EU, O NÁUFRAGO
Eu tinha vinte e poucos anos e morava sozinho em Jaguariúna, uma cidadezinha do interior de São Paulo. Recém-saído da faculdade, sem namorada, longe dos amigos do peito, da família, pouca grana, vida social zero. Uma angústia só. Nada ali me lembrava o ar universitário com o qual eu me acostumara nos cinco anos anteriores. Depois de meses sem conversas interessantes, cheguei a cogitar a criação de um amigo imaginário, da mesma forma que o Tom Hanks fez naquele filme, "O Náufrago". O meu Wilson seria um ovo de avestruz vazio, pintado com canetinha mesmo. A coisa estava feia. SOS.
Antes que eu pirasse de vez em minha ilha particular, consegui fazer amizade com um casal de namorados, vizinhos meus no horário comercial. Os dois, bem novinhos, davam aulas numa escola de informática que ficava ao lado de minha casa. Após dias de belas conversas, de tanto ouvir meus lamentos sobre o tédio daquela cidade, o rapaz decidiu me convidar pra festa de aniversário da irmã dele. Aceitei no ato, já imaginando a libertação que seria aquele evento. De antemão, eu decidi que iria beber feito uma esponja, chegando junto de tudo quanto era mulher desacompanhada e minimamente mais ou menos que estivesse por ali. Se bobear, nem a aniversariante eu perdoaria. Eu tinha muito tempo perdido pra recuperar. A coisa prometia.
No dia aguardado, acordei com aquela expectativa que ronda o centroavante nas horas que antecedem a final da Copa do Mundo. Fazia um belo domingo de primavera, desses sem nuvens. Ideal pra um churrasco. Bem, só poderia ser um churrasco, vide o horário marcado pro início daquela festa, duas da tarde. Pontualmente, munido de meu melhor perfume, apertei a campainha da casa do meu novo amigo. Quando ele abriu a porta, estranhei a ausência do cheiro de churrasco. Estranhei mais ainda a ausência dos amigos e, principalmente, das amigas dele. Ninguém. Tudo que vi foram os pais e umas tias ao redor da enorme TV da sala, sintonizada no Domingão do Faustão.
Em estado de choque, fui apresentado à aniversariante, que completava 5 anos naquele dia.
Me cederam um espaço no sofá, o que talvez fosse uma honra, por eu ser a única pessoa de fora ali. O clima era amistoso, em grande parte por causa das gargalhadas arrancadas pelas pegadinhas e videocassetadas - Ô loco, meu! Pelo jeito, só eu ali não dava risada de verdade. No máximo, um sorriso amarelo, pra não ficar chato. De conversas mesmo, nada. Tudo bem, ninguém ali teria nada de interessante pra falar mesmo, considerei. Ah, nada como umas cervejas pra suportar tudo aquilo. Infelizmente, estavam em falta, também. Sem churrasco, cerveja, e mulher. Considerando-se a fase que eu vivia, uma tragédia, sem dúvida alguma.
Enquanto eu comia meu sanduíche de carne louca, bebericando meu guaraná, o programa do Faustão deu uma pausa pra uma partida de futebol. Resolveram colocar no Domingo Legal, do Gugu. Ôpa, maravilha, era a hora da banheira. Até que enfim alguma emoção ali, ora essa. Que nada, aquela era uma família que preservava a moral e os bons costumes, nada daquela baixaria ali. Com a TV desligada, não restava nada a não ser cantar os parabéns. Antes, uma das tias pediu a palavra:
- Gente, toda vez que uma criança faz aniversário, é o Menino Jesus que aniversaria também! Então, vamos aplaudir os aniversarianteeeees!!!! - eu aplaudi também, é claro, como não?
Enquanto eu comia o bolo, sugeri pro meu casal de amigos que a gente fosse dar uma saída, pra aproveitar o resto daquele domingo bonito. Tomar umas cervejas, encontrar um pessoal jovem e maior de idade, essas coisas. Eu ainda tinha minhas esperanças. Eles concordaram, não sem antes voltarem novamente para o sofá, de forma a acompanharem, com o resto da família, mais uma rodada de pegadinhas e videocassetadas, agora no programa do Gugu. Fiz menção de ir embora, já visivelmente impaciente. Os dois pediram que eu esperasse um pouquinho mais, enquanto enxugavam as lágrimas das gargalhadas que todos ali compartilhavam.
Uma hora depois, estávamos no carro do rapaz, rumo ao "centro jovem da cidade", uma avenida que ficava lotada aos domingos, perto de minha casa. Encostaram o carro em um posto, desses com loja de conveniência. Imediatamente, fui comprar umas cervejas - finalmente! Dos amigos do casal que estavam lá - todos casais também - ninguém quis uma latinha sequer. Assim, no fim da tarde, lá estava eu, bebericando minha cerveja, no meio daquele pessoal de papo tão empolgante quanto discurso de telemarketing as sete da manhã. Sobravam frases econômicas, entremeadas por "é…", "só…", "pois é…". Nem deu meia hora ali, o meu amigo disse que precisaria ir embora, com a namorada a tiracolo.
- Ué, já??? - perguntei, surpreso
- É que a gente precisa se preparar pra ir na missa, mais tarde… - o rapaz respondeu.
Me despedi deles como um náufrago que volta pra ilha, desses derrotados por terem confundindo a nuvem do horizonte com um navio de resgate. De volta à estaca zero, definitivamente. Entrei na loja de conveniência, comprei mais umas dez cervejas, e fui pra casa. Umas horas depois, eu bebia a última gota, da última latinha, ao som de Rolling Stones, no último volume. Dançando e cantando feito um alucinado, por toda a casa, como que exorcizando todo o silêncio careta daqueles novos tempos. É, vinte e poucos anos. Oh, yeah!
*************
E que tal:
- Ver (ou rever) dois vídeos? O primeiro é o ultra-mega-tosco "Thriller da Índia". O outro, o primeiro episódio da saga de "Chad Vader", o irmão do Darth Vader.
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Comentários:
Por isso que eu digo: se existe o céu, bem… não sei se ele deve ser lá muito divertido, não. Essas pessoas tão cheias de santidade às vezes parece que simplesmente são assim por falta de vocação para pecados divertidos.
Re: No céu desse pessoal deve ter uma enorme TV de plasma que transmite uma interminável reprise de videocassetadas e pegadinhas. Um inferno isso!
Por isso que eu digo: se existe o céu, bem… não sei se ele deve ser lá muito divertido, não. Essas pessoas tão cheias de santidade às vezes parece que simplesmente são assim por falta de vocação para pecados divertidos.
Re: No céu desse pessoal deve ter uma enorme TV de plasma que transmite uma interminável reprise de videocassetadas e pegadinhas. Um inferno isso!
Alessandra, se no céu o predominante for este tipo de gente, prefiro ficar num caldeirão do inferno fácil fácil… ![]()
Ai, espero que este tipo de situação tenha sido cada vez mais raro na sua vida desde que você veio pra cidade grande…
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Re: Ah, sim. Mesmo nos momentos solitários daqui, não tive que apelar pra ficar amigo de pessoas que dão festas estranhas com gente esquisita. Por aqui, cinemas e cia sempre me salvaram, na falta de pessoas…
Alessandra, se no céu o predominante for este tipo de gente, prefiro ficar num caldeirão do inferno fácil fácil… ![]()
Ai, espero que este tipo de situação tenha sido cada vez mais raro na sua vida desde que você veio pra cidade grande…
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Re: Ah, sim. Mesmo nos momentos solitários daqui, não tive que apelar pra ficar amigo de pessoas que dão festas estranhas com gente esquisita. Por aqui, cinemas e cia sempre me salvaram, na falta de pessoas…
Ai, como é constrangedor, né? Já passei por algumas situações desse tipo, um amigo meu até pede as vezes "Vicki, conta mais uma história dos Simpsons" (não sei porque ele resolveu batizar esse tipo de situação constrangedora e geralmente envolvendo casas estranhas como "Simpsons"). Olha, eu também não quero ir para o céu se for para fazer parte de uma família ou galera como essa…
Re: Eu e a Patrícia temos um código pra chamar esse tipo de gente. São os "Freitas". Como nasceu isso, não lembro…
Pelo menos eles num te chamaram pra um festa de rodeio. Pense, mizifim: sempre, sempre a coisa pode piorar!
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Re: Tá brincando. Na época que morei lá, Jaguariúna tinha a segunda maior festa de rodeio do Brasil, superada apenas pela de Barretos. O recinto do evento ficava apenas a algumas quadras da minha casa. Nesses dias, uns bárbaros invadiam a cidade. Parecia coisa de filme de Mad Max… Ou seja, nem precisavam me convidar pro rodeio, ele já estava no portão de minha casa…
Pense que o Tom Hanks não tinha cerveja nem Rolling Stones!!!
abraços
Re: ah, o Tom Hanks é o protótipo do bom moço. Ele não iria curtir essas coisas. Ele tá mais pra Coca Light e Celine Dion.
Putz!!
Socorro, viu?
E ficou quanto tempo nessa beleza de cidade? (Não fazia idéia que Jaguariúna era tão ruim assim)…
Re: Não era bem culpa da cidade, mas sim de minha total falta de tato pra encontrar pessoas que tivessem a ver comigo. Algumas semanas depois desse dia, eu acabei encontrando um pessoal bem bacana, de papo interessantíssimo, mesmo. Até um artista plástico doidinho-maluco-beleza tinha na turma que conheci. Coincidentemente, a maioria desse pessoal tinha vindo de São Paulo…
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Ai, Tuca… não pude deixar de rir. Aliás, pra ser sincera, dei gargalhadas aqui.
Re: ah, pode rir. No fim, tudo deu certo…
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Texto muito bacana! Ri…muito…
Re: que bom… pensei que, por ser muito longo - pelo menos pros padrões daqui -, muita gente iria rejeitá-lo.
Tenho sempre visitado seu blogue. Gosto muito do texto e é bom poder ler textos de qualidade sem ter que pagar, hehehe.
Parabéns e felicidades.
Re: opa, quando tiver vontade, pode me pagar, contribuindo para o fundo do blogueiro desamparado.
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só um desesperado social para confundir religiosos fervorosos com pessoas que adoram festinhas regadas a muita cerveja. bom, agora sabemos porque o gugu e o faustão continuam na tv.
Re: ah, não foi bem assim.. Antes da festa, eu conversava com o casal na boa, sem que um deles ficasse tentando me converter. Ou será que meu estado de desesperado social não me fez enxergar isso???
"só um desesperado social para confundir religiosos fervorosos com pessoas que adoram festinhas regadas a muita cerveja"(2)
Hehehehehe… Foi uma situação um tanto "Seinfeld", adorei!
Re: Anos depois do ocorrido, sabe que eu gostei também?
amOO seus textos…. me fazem rir demais!!!
Parabéns!!!
Eu só mudo a cidade - Curitiba - e plagio descaradamente a sua história. Só que ganhei dos amigos(?) uma bola de vôlei com cara e cabelos de Wilson. rsrs
Olá,
Achei sensacional este blog. Fantástico!
Visitei a página por acaso, enquanto fazia uma procura no google. Valeu a pena! Parabéns!
A propósito, também gostei muito das indicações de vídeo no Youtube… Chad Vader!! (Putz!)
É isso aí,
Abraços e bom final de semana!
Thomaz Júnior - Manhuaçu - MG
Muito bom!!!
Tambem ja me senti assim...perdida...
Gostaria de saber se você tem algum texto no seu blog que fale sobre mulheres pequenas(assim como eu rsrsrs).Se nao tem,eu gostaria de sugerir
que voce escrevesse um;eu ia amar!!!
Beijocas!!!
Re: Sobre mulheres pequenas, eu nunca escrevi uma linha sequer. O que é curioso, uma vez que a minha ex é baixinha. Mas, tudo bem, fica aqui na minha lista de pendências. rs
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