AS REVISTAS DO FUNDO DO ARMÁRIO
Eles estavam na sala, concentrados, assistindo um filme iraniano com legendas em alemão. Na cena em que o mocinho contemplava o deserto em câmera lenta pela enésima vez, ela levantou-se de súbito, dirigindo-se ao quarto deles. "Só pode ter ido ao banheiro", ele imaginou. Deu um pause no filme, apesar dela não ter pedido. Na volta, uma cena inusitada: ela ali, parada na frente dele, com aquelas revistas na mão. Sim, aquelas revistas. AQUELAS. O coração disparou. E agora?
- Plínio Ricardo, você pode me explicar o que essas revistas faziam no fundo falso de seu armário? - ele deu um stop no DVD, já preparando-se para tentar explicar a situação. Tentar, ora essa.
- Olha, Célia Regina… eu… eu… bem, é isso aí…
- Isso aí o quê? Você vem acompanhando tudo isso escondido de mim, é? - ela joga todas as revistas na cara dele, inconformada, espumando de raiva.
- Bem, é isso, eu costumo ver esse tipo de coisa também, como muita gente… Eu sabia que você não aprovaria.
- Patético… patético… e eu pensando que você fosse diferente. Mas não, é como qualquer um. As mesmas carências de um típico homem de classe média. Tosco!
- Ah, também não é o fim do mundo, né? São só umas revistinhas no fim das contas… E como você as descobriu? Deu pra ficar revirando as minhas coisas agora, é?
- Descobri por acaso, Plínio Ricardo. Por acaso! Hoje de manhã, eu tinha perdido a chave do carro, e queria ver se achava a cópia, nas suas coisas. Aí, eu encontro esse monte de porcaria…<br />
- Não é porcaria assim, vai. Tem muita coisa aqui, nessas revistas, que dá pra se aproveitar. Você mesma pode tirar proveito.
- Eu não estou ouvindo isso! Eu não estou ouvindo isso! Você, tão culto, tão bem informado, tão… Como pode?
- Nada a ver uma coisa com a outra, Célia Regina. Posso continuar sendo tudo isso ainda. Uma coisa não anula a outra. Entenda uma coisa, eu tenho necessidade de acompanhar tudo que está nessas revistas. É meu instinto, sabe? Preciso!
- Pra quê? Pra quê?<br />
- Você não vê a vida que eu levo? Você acha que estou feliz com tudo isso? Não!
- Bem, não dá pra querer tudo nessa vida… E onde fica aquela sua idéia de sempre ir atrás de coisas mais elevadas, culturalmente falando?
- Não basta a gente ficar discutindo filosofia na hora da janta. É preciso ir além, ambicionar algo mais.
- Ah, e você acha que essas revistas vão servir a esse propósito? Tá bom…
- Acho! Quero ser mais prático e direto, é isso aí!
- Que ridículo, Plíno Ricardo - ela começa a folhear uma das revistas - olha isso aqui, uma matéria que dá conselhos sobre networking, de acordo com o job, tendo em vista uma gestão focada em business corporation de forma que haja um choque de gestão que resultará num upgrade da carreira!? Cruz credo! Você, lendo esse tipo de coisa???
- Ótima matéria, dicas valiosas aí.
- Não quero acreditar que você tem colecionado edições da Você S.A., Plínio Ricardo! Isso, o sistema, não tem nada a ver com você! Você é um artista. Um poeta, que tinha resolvido viver com a venda de seus livros nas filas dos teatros e dos cinemas de arte! Lembra? E isso é lindo!
- Lindo é ter dinheiro no bolso, Célia Regina… Muito dinheiro.
- Você não era assim…
- Não era, não era. Mas agora eu quero aprender coisas diferentes, sabe? Quero me libertar dessa vida de… poeta. De ficar só contemplando a beleza das coisas, aplaudindo todo pôr-de-sol bonito. Isso tem me sufocado. Eu quero mais. Quero desafios, pressões no dia-a-dia, fechar negócios, negociar comissões, traçar estratégias de marketing pra atender da melhor forma os meus clientes, aprender a trabalhar em equipe. Enfim, um target novo a cada dia. É isso aí, uma nova vida. Apertar a gravata com gosto! Liberdade!
- Mas… e os seus livros? Aquele projeto de contar a estória de Lampião e Maria Bonita através de sonetos…
- Isso é passado, baby. Resquício desse sistema poético que me oprimiu durante anos. Nunca mais. Now, I'm free. Do you know what I mean?
- Mas… e essas Caras que você coleciona também? - nessa hora, as lágrimas já eram de luto.
- Preciso de uma referência. Um padrão de vida a ambicionar. Você não tem idéia como essa revista me motiva, Célia Regina! E tem outra.
- O quê?
- Não acho justo que só você leve uma vida de executiva. Que fique me sustentando aqui. Eu também quero um MBA!
- Mas esse tinha sido o nosso acordo, Plínio Ricardo. Eu seria a provedora do lar e você, o meu poeta em tempo integral, sempre disposto a complementar a minha vida cheia de atribulações. A minha válvula de escape. O meu Fernando Pessoa.
- Poesia, poesia… cansei.
- Bem, sendo assim, perdeu o sentido o nosso relacionamento. Você tem até amanhã pra levar as suas coisas daqui.
- Peraí, também não é assim, Célia Regina. A gente pode se entender ainda e…
- É assim, sim senhor. Se não tem mais poesia, não tem mais casa, nem mesada.
- Nem mesada???
- Nem um centavo…
-…
-…
- Oh, minha musa, permita-me jogar essas revistas no lixo, pois teu amor tem um vértice de capricho, cujos lírios florescem em meu sentimento, tão inebriado quanto o mais nobre ser em seu alento.
- Ai, que liiiiindo! Amei!
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Comentários:
Hauahuahauahuahau… parece até os poetas descritos por Balzac! Qualquer verso por uns tostões!
Re: cada um sobrevive como pode, né?
Jesuis!!!
Hahahahahahahahahahahahahahahahaha! Viu, depois ainda tem gente que diz que ninguém vive de poesia! ![]()
Re: já imaginou se o poeta fosse realmente um profissional tão bem remunerado quanto um executivo de multinacional? Só em Passárgada!
Genial!! Hehehehe…
Re: Legalzinho, vai…
Ótimo! Muito bem bolado.
Re:
![]()
Eu já estava achando que as revistas eram outras… me enganou direitinho! Bastante original, gostei!
Re: ah, um libertino pode se ofender com uma revista gospel, por exemplo. Legal que vc gostou!
Gostei da reviravolta da história.
Texto muito bem construído, me diverti bastante lendo.
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