PRIMEIROS BEIJOS

Ricardo e Cecília

Há quantos anos ele esperara por aquilo? Quase sete. Viveu uma expectativa absurda durante esse tempo todo, agüentando vê-la com outros homens, nunca deixando de pensar que o dia dele chegaria. E o dia, numa noite, havia chegado. Aconteceu o tão sonhado beijo com a musa dele, que até então insistia em sinalizar apenas amizade. Tudo bem que ele teve a sensação de estar lambendo um copo cheio de whisky, tamanho o exagero com que ela bebera naquela noite. Pouco antes, percebera que, se ela assoprasse alguma ponta de fogo, decerto que serviria de lança chamas. Hálito forte de bebida, e daí? O beijo enfim existiu, era o que importava. Língua com língua. Mas, um momento. Ela se lembraria do que ocorrera no dia seguinte? Não, ele a conhecia. Esqueceria de tudo. Ela perguntaria pra alguém se fizera besteira na noite anterior. Quando revelassem que ele fora a besteira da vez, como será que ela reagiria? Poria as mãos na cabeça, envergonhada, preferindo estar morta? Ou daria um sorriso, aliviada, esperando que a besteira ligasse, convidando-a pra reconstituir os fatos?

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Fernando e Sônia

Como ele suspeitara na fase do flerte, o beijo mais do que aguardado entre os dois foi diferente. Um pouco além do especial. Tão bom que o tornava inclassificável. Antes do segundo beijo, naquele intervalo preenchido por olhares de cumplicidade, fosse ele um poeta, ele diria que o toque dos lábios dela fora um despertador pra um mundo terno, acordando-o pro amor, antes tão distante. Fosse ele um poeta, ele teria revelado que aquele beijo trouxera um jardim instantâneo ao redor dos dois, flores delicadas os unindo. Mas, como ele achava poesia coisa de viado, preferiu agarrá-la pra um segundo beijo, antes que ela conseguisse dizer que ele era tudo que sempre quis.

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Adriana e Bruno

No instante em que a língua dos dois se encontrou, ela teve certeza que aquele seria o grande amor da vida dela. Já não se importava com o discurso que ele fizera minutos antes, naquele barzinho, dizendo que, no momento, ele queria mais era aproveitar a vida, sem intenção alguma de se prender a alguém. Ela tinha certeza que aquele beijo mudaria toda a visão que até então ele tinha do amor. Nunca mais outras, de agora em diante, só ela, teve certeza. Foi especial. Impossível ele não ter sentido o mesmo. Meia hora depois de uma série de beijos, ela teve vontade de chamar a atenção dele, que não parava de olhar pra bunda de toda e qualquer mulher que passava ao lado. Não, melhor ficar quieta, concluiu. Pra ela, era charme dele aquilo, tentando se passar por cafajeste. No fundo, queria esconder que a amava, ora essa. Mas ela jurou pra si mesma que o consertaria. Enquanto isso, anjos suspiravam, inconformados. Quase chorando.

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Paula e Carlos

Era um sentimento estranho, conflitante. Ao mesmo tempo, havia a vontade de beijá-lo ainda mais e dar uns tapas na cara dele. Por que ele não se empenhara um pouco mais pra conquistá-la desde quando se conheceram, anos atrás? O beijo dele era perfeito. Raro de tão bom. Cinco estrelas. Logo ele, que aparentava não ter o mínimo jeito de fazer aquilo direito. Um desastre certo. Mas, por conta de uma carência desesperadora, resolveu dar uma chance a ele, que mais uma vez tentava algo com ela. Foi na base do "ok, já que tem tu, vai tu mesmo". Seria apenas um detalhe sem importância na vida dela. Algo pra cumprir tabela. No entanto, ela encontrara aquilo. E agora???? Não tinha planejado se apaixonar por ele. Justo ele. E agora, não tinha mais ninguém. Muito menos o infeliz que fora o responsável pela carência daquela noite. E que tinha um beijo apenas ok, três estrelas.

(Texto escrito em 08/04/2006)

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E que tal:


Permalink10.08.07, 00:35:07, by Tuca Hernandes Email , Relacionamentos 4 comentários



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Comentários:


Comentário de: Vicki · http://www.flickr.com/photos/vickiporto

(suspiro) "ai, mas quem virá / me pergunto a toda hora / e a resposta é o silêncio / que atravessa a madrugada" (Pressentimento - Elton Medeiros / Herminio Bello de Carvalho)

Ai, ai, repara não, mas é que o último-primeiro-beijo foi meio complicado (ou ainda está sendo, sei lá;). Inferno astral pré-30! <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />

Re: beijos que ficam reverberando depois, sem sossego, é um problema, viu? Ou não?


PermalinkPermalink 10.08.07 @ 14:43



Comentário de: Claudia Lyra · http://loucaporblog.blogspot.com

"Paula e Carlos" já aconteceu comigo!!! Caraca!!! Pior é que eu acabei dispensando o sujeito… fui uma besta…


Re: ué, mesmo depois daquele beijo Gold Master Plus?


PermalinkPermalink 10.08.07 @ 16:19




Semana passada assisti a um filme que dizia que todas as definições de amor são verdadeiras, por mais variadas e estranhas que possam ser. Seu texto contribui para aumentar essas definições. Muito bom.


Re: o negócio é cada macaco beijando no seu galho, não?


PermalinkPermalink 12.08.07 @ 15:10



Comentário de: Sarah K · http://ideiasdespedacadas.wordpress.com/

Rs, adorei Fernando e Sônia.
O fim é ótimo!!

Agora fiquei impressionada com uma passsagem de Paula e Carlos, foi igual a uma coisa que aconteceu comigo … rs, mas acho que sua intenção foi essa mesmo né? Fazer a gente se ver nessas cenas … Muito bom!!
<img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />

Re: Sim, todos já tiveram o seu momento "Paula e Carlos", em ambos os lados…


PermalinkPermalink 16.08.07 @ 22:36



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