DEIXA DE FRESCURA!

Às vezes tenho dó dos que têm muita sensibilidade. Pois, em muitos casos, pode ser muito chato perceber certos detalhes mais do que os outros. A pessoa fica no isolamento dos que enxergam demais, quase sem ninguém pra compartilhar aquilo que é tão óbvio, pra ela. Uma cegueira às avessas: incomunicável por ver demais. É como gritar gol sem ter alguém ao lado pra comemorar. Ou então, vaiar numa voz só. Descobertas e contemplações quase sempre solitárias. Essas pessoas, no caso de protestarem contra aquilo que só elas perceberam, recusando-se a entrar no mesmo tom da maioria que não viu nada, ouvem quase sempre a mesma resposta:

- Deixa de frescura!

Veja o caso dos que têm paladar apurado, por exemplo. Percebem temperos imperceptíveis pra maioria dos mortais. Sim, têm o privilégio de aproveitar cada centímetro de uma boa comida. Ponto pra eles. Mas, e quando são obrigados a encararem aqueles pratos destinados a forrar o estômago de um batalhão, nada mais? Aí, são obrigados a suportarem cada centímetro de uma gororoba indigesta - pra eles - enquanto o pessoal ao redor, do paladar manco, engole tudo sem cerimônia, sorrindo. Bandejões de restaurantes universitários tão aí pra ilustrar bem essa situação.

Ainda no departamento dos sentidos, conheci tempos atrás uma pessoa que não suporta no cinema barulho de gente mastigando pipoca. E não é vindo somente daquelas figuras que mastigam feito um cachorro babão, bocão aberto, como se estivessem encarando um chiclete gigante. Por ouvir demais, ela confessou ter antipatia até pelo som do mais discreto comedor de pipoca. E por reconhecer que qualquer protesto contra a entrada de pipoca nos cinemas seria algo tão solitário e bizarro quanto promover uma campanha pela absolvição da Suzane Ritchtoffen, ela prefere assistir filmes em casa mesmo. E sem boca alguma comendo pipoca ao lado, é claro.

Eu ia listar mais exemplos aqui, até além dos cinco sentidos, como no caso das pessoas que têm sensibilidade exagerada pra perceber o quão chatos certos indivíduos são, sofrendo mais do que a maioria na hora de suportar os mesmos. Mas paro por aqui, por não estar mais com a mínima paciência pra comentar sobre este assunto. E pra você, que não gostou desse texto, principalmente da maneira como ele terminou, deixa de frescura, vai…

(Texto escrito em 12/04/2006)


Permalink10.09.07, 20:40:54, by Tuca Hernandes Email , Comportamento 5 comentários



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Comentários:


Comentário de: ana p. · http://www.coletivodeideias.blogspot.com

Ainda bem que eu não sou fresca pra mta coisa. Mas se tem uma coisa que eu acho insuportável são as pessoas que peidam em público. Lamentável…


Agora… tô rindo que num páro com esses atendimentos do Speedy! huahuahuahuahuahuahuahuahuahuahuhaua!!!



A do Seu Barriga é óóóóóótema!!!


Re: vc me fez de lembrar de uma família com quem viajei há muitos anos atrás. A "Família Gases" - um casal e dois moleques - não se intimidava de soltar bufas tão barulhentas que assustavam tanto quanto um trovão. Até o cachorrinho deles entrava na dança.


PermalinkPermalink 10.09.07 @ 23:30



Comentário de: Kandy · http://ideiasnajanela.blogspot.com

Ver demais às vezes é problema mesmo. Sentir demais, perceber demais. Mas eu não troco esse privilégio. Meus irmãos me chamam de fresca e, ironicamente, quando assistem a algum filme que eu adorei, mesmo sem tê-lo visto já saem dizendo: "meu, se a Kandy gostou é daqueles filmes sem pé nem cabeça, uns idiotas". Penso isso: longe de querer generalizar, os que vêem e sentem demais são experts em desconstrução e reconstrução. Os que pensam que tudo é frescura são especialistas em reprodução. E só.



Re: Kandy, genial essa sua conclusão. Genial. Enxergou bem a coisa.


PermalinkPermalink 12.09.07 @ 01:59



Comentário de: Alessandra · http://alessandrasouza.blogspot.com

Tuca, esse post me lembrou o enredo de Ratatoille, já viu? Exatamente a história de um rato de paladar refinado, que se recusa a comer lixo como os outros ratos. Quando eu penso nisso, eu começo a entender e ter mais simpatia pelo esnobismo. Pode ser muito difícil tolerar o gosto do povo que tem os sentidos mancos para quem sabe que pode ficar muito melhor.


Re: Eu vi Ratatoille sim, Alessandra. Ótimo. Uma coisa que reparo é que muita gente adora dizer que é do povão, e que encara tudo, seja lá como for. São capazes de comer areia com isopor e falarem que tá bom demais, só pelo orgulho de dizer que não têm frescura. Vai entender. Por isso, eu prefiro ser "esnobe", presenteando meu paladar e outros sentidos, sempre que possível.


PermalinkPermalink 12.09.07 @ 09:43



Comentário de: claudia lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

Ih! Eu sou uma casca grossa, viu! Não "sinto" nada!


Re: nada mesmo? Como assim, hein?


PermalinkPermalink 12.09.07 @ 15:57



Comentário de: Mutumutum · http://mutumutum.blogspot.com

Poizé… frescuras são um saco! Não tenho nada de afinado. Tenho problemas com a audição (uma coisinha de nascência), problemas com o paladar, sou míope… enfim, não tenho por que ser fresco, rssss



E, pra completar, sou extremamente distraído, o que me impede de perceber tudo ao meu redor. Nunca vi isso como uma coisa boa, mas pensando bem…


Abraços o/


Re: minha nossa, vc vive numa bolha, imune a tudo!


PermalinkPermalink 13.09.07 @ 11:27



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