PRA ONDE FOI O MEU DINHEIRO?

Trabalhamos para ganhar dinheiro, é óbvio. Concordo que, além da remuneração, muitas coisas podem estar na balança também, de forma que achemos um bom negócio continuarmos num determinado emprego ou prestação de serviços. Mesmo assim, dinheiro continua sendo o objetivo primordial, uma vez que sem ele deixamos de fazer coisas básicas nessa vida, como comprar um belo livro, jantar num bom restaurante, e - por que não? - pagar um plano de saúde decente, sem preocupações com as prestações do aluguel e do carro. Dessa forma, aquela grana que conseguimos, através de nosso esforço, torna-se fundamental. A valorizamos horrores, e com razão. É nossa, e ninguém tasca. Pois bem, tascaram de mim, no decorrer dessa semana, quando descobri que clonaram o meu cartão do banco.

Diante de uma situação dessas, há um misto de perplexidade com revolta. Afinal, aquele dinheiro, reservado pra fins nobres, obtido de forma honesta, acabou sendo utilizado pra custear o luxo de uns vagabundos. Não é justo. Ok, bem-vindo ao mundo. Não conheço ladrão desse perfil - sofisticado ao ponto de clonar cartões - que tenha utilizado a verba de seus desvios pra coisas, digamos assim, mais elevadas, de forma que sirvam como atenuantes do delito em si. Que nada. Jamais vão custear um complicado e caríssimo tratamento de quimioterapia do filho da vizinha. Comprar livros escolares para os seus filhos? Nunca. No fim, vão torrar tudo em práticas hedonistas, como farras na zona regadas a bebida e pó, viagens sem limite de quilometragem e crédito, e demais coisas no estilo living la vida loca.

Por causa disso tudo, me veio um pensamento meio bobinho enquanto eu saía do banco, que se prontificou a restituir o meu prejuízo, que, no fim das contas, não foi tão significativo assim. Quem sabe, com a minha grana, o ladrão não teria, por exemplo, comprado alguns discos dos Beatles? Uns DVDs do Seinfeld? E que tal todos os livros do Machado de Assis? Guimarães Rosa? Nelson Rodrigues? Chico Buarque? E a nova safra da literatura nacional? Legal, não? Já imaginou, eu, de alguma forma, servindo como uma espécie de mecenas de alguém que, necessitado de mais cultura na sua vidinha sem perspectivas de emprego, resolveu recorrer ao desespero de clonar cartões? Imaginem o drama, algo perto de alguma tragédia grega que talvez ele tenha comprado também. Pois é. Mas tamanho delírio durou apenas uns segundos. No fim, a cena que perdurou mesmo foi a de um cara com extremo mau gosto pra roupas e músicas, analfabeto funcional, que dançava ao som de uma canção brega qualquer, no meio de umas prostitutas tão chapadas e fúteis quanto ele.

Ser tosco, tudo bem. Mas com o meu dinheiro não, pô!

****************

E que tal:


Permalink29.06.07, 12:53:28, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Meu Umbigo, Trabalho 8 comentários



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Comentários:


Comentário de: Srta. Bia · http://groselha.wordpress.com

Lembrei de um amigo que teve uma coleção de cd's de música clássica (daqueles que vinham na caras), roubado do carro, mas o rádio continuou lá. O ladrão estragou a porta, teve um trabalhão para arromba-la com uma chave de fenda, daí ao que parece levou só os cd's. E o rádio do carro ficou lá.



Mas Robin Hood devia mesmo gostar de funk.


pôxa, não vou poder esperar o "que tal…", vou reclamar no procon, hein.


Re: bem, como se vê, o "que tal" surgiu, como prometido… Quanto esse negócio de ter carro arrombado, uma vez fizeram isso no carro da minha mãe, detonando a porta, só pra levarem uma sacola com calcinhas. Desespero desses travecos quase mendigos? Talvez…


PermalinkPermalink 29.06.07 @ 15:54



Comentário de: Fernanda

posso deixar um "que tal"?

que tal ler um texto do joão pereira coutinho?
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult2707u7.shtml

tem 3 textos nessa página, mas preste atenção no do dia 11 de março, que fala sobre o mesmo assunto que você: roubo. é ótimo, você vai gostar.

bjs.

Re: Vai bem no espírito do que escrevi aqui mesmo, mas exposto de um modo mais sofisticado, sem dúvida alguma. Gostei. Sobretudo do que ele fala sobre uma certa vingança, nesse contexto…


PermalinkPermalink 29.06.07 @ 16:27



Comentário de: Claudia Lyra · http://loucaporblog.blogspot.com

Meu cartão também já foi clonado. Caraca, só pensei na minha própria raiva. Nem passou pela minha cabeça que o safado poderia ter usado meu dinheiro pra cheirar pó ou pra, alternativa mais louvável, se tornar menos burro… só raiva mesmo de trabalhar tanto pra um espertalhão me roubar.



Re: ah, mas nessas horas, não tem jeito. Sempre acabo pensando bobagens pra amenizar o ultraje… Funciona. Pelo menos pra mim. <img src="/blogs/rsc/smilies/graybigrazz.gif" alt=":P" />


PermalinkPermalink 29.06.07 @ 17:36



Comentário de: ana p. · http://www.coletivodeideias.blogspot.com

Hahahahahahahahaha, Tuca!… doce ilusão a sua…


[eu tive um cartão de crédito clonado, e a Credicard ainda teve a pachorra de mandar o meu nome pro SPC por conta disso... MEREÇO, me diz, devo merecer!!!]



Re: Bem, até agora, o banco me tratou muito bem. Mais um pouco, me ofereceriam um cafezinho na gerência. Me garantiram que a restituição sairá em poucos dias. Vejamos, vejamos…


PermalinkPermalink 29.06.07 @ 21:58



Comentário de: Cíntia Teixeira · http://www.asimediatas.blogspot.com

Passei por situação semelhante quando fui assaltada. O ladrão, romântico nato, sustentava a namorada (ex-prostituta, ahahaha) com os lucros oriundos de sua vida desregrada. Ele usou minhas folhas de cheque, vejam só, para comprar flores para a mocinha. Estavam sustados, e o florista arcou com o preju. Soube disso tudo porque, meses depois, o delinquente foi pego pela polícia e eu fui lá reconhecer. Aí, conheci o belo casal. Além das flores, soube que ele comprava cremes, maquiagem e roupas para a gata, tudo com o dinheiro dos assaltados. Fui mecenas do Amor!



Re: Uau! Isso parece até roteiro de música do "Odair José". Adorei!


PermalinkPermalink 01.07.07 @ 20:05



Comentário de: Glaucia · http://tocando-em-frente.blogspot.com/

Olha. Meu cartão foi clonado e em 30 minutos o cara gastou 120 reais. (claro que era homem, porque se fosse mulher teria gasto 500…;)
Com o meu dinheirinho, ele colocou gasolina, comprou uma pizza, sorvete e refri.
O próprio morto de fome, na ampla concepção da palavra…

Re: Menos sorte teve uma moça que encontrei no banco, quando fui resolver a minha situação. Em questão de horas, limparam a conta da coitada, surrupiando mais de quatro mil reais… Ao contrário do meu caso, mixaria perto desse valor, desconfio que o dela irá demorar um bocado pra acontecer uma restituição…


PermalinkPermalink 03.07.07 @ 16:27



Comentário de: Andréia

Rsrsrs, se pensar assim funciona pra você… quando tive meu cartão clonado o máximo que eu conseguia imaginar era o que eu deixei comprar com o maldito dinheiro só pra vir um filho da p… e levar ele todinho…

Re: Ah, funciona sim. Nessas horas, descubro que sou pateticamente comum, mais um número de uma estatística qualquer. O riso alivia um pouco a sensação de otário.


PermalinkPermalink 03.07.07 @ 17:04



Comentário de: Ton · http://tonzerabrasil.blogspot.com/

Interessantíssimo quando vc diz que pode ter ajudado alguém economicamente mais frágil a adquirir cultura. Não acho tão absurdo esta idéia, pq apesar de a clonagem de cartões ser sistematicamente fácil de se fazer, aplicar esse tipo de golpe requer um mínimo de massa cinzenta.



E se o banco vai te devolver a grana, nem foi tão mal arrancar um pouco de dinheiro desses bancários!


Abraços e parabéns pelo texto !!


Re: Ah, mas por causa de casos feito o meu, esses mesmos bancários inventam taxas (ou aumento do valor das mesmas) para se protegerem de determinados prejuízos, como saques através de cartões clonados. Olha só a recomendação que o cara do banco me deu, pra evitar que isso venha a ocorrer comigo, novamente: "Reze, meu amigo. Reze…"


PermalinkPermalink 03.07.07 @ 19:12



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