento, desequilibrou-se, caindo bem em cima do gargalo da garrafa. Entrou no Pronto Socorro dando risadas, momentos antes dos médicos desentalarem o artefato enfiado em seu traseiro, numa cirurgia que lhe custou cinco dias de internação. E ele ali, achando graça da situação. Nada o abalava.

A mulherada gargalhava fácil com ele, irresistível para aquelas que adoravam homens palhaços, desses que não perdoam situação alguma. Perigoso. Felizes daquelas que se contentavam apenas com uns amassos e nada mais. Coitadas das que se apaixonavam por ele, iludidas por aqueles beijos intercalados com piadas infames. O Joca Maluco não era de ninguém. Era dos holofotes.

Adorava responder aos desafios que bolavam pra ele:
- Joca, duvido que você coma esse prato cheio de pimenta malagueta.
- Duvida? Olha que eu como, hein? - ele respondia, fazendo um certo charme.
- Ah, imagina, você não é homem pra isso!
- Não sou? Olha isso então! - e lá ia ele, devorando todo o conteúdo do prato, como se estivesse comendo uma tigeja de sucrilhos, com lágrimas nos olhos. Tudo pela quebra de limites em seu Guinness particular.

O tempo foi passando e nada do Joca Maluco tomar jeito. Quase todos da turma se casaram, tiveram filhos, estabilizaram-se no emprego. Apesar de ganhar bem, por ser um ótimo vendedor na empresa em que trabalhava, em grande parte devido à cara-de-pau sem precedentes, ele continuava o mesmo Joca Maluco nos eventos em que a velha turma se encontrava. Aquilo começou a cansar. Deja vu demais. Ninguém mais achava graça nele:

- Ih, olha lá o Joca Maluco dançando Macarena em slow motion, enquanto toma um banho de coca-cola…

- Putz, de novo? Eu, hein? Esse cara não cresce? Que coisa…

Aos poucos, foram deixando de convidá-lo pros churrascos. O contato foi minguando, até que ninguém mais tivesse notícias dele. Que ficasse na Terra do Nunca, ora essa.

Mas, anos depois, aconteceu o inevitável: começaram a sentir falta dele. O pessoal, cada vez mais saudosista, invariavelmente mencionava alguma das estórias do Joca Maluco. O passado o absolvera. Algumas vezes, ficavam horas e horas falando dele, gargalhando até perder o fôlego. Como não lembrar, por exemplo, daquela vez em que ele participou de um culto na Igreja Universal, fingindo que tinha um encosto, só pra aparecer na televisão com a cara toda quadriculada? E daquela vez em que ele, numa festa a fantasia, vestido apenas de cueca e uma capa de chuva transparente, alegou estar de "Homem-Invisível"? E por aí vai. Estavam com saudades dele. Queriam que ele participasse da próxima festa de aniversário. Vejam só, a volta do Joca Maluco!

Contato aqui, contato dali, o encontraram. Nem fazia tanto tempo assim que o viram pela última vez. Ele veio com a noiva. O quê? O Joca Maluco se casaria? Essa era boa. Como em inúmeras vezes, ele começou discreto, conversando normalmente com todos. A noiva ali, enturmando-se, ao lado dele. Simpática a moça, ainda bem, sem jeito de ser dessas que anulam a personalidade do companheiro. Algumas horas depois, acharam que já era o momento de trazer à tona o bom e velho Joca Maluco. Era hora de provocá-lo:

- Joca, duvido que você consiga beber cerveja plantando bananeira. Como você fazia em toda festa, lembra? DUVIDO!

- Ah, pode continuar duvidando. Isso é coisa do passado.
-….
- Joca, olha esse prato de pimenta aqui. Duvido que você consiga comer tudo isso, em 15 segundos. Duvido! Você não é homem pra isso!
- Ah, pra isso, não sou mesmo!

-…

Ficaram testando ele até o fim do encontro. Nada. Tentaram de tudo, em vão. Que coisa… Ele não tinha virado fanático religioso. A noiva, de uma simpatia só, certamente não era dessas castradoras. Ele, João Carlos, parecia bem a vontade com tudo aquilo, apenas rindo quando alguém desenterrava algumas de suas estórias absurdas, do passado, bem lá atrás. "Eu era terrível mesmo…hehehe" Despediu-se de todos como um cara normal, distribuindo convites pro casamento. Até o último segundo, ninguém gargalhou com ele, como nos velhos tempos. Acontecera algo estranho com o Joca Maluco. Era como se ele tivesse virado o traidor de um movimento que todos ali queriam resgatar. Ele… crescera. Finalmente, como todos ali. Não era mais o Joca Maluco. Era um impostor. Decepção geral.

E nunca mais voltaram a convidá-lo pra evento algum.


Permalink07.11.07, 11:45:37, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Amizade 6 comentários



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Comentários:


Comentário de: Claudia Lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

Ixi… nem vou dizer que já vivi meu dia de Joca Maluco-decepcionando-a-galera. Triste ter que, pra sempre, manter um mesmo personagem,né?


Re: vc já fez coisas como beber cerveja plantando bananeira? Uau.


PermalinkPermalink 07.11.07 @ 17:25



Comentário de: Trotta · http://trottolices.blogspot.com/


O Joca Maluco, por um acaso, não era parente do Fun Bob, era? O Fun Bob era um dos namorados da Monica do Friends, sabe? Hehehe! ^_^


Re: Pô, agora fiquei curioso pra conhecer esse cara…


PermalinkPermalink 07.11.07 @ 21:33



Comentário de: el_poland · http://www.estouentediado.com

Já tive meus dias de Joca Maluco. É legal, todo mundo gosta, mas no final das contas vc fica sendo o bobo da corte da galera.


O showbizz é cruel.



Re: sim, as pessoas começam a te olhar com aquela cara de quem está ouvindo um disco riscado…


PermalinkPermalink 08.11.07 @ 10:35



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com

Ah, mas que pessoal mais insatisfeito!! Cansaram do Joca, mas depois queriam ele de volta…
Ser humano é assim, né?

Re: o tempo perdoa as pessoas, filtrando tudo aquilo que causou tédio ou desconforto no passado. Assim, surge a saudade.


PermalinkPermalink 08.11.07 @ 18:50



Comentário de: Ricardo · http://rickbandeirante.wordpress.com

Lembrei do Engraçado Arrependido, um conto fabuloso do Lobato.


PermalinkPermalink 30.11.07 @ 19:54



Comentário de: EAD · http://www.ead.feuc.br

Blog nota 10 parabéns!!!


PermalinkPermalink 03.12.07 @ 16:40



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