KING KONG
Ter um julgamento positivo sobre nós mesmos é saudável. No entanto, convém lembrar que vivemos numa sociedade onde as opiniões divergem. Dessa forma, nem sempre aquilo que nos encanta ao espelho comove igualmente o estranho ao lado. Podemos até desconfiar que existe ouro em nosso umbigo, mas cabe aos outros reconhecerem e festejarem isso. Da nossa parte, resta deixarmos a possibilidade que nos descubram, sendo que os elogios, se merecidos, aparecerão. Não defendo aqui o uso quase que obsessivo da humildade, a não ser nos casos dos que já treinam em vida a possibilidade de virarem santos um dia, com a benção do Vaticano e da CNN. Defendo o bom e velho semancol: não adianta sermos craques na autopromoção se o conteúdo não corresponde ao que a propaganda se propõe.
Não adianta, por exemplo, a feiosinha ficar repetindo mantras de auto-ajuda ("Eu sou linda! Eu sou linda!") no intuito de ficar fisicamente tão bela quanto uma Gisele Bündchen. Nesses casos, algumas chegam a acreditar tanto no seu potencial de Penélope Charmosa que fazem até aqueles books de modelo, na esperança de que algum milagreiro enfim as descubram como a nova top model, apesar de ninguém jamais ter sugerido algo nesse sentido. Bem, exceto os caras que só querem levá-las pra cama. Outro caso clássico é o das pessoas que acham que nasceram pra cantar. No videokê, ficam empolgados ao ganharem avisos do tipo "Parabéns, você já é quase um profissional!!!", acreditando que aquela máquina, como uma esfinge do mundo artístico, vive dando a mensagem subliminar que faltava nessa vida, a dica da vocação real da pessoa: cantar. E não se importam com a indiferença do pessoal ao redor, que não viu nada demais naquilo. Um ou outro elogio, tudo bem. Mas pra essas coisas, elogio de bêbado e de pretendente não conta.
A desconfiança de sermos bom em algo é comum a todo e qualquer ser humano. O problema é a forma como alguns reagem a um elogiozinho besta, solitário, sobre aquela desconfiança. Quem tem bom senso, consumidor leal de semancol, espera outros carimbos de aprovação pra realmente vir a acreditar que manda bem naquilo, passando daí a se dedicar mais, se aprimorar, vindo até a propagandear o selo de aprovação da multidão. Outros, já saem acreditando que são gênios escondidos, até então arquivados, e que o mundo precisa urgentemente ter o privilégio de conhecê-los. Daí, nascem os pagadores de mico. Alguns, de confiança tão precoce, sem conteúdo, que seria injusto dizer que pagam mico. Pagam um King Kong mesmo.
(Texto escrito em 04/05/2006)
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- Esperar eu arranjar um tempo decente pra escrever algo novo por aqui? Enquanto isso, vou republicando textos do meu blog antigo, que ainda não estavam por aqui.
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Comentários:
Eu sou linda! Eu sou linda!!!!
Bjo…
Re: não sendo exercício de auto-ajuda, maravilha! O importante é ser sincera consigo mesma.
Eu "me acho" em algumas coisas… mas juro que "me acho" escondido, hehehehe…
Re: ah, muitas vezes, eu me acho também. O problema é que acabo me perdendo novamente. Aí, preciso voltar a me achar, entende?